A luz da casa nova era pior. Foi a primeira coisa que Vera Duarte notou na segunda-feira de manhã, e foi a única coisa que ela permitiu-se notar: em Ermelino, a janela da sala dava para o muro do vizinho, a dois metros e meio, e a claridade que entrava ali era uma claridade de segunda mão, refletida, sem hora. Na Vila Ré dava para saber que horas eram pelo chão. Ali não dava. Ela pôs a água no fogo às cinco e vinte, por hábito, ainda que naquele bairro não passasse trem nenhum. O envelope pardo estava sobre a mesa, onde ela o deixara na noite de sábado, ao lado do celular. Não tinha guardado. Tinha ficado ali dois dias, entre o açucareiro e a lista de compras, e Vera passara por ele umas quarenta vezes sem tocar. Sentou-se. Puxou o celular. Digitou o nome da empresa que estava impresso no cartão. A primeira coisa que apareceu foi uma imagem de arranha-céu com vidro espelhado, seguida de uma sequência de manchetes de caderno de economia qu
Última actualización : 2026-09-06 Leer más