2 Respostas2026-05-30 10:45:40
Quincas Borba, esse personagem tão peculiar de Machado de Assis, tem um fim que é puro sarcasmo machadiano. No livro 'Memórias Póstumas de Brás Cubas', ele já havia morrido de uma doença misteriosa, deixando sua filosofia do 'Humanitismo' como legado. Já em 'Quincas Borba', a obra que leva seu nome, sua morte ocorre de forma quase absurda: ele enlouquece completamente, acreditando ser o próprio Salvador, e acaba falecendo em um hospício. Machado não poupa detalhes ao mostrar como a louca obsessão do personagem com suas ideias grandiosas o consome até o último suspiro.
O que mais me intriga é como Machado usa essa morte para criticar a intelectualidade vazia e as ideias que mais parecem charlatanismo. Quincas Borba morre sozinho, esquecido, depois de ter arrastado Rubião (seu discípulo) para o mesmo abismo de ilusões. É trágico, mas também hilário no modo como o autor expõe a fragilidade humana. A cena da morte dele no hospício, gritando frases desconexas sobre sua filosofia, é daquelas que ficam na cabeça do leitor — um misto de pena e riso amarelo. Machado não faz melodrama; ele esfrega na nossa cara o quanto podemos nos tornar caricaturas de nós mesmos quando perdemos o contato com a realidade.
1 Respostas2026-05-30 05:30:15
Quincas Borba é um daqueles personagens que ficam gravados na memória, não só pela genialidade de Machado de Assis, mas pela forma como ele encapsula ideias filosóficas e críticas sociais em uma figura tão peculiar. Ele aparece em duas obras do autor: 'Memórias Póstumas de Brás Cubas' e no romance que leva seu nome, 'Quincas Borba'. Em ambas, ele representa o filósofo criador do 'Humanitismo', uma doutrina satírica que parodia o positivismo e o determinismo científico da época, misturando niilismo e uma visão quase cínica da natureza humana.
No romance 'Quincas Borba', ele deixa de ser apenas uma ideia e ganha corpo como um homem que enlouquece após a morte da amada, tornando-se um mendigo filosófico. Sua loucura é, na verdade, uma lucidez perturbadora: ele enxerga a brutalidade e a falsidade da sociedade, mas é visto como um doente. Machado usa esse personagem para questionar o que é sanidade e quem realmente está louco — se é o homem que critica o mundo ou o mundo que insiste em suas ilusões. Quincas Borba acaba sendo um espelho distorcido da elite brasileira do século XIX, expondo sua hipocrisia e vaidade. Aquele cachorro que herda seu nome e torna-se obsessão do protagonista Rubião? Uma metáfora brilhante sobre como as ideias podem ser reduzidas a fetiches vazios quando apropriadas por quem não as compreende.
Ler Quincas Borba hoje me faz pensar em quantas 'filosofias' modernas são absorvidas superficialmente, virando slogans de autoajuda ou discursos vazios. Machado já antevia isso no século XIX, e é por isso que sua obra continua tão atual. Quincas Borba não é só um personagem; é uma ferramenta afiada para dissecar a humanidade, e Machado maneja essa lâmina com um humor ácido que dói de tão preciso.
3 Respostas2026-01-09 03:23:44
Machado de Assis tem um talento incrível para esmiuçar as entranhas da sociedade brasileira do século XIX, especialmente no Rio de Janeiro. Em 'Dom Casmurro', ele constrói uma narrativa que vai muito além do triângulo amoroso entre Bentinho, Capitu e Escobar. A obra revela as contradições da elite urbana, a fragilidade das relações humanas e a forma como a aparência social muitas vezes suplanta a verdade. A ironia fina do autor expõe hipocrisias, como a moralidade seletiva da época, onde conveniências ditavam comportamentos.
Já em 'Memórias Póstumas de Brás Cubas', o defunto-autor narra sua vida com um cinismo delicioso, mostrando como a ascensão social era pautada por jogos de interesse, favores e superficialidades. Machado não apenas retrata a sociedade, mas a dissecava com uma precisão cirúrgica, questionando valores como honra, casamento e status. Seus personagens são espelhos distorcidos de uma realidade que, em muitos aspectos, ainda ecoa hoje.