
A Alice Errada
Alice Bellandi está prestes a completar vinte anos e deveria estar pensando em liberdade, festas e no futuro. Em vez disso, vive sob a proteção sufocante do pai, estuda à distância e conhece o mundo quase sempre através de uma tela.
Até ser sequestrada.
Konstantin Voronov passou quinze anos procurando respostas sobre a morte da esposa grávida. Antes de morrer, ela deixou poucas pistas, um nome e uma frase que ele nunca conseguiu esquecer:
Alice sabe onde está a chave.
Convencido de que Alice esconde a verdade, Konstantin a leva para sua propriedade e a mantém em uma luxuosa suíte de vidro, onde beleza e vigilância se confundem. Cercada por paredes transparentes, um jardim que não pode alcançar e um homem que parece enxergar muito mais do que deveria, Alice insiste que ele cometeu um erro.
— Você pegou a Alice errada.
Mas Konstantin tem certeza de que não.
Enquanto ele tenta arrancar dela um segredo que Alice jura não conhecer, pequenos fragmentos de seu passado começam a deixar de fazer sentido. Um velho exemplar de Alice Através do Espelho. Documentos que seu pai queria que ela assinasse. Memórias incompletas. Uma chave escondida durante anos.
E, no centro de tudo, Konstantin.
O homem que deveria ser apenas seu carcereiro se torna também a tentação mais perigosa de uma garota que nunca beijou ninguém, nunca se apaixonou e nunca teve liberdade suficiente para descobrir quem realmente é.
Porque talvez o maior segredo não seja onde está a chave.
Talvez seja descobrir quem é Alice de verdade.
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Chapter: FicaPOV: KONSTANTINAlice levou menos tempo para chegar naquela noite.Não contei.O fato de ter percebido já era ruim o bastante.Quando ouvi a batida, fechei o relatório que estava lendo e abri a porta antes que ela repetisse. Alice estava exatamente como eu imaginava que estaria quando disse que ia dormir: camiseta larga, shorts curtos, óculos, cabelo preso de qualquer maneira e nenhuma tentativa de parecer outra coisa além de cansada.Foi provavelmente por isso que meu olhar demorou nas pernas.Ela percebeu.— Você veio — falei.— Eu disse que vinha.Abri espaço e Alice passou por mim, levando consigo o cheiro do sabonete e alguma coisa que já começava a reconhecer como dela. Quando avisou, antes mesmo de chegar à cama, que tinha ido apenas dormir, precisei conter a vontade de perguntar por que parecia considerar necessário esclarecer.— Entendido.Ela parou e olhou para mim.— Só isso?Voltei para a mesa para esconder o sorriso.— Você queria resistência?— Não. Só esperava mais arro
Last Updated: 2026-11-01
Chapter: Depois da águaPOV: KONSTANTINAlice levou dezessete minutos para aparecer para um café de cinco.Eu contei, embora não tivesse nenhuma razão para isso. Também não tinha razão para passar parte daqueles dezessete minutos lembrando da boca dela dizendo eu quero você como se quatro palavras fossem capazes de alterar a estrutura de uma manhã inteira.Tinham sido.Tomei dois analgésicos, vesti uma camiseta porque minhas costelas já tinham recebido atenção suficiente e fui para a cozinha menor antes que ela chegasse. Era cedo demais para a casa estar completamente desperta, mas a parte de serviço já começava a ganhar vida. Ouvi louça ao longe, uma porta abrindo, passos atravessando o corredor e o ruído metálico de alguma coisa sendo colocada sobre uma bancada. Pela janela, a umidade ainda permanecia sobre o jardim.Pedi café e, quase sem pensar, pedi que deixassem leite na mesa.Só percebi o que tinha feito quando a jarra apareceu.Alice usava mais leite quando estava cansada. Não sabia exatamente quando
Last Updated: 2026-11-01
Chapter: ÁguaPOV: ALICEA piscina estava vazia quando cheguei.A manhã ainda não tinha acordado completamente. Uma claridade pálida atravessava as janelas do anexo e alcançava a água sem força suficiente para aquecê-la, embora o sistema mantivesse a piscina numa temperatura agradável. Do lado de fora, o jardim parecia úmido de sereno. Ali dentro, havia apenas o ruído constante da circulação da água e aquele cheiro de cloro que eu conhecia bem demais.Parei junto à borda. Já tinha estado naquele lugar muitas vezes antes de saber. Antes de descobrir quanto Konstantin conseguia ver. Antes de entender que, numa das vezes em que eu nadara acreditando estar sozinha, ele tinha acompanhado meu corpo por uma tela enquanto outra mulher estava ajoelhada entre suas pernas.A lembrança ainda conseguia me irritar. Provavelmente continuaria conseguindo por muito tempo.Tirei a saída de banho e deixei junto da toalha. O biquíni preto tinha sido uma escolha bastante pragmática para uma mulher menstruada que preten
Last Updated: 2026-11-01
Chapter: Porque eu deixoPOV: ALICEA excitação morreu rápido o suficiente para me deixar com raiva dele.— Eu sabia que estava doendo.Konstantin permaneceu alguns segundos apoiado na parede, esperando a costela permitir que respirasse normalmente.— Passou.— Não passou. Você só decidiu que não quer admitir.— É diferente.— Para um homem obcecado por precisão, você usa definições muito criativas quando o assunto é a própria estupidez.Segurei seu braço. Dessa vez ele não discutiu quando o conduzi até o quarto. A toalha continuava presa à cintura, o cabelo ainda molhado e gotas insistiam em descer pelo pescoço. Era profundamente injusto precisar ficar irritada com um homem naquela condição.Konstantin sentou na lateral da cama.Peguei uma camiseta limpa no armário e joguei para ele.— Veste.— Leone ainda precisa refazer o curativo.— Então segura. Eu preciso de trinta segundos sem olhar para você quase nu para recuperar algum juízo.O sorriso apareceu.— Quase?— Não testa sua sorte.Ele obedeceu apenas o
Last Updated: 2026-11-01
Chapter: KrestPOV: ALICEEu fui até a cozinha porque estava com fome.Era quase meia-noite e, pela primeira vez em dias, meu problema parecia simples o suficiente para ser resolvido com pão, queijo e alguma coisa doce que Marta provavelmente escondia dos homens daquela casa.Cheguei à porta e esqueci completamente da comida.Mikhail estava junto à bancada com uma caixa de primeiros socorros aberta. Konstantin ocupava um dos bancos altos, sem camisa, enquanto uma gaze manchada de sangue era retirada de sua mão direita.Meu olhar percorreu o estrago antes que eu conseguisse impedir.O corte no lábio foi a primeira coisa que vi. Depois a bochecha começando a escurecer, a faixa avermelhada sobre as costelas, o ombro arroxeado e os nós dos dedos abertos.— Que porra aconteceu?Konstantin ergueu os olhos com uma calma quase ofensiva para alguém que parecia ter sido usado como argumento numa briga de bar.Mikhail achou a situação adequada para um cumprimento.— Boa noite.— Você precisa rever sua definiçã
Last Updated: 2026-11-01
Chapter: SairPOV: KONSTANTINO impacto explodiu seco ao lado da estante. Dor subiu pelos dedos até o pulso. Mikhail não se mexeu imediatamente. Olhou para minha mão. Depois para mim.— Melhor?Flexionei os dedos. A pele tinha aberto.— Não.— Ótimo investimento.Voltei ao tablet.Alice: Você pretende invadir a propriedade dele por mensagem de texto?Ricardo: Se precisar.A resposta seguinte veio antes que ela pudesse escrever.Ricardo: Mas não precisa ser assim. Advogado. Polícia. Segurança privada escolhida por você. Um lugar neutro. Você não precisa voltar para Vittorio. Não precisa vir comigo. Não precisa sequer me ver se não quiser.Ricardo: Me diz o que faria você se sentir segura e eu organizo.Alice demorou.Alice: “Eu organizo” continua sendo um homem decidindo minha vida com uma embalagem melhor.Ricardo respondeu:Ricardo: Então organiza você. Eu pago, abro portas, entrego nomes e saio do caminho.Minha mão machucada latejou.Ricardo: Se quiser, nem precisa me agradecer.Alice: Você está
Last Updated: 2026-11-01

Cicatrizes de um Amor ao Sol
Cem reais foram suficientes para transformar um beijo em uma aposta. O problema é que Dorian Eisenberg nunca aceitou participar dela.
Aos vinte e três anos, Mariana Beckham ainda acredita em grandes amores, mesmo carregando marcas deixadas por perdas que mudaram sua vida. Estudante de Relações Públicas, romântica, impulsiva e perigosamente sincera, ela observa Dorian há mais de um ano — e deseja beijá-lo muito antes de ele sequer saber seu nome.
Dorian, aos trinta e cinco, é pediatra, empresário e herdeiro de uma fortuna. Reservado, controlador e acostumado a separar sexo de intimidade, passou mais de uma década sem beijar uma mulher na boca.
Até Mariana.
Na festa de noivado dos melhores amigos, uma provocação de cem reais circula entre os homens. Dorian recusa. Mariana não sabe de nada.
O primeiro beijo é escolha dela.
O segundo é escolha dele.
Quando a verdade vem à tona, porém, a atração dá lugar à desconfiança.
E os cem reais logo se tornam o menor dos problemas.
Entre provocações, ciúmes, mensagens de madrugada, desejo, viagens e uma intimidade que nenhum dos dois planejava, Mariana começa a atravessar as barreiras de um homem que transformou o controle em sobrevivência.
Mas amar também significa enfrentar luto, segredos, afastamentos e escolhas capazes de deixar novas cicatrizes.
Algumas perdas não têm conserto. Algumas palavras não podem ser recolhidas. E algumas marcas permanecem para sempre.
Entre culpa e perdão, queda e redenção, Mariana e Dorian precisarão descobrir se amar é suficiente para escolher um ao outro novamente.
Porque algumas marcas a vida impõe.
Outras são escolhidas.
E, diante de um pôr do sol sobre o mar, uma tatuagem poderá representar tudo o que as cicatrizes não conseguiram destruir:
a possibilidade de perdoar, recomeçar e finalmente voltar ao sol.
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Chapter: Fora de posiçãoMARIANA— Ela sabe quem eu sou?Caio olhou para a porta como se calculasse a possibilidade de empurrar a própria irmã para fora de casa sem precisar explicar nada. Isabela, ao contrário, parecia cada vez mais confortável. Ainda segurava a caixa de chocolates contra o corpo e me observava com uma curiosidade que teria sido muito menos constrangedora se eu não estivesse tentando colocar a blusa com o sutiã abandonado em algum lugar da bancada.— Sei — ela respondeu.Enfiei a cabeça pela abertura errada da blusa.Caio fechou os olhos por um instante.— Isa.— O quê? Ela perguntou.Consegui finalmente vestir a peça e puxei o tecido para baixo. O problema era que o sutiã continuava perto da fruteira, o cabelo parecia ter sobrevivido a uma ventania e meus óculos tinham descido pelo nariz. Não havia nenhuma possibilidade de recuperar dignidade naquela cozinha. Restava tentar parecer uma adulta que costumava ser encontrada sem roupa em bancadas alheias.Isabela pousou os chocolates.— Eu sabi
Last Updated: 2026-11-01
Chapter: O que eu quase disseCAIOFechei a porta do carro e fiquei com a chave entre os dedos sem ligar o motor.Do outro lado da rua, a janela do restaurante ainda enquadrava parte da mesa. Mariana estava de pé. Dorian permanecia sentado diante dela, e mesmo à distância eu reconhecia o modo como ele a observava quando alguma coisa importante estava acontecendo.Não precisava ouvir novamente.Eu amo você.Passei as duas mãos pelo rosto e afundei a cabeça no encosto.Eu sabia.Tinha sabido antes de dormir com ela, antes da viagem, antes de dividir uma cama com os dois. Sabia quando Mariana ainda falava de Dorian com uma mistura de raiva e saudade que ninguém usava para um homem indiferente. Sabia quando ele reapareceu e ela precisou de menos de cinco segundos para reconhecê-lo com o corpo inteiro.Saber tinha sido administrável. Ouvir saiu mais caro.O mais irritante era não existir sequer um culpado decente naquela história. Mariana não tinha mentido. Dorian não provocou. Eu fiz a pergunta e recebi a resposta. Ai
Last Updated: 2026-11-01
Chapter: O que eu queroMARIANAFoi só depois de mandar a última mensagem que percebi que preciso falar uma coisa para vocês dois era o tipo de frase que fazia qualquer pessoa imaginar gravidez, crime ou doença terminal. Cheguei a abrir a conversa outra vez para escrever alguma coisa menos ameaçadora, mas desisti. Talvez um pouco de medo fosse justo depois de tudo que aqueles dois já tinham feito comigo nos últimos meses.Passei o restante da tarde na CEU tentando revisar uma apresentação da faculdade e voltando três vezes ao mesmo slide sem absorver uma palavra. Meu celular ficou ao lado do notebook, virado para baixo para evitar que eu conferisse mensagens a cada dois minutos. Não adiantou muito. Eu sabia que Dorian continuava na empresa de Caio e, por alguma razão, essa informação ocupava espaço demais na minha cabeça.Até poucos dias antes eu teria considerado uma péssima ideia deixá-los sozinhos por horas. Agora Dorian tinha entrado numa reunião, opinado num projeto e permanecido ali mesmo depois de não
Last Updated: 2026-11-01
Chapter: Sem intermediáriosDORIANQuando Caio disse que eu podia entrar na reunião, imaginei que mudaria de ideia antes de atravessar a porta.Não mudou.Havia oito pessoas ao redor de uma mesa comprida, notebooks abertos, duas plantas espalhadas sobre a madeira e uma terceira projetada na parede. Caio ocupava uma das pontas sem parecer particularmente interessado em demonstrar que aquele lugar era dele. Apresentou-me apenas pelo nome, disse que eu acompanharia a reunião por alguns minutos e retomou o assunto que tinha sido interrompido.Sentei numa cadeira lateral. Nos primeiros cinco minutos, descobri duas coisas. A primeira era que eu entendia muito pouco do que estavam discutindo. A segunda era que Caio não tinha qualquer problema com isso.Uma engenheira de cabelo preso e óculos de armação vermelha discordou dele diante de todo mundo sobre a sequência de uma etapa. Não amenizou a frase, não procurou uma forma diplomática de dizer que o cálculo dele estava errado e não pareceu preocupada com o fato de o don
Last Updated: 2026-11-01
Chapter: O banco da frenteCAIODorian fechou a porta do passageiro e puxou o cinto como se entrar no meu carro depois de passar a noite na mesma cama fosse uma decisão perfeitamente razoável para nós dois.Não era.Vi Mariana pelo retrovisor enquanto saía da vaga. Ela continuava parada perto da entrada da CEU, uma mão segurando a alça da mochila e a outra solta junto ao corpo. Acompanhei sua imagem até o prédio esconder tudo. Dorian também olhou para trás. Nenhum dos dois comentou.Durante a viagem, ele tinha passado horas no banco traseiro porque Mariana estava ao meu lado. Agora ocupava exatamente o lugar dela. O perfume dela ainda estava no carro, misturado ao cheiro de café que eu tinha comprado no caminho e ao resto de maresia preso nas roupas. Havia um elástico de cabelo esquecido perto do câmbio, provavelmente dela, e uma embalagem vazia de bala no porta-objetos que eu não lembrava quem tinha deixado.Pequenas evidências de uma viagem que tinha terminado havia menos de cinco minutos e já parecia pertenc
Last Updated: 2026-11-01
Chapter: A mesma estradaMARIANAAcordei antes dos dois e levei alguns segundos para entender por que havia tão pouco espaço disponível numa cama daquele tamanho.Durante a noite, alguém tinha desmontado completamente a organização cuidadosa com que nós três havíamos começado. Eu estava virada para Caio, com a cabeça perto de seu ombro e uma das mãos fechada na camiseta que ele ainda vestia. Dorian permanecia atrás de mim, mais próximo do que na hora em que tinha apagado o abajur, uma de suas pernas tocava a minha por baixo da coberta, e o braço estava dobrado sobre o travesseiro, perto demais do meu cabelo.Fiquei quieta, aproveitando alguns minutos em que nenhum deles sabia que estava sendo observado.A claridade entrava pelas frestas da cortina e transformava os dois em versões estranhamente domésticas dos homens que eu conhecia acordados. Caio dormia como ocupava quase todos os outros espaços: sem muita preocupação em parecer menor. A camiseta tinha torcido durante a noite e deixava uma faixa do abdômen à
Last Updated: 2026-11-01