O jantar de domingo na casa dos Aragão, no Alto de Pinheiros, era um ritual de trinta e um anos.Cinco da tarde, mesa posta, torta de maçã da dona Vitória, café coado às seis e meia, e nos últimos onze anos um lugar vazio que ninguém comentava — porque a Renata quase sempre vinha, mas quase sempre chegava tarde.Naquele domingo ela chegou às cinco em ponto.— Filha!— Oi, pai.Ele abraçou-a na porta, do jeito que sempre abraçava, com as duas mãos nos ombros dela e um beijo na testa.Renata Aragão abraçou de volta.E foi ali, no vão da porta de uma casa em que ela tinha crescido, com o cheiro de torta de maçã vindo da cozinha, que ela entendeu por que tinha vindo — e não era para confrontar, e não era para acusar, e não era para tirar satisf
Última atualização : 2026-10-04 Ler mais