O ar no subsolo do galpão de suprimentos era denso, cheirando a mofo, gasolina e o suor frio do pavor. A única luz vinha de uma lâmpada nua pendurada por um fio descascado no teto de concreto. No centro do cômodo, amarrado a uma cadeira de ferro pesada, estava o Paulista. O garoto que comia na minha mesa, que recebia o meu salário e que jurara lealdade à bandeira do morro tremia da cabeça aos pés, a respiração desordenada rasgando o silêncio do cativeiro.Aproximei-me devagar. O som das minhas botas contra o chão batido era o único aviso de que a sentença chegara.— Marcos... por favor, Marcos... — ele implorou, as lágrimas sujeiras de poeira escorrendo pelo rosto. — Eu juro pela minha mãe que eu não sabia que era pra pegar a Doutora! Eles disseram que era só pra desligar o canal por três minutos! Disseram que era assunto de carga!Parei a meio metro dele. Não gritei. Não dei um soco. A raiva no meu peito já ultrapassara a fase do barulho; era uma pedra de gelo afiada e mortal. Puxei
Última actualización : 2026-08-31 Leer más