LOGINAlice Bellandi está prestes a completar vinte anos e deveria estar pensando em liberdade, festas e no futuro. Em vez disso, vive sob a proteção sufocante do pai, estuda à distância e conhece o mundo quase sempre através de uma tela. Até ser sequestrada. Konstantin Voronov passou quinze anos procurando respostas sobre a morte da esposa grávida. Antes de morrer, ela deixou poucas pistas, um nome e uma frase que ele nunca conseguiu esquecer: Alice sabe onde está a chave. Convencido de que Alice esconde a verdade, Konstantin a leva para sua propriedade e a mantém em uma luxuosa suíte de vidro, onde beleza e vigilância se confundem. Cercada por paredes transparentes, um jardim que não pode alcançar e um homem que parece enxergar muito mais do que deveria, Alice insiste que ele cometeu um erro. — Você pegou a Alice errada. Mas Konstantin tem certeza de que não. Enquanto ele tenta arrancar dela um segredo que Alice jura não conhecer, pequenos fragmentos de seu passado começam a deixar de fazer sentido. Um velho exemplar de Alice Através do Espelho. Documentos que seu pai queria que ela assinasse. Memórias incompletas. Uma chave escondida durante anos. E, no centro de tudo, Konstantin. O homem que deveria ser apenas seu carcereiro se torna também a tentação mais perigosa de uma garota que nunca beijou ninguém, nunca se apaixonou e nunca teve liberdade suficiente para descobrir quem realmente é. Porque talvez o maior segredo não seja onde está a chave. Talvez seja descobrir quem é Alice de verdade.
View MorePOV: ALICE
Faltavam três dias para eu completar vinte anos quando meu pai resolveu que eu não deveria mais caminhar sozinha nem dentro do condomínio.
Ele não disse exatamente dessa forma. Vittorio Bellandi nunca dizia as coisas da forma como realmente eram. Ele embrulhava ordens em palavras bonitas, apertava o laço com alguma justificativa sobre segurança e esperava que eu agradecesse pelo presente.
— Giacomo pode acompanhar você pela manhã — falou, sem levantar os olhos do tablet. — Se quiser caminhar.
Eu estava sentada à outra ponta da mesa de café, ainda de pijama, com uma caneca de chocolate esfriando entre as mãos.
— Dentro do condomínio?
— Sim aqui é muito grande.
— Também tem uma muralha, câmeras e seguranças em três portarias.
Ele deslizou o dedo pela tela. Ciente do meu estranhamento.
— Ainda assim.
Aquilo encerrava a conversa.
Vittorio fazia isso desde que eu conseguia lembrar: estabelecia uma regra, permitia que eu fingisse estar discutindo e, quando achava que já havia me cansado o suficiente, terminava com duas palavras ditas em voz baixa.
Ainda assim. Ou será assim.
Por isso eu estudava Relações Internacionais por uma universidade que conhecia principalmente pela tela do meu notebook. Por isso meu melhor conhecimento sobre festas universitárias vinha das reclamações de Bianca, uma colega de curso que me mandava vídeos às três da manhã. Por isso eu sabia pedir comida em quatro idiomas, discutir política comercial europeia e fazer uma apresentação de quarenta minutos sobre corredores logísticos, mas não saberia dizer quanto custava uma taça de vinho num bar comum.
Eu nunca estivera em um.
Meu pai chamava aquele cuidado de privilégio.
Às vezes eu chamava de superproteção.
Em dias como aquele, quando via o jardim enorme do lado de fora e precisava avisar a um segurança que pretendia dar duas voltas no quarteirão, outros nomes me vinham à cabeça.
Nenhum deles eu dizia em voz alta.
— Seus documentos estarão prontos amanhã — ele acrescentou.
Olhei para ele.
— Que documentos?
Foi a primeira vez que ele ergueu os olhos.
Vittorio era um homem bonito para alguém com quase cinquenta anos. Cabelos escuros começando a ganhar fios grisalhos nas laterais, ternos feitos sob medida mesmo quando trabalhava em casa e aquela expressão permanentemente tranquila de quem nunca precisava elevar a voz porque sempre conseguia o que queria.
— Algumas atualizações societárias.
— Minhas?
— Da família.
— E por que eu preciso assinar?
Um quase sorriso apareceu.
— Porque você vai fazer vinte anos, Alice. Existem formalidades.
— Formalidades que ninguém lembrou de mencionar até três dias antes do meu aniversário?
— Não imaginei que estivesse interessada nos negócios da família.
— Talvez eu não esteja. Mas gosto de saber o que está acontecendo.
Ele colocou o tablet sobre a mesa.
Dessa vez consegui sua atenção completa.
— Naturalmente.
Não gostei da forma como disse.
— Posso ler pelo menos?
— É claro que sim.
O silêncio que veio depois pareceu muito maior do que aquela pergunta merecia.
Eu apoiei o queixo na mão.
— Você faz essa cara sempre que eu faço uma pergunta que não deveria?
— Que cara?
— Essa.
— Estou apenas olhando para você.
— Exatamente.
Ele riu, finalmente.
Vittorio conseguia ser carinhoso quando queria. Talvez fosse isso que tornasse tão difícil explicar para os outros o desconforto que às vezes eu sentia perto dele. Nunca me faltara nada. Tive professores particulares, roupas, livros, computadores, viagens quando era criança. Nunca precisei me preocupar com dinheiro. Quando fiquei doente, ele dormiu numa poltrona do meu quarto durante duas noites.
Eu o amava.
Também sabia que ele tinha transformado preocupação em uma coleira tão cedo que eu não lembrava como seria viver sem senti-la no pescoço.
— Tome café — disse. — E não faça essa expressão dramática. São documentos, não um contrato com o diabo.
— O diabo costuma avisar?
O sorriso desapareceu por meio segundo.
Depois ele voltou ao tablet.
— Aos vinte anos eu esperava que você já tivesse superado essa fase de responder a tudo.
— Ainda tenho três dias. Posso aproveitar.
Peguei minha caneca e me levantei.
— Alice.
Parei.
— Ricardo jantará conosco amanhã.
Meu estômago se contraiu antes mesmo que eu entendesse por quê.
— Por quê?
— Porque o convidei.
— Isso eu consegui deduzir.
— Ele gosta de você.
— Ricardo gosta de vinho caro, cavalos, relógios e de explicar coisas que ninguém perguntou.
— Ele é um bom homem.
Virei devagar.
— Pai...
— Não estou dizendo nada.
Era exatamente o problema.
Vittorio nunca dizia.
Ele preparava.
Ricardo Moretti tinha trinta e dois anos, trabalhava com meu pai e havia começado, nos últimos meses, a aparecer em situações em que sua presença parecia casual demais para realmente ser casual. Jantares. Um almoço. Um concerto para o qual meu pai misteriosamente comprara três ingressos e, na última hora, alegara uma reunião.
Ricardo era educado comigo.
Eu não gostava dele. Não romanticamente.
Não havia nada concretamente errado que pudesse apontar sem parecer infantil. Apenas alguma coisa no modo como ele olhava, como se esperasse pacientemente que eu terminasse de crescer.
— Não quero namorar o Ricardo.
Meu pai suspirou.
— Ninguém falou em namoro.
— Ótimo.
— Você poderia, pelo menos, permitir que alguém se aproximasse.
— Eu mal posso sair de casa. Onde exatamente eu encontraria outra pessoa?
Ele voltou a encarar o tablet.
— Talvez esse seja o problema.
Eu quase ri.
O problema.
Subi antes que transformasse aquilo numa discussão que eu já sabia que perderia.
Meu quarto ocupava boa parte do segundo andar da casa. Vittorio reformara tudo quando fiz dezesseis anos, dizendo que eu precisava de independência. Eu ganhara uma pequena sala, mesa de estudos, banheiro, closet e uma varanda que dava para o jardim.
Independência com três câmeras no corredor.
Fechei a porta.
— Três dias para fazer vinte e meu pai já escolheu o marido — murmurei.
Tinha mania de falar sozinha. Sempre tivera.
Talvez porque passei tempo demais sem alguém da minha idade por perto.
Liguei o notebook, mas não abri as aulas. Em vez disso, fiquei diante da estante procurando qualquer coisa que me distraísse.
Foi quando meus dedos tocaram a lombada azul desbotada.
Alice Através do Espelho.
O livro estava ali havia tanto tempo que eu não sabia dizer quando se tornara meu. As bordas estavam gastas e havia pequenas marcas na capa que meu pai dizia serem resultado da minha mania infantil de carregar livros para todos os lugares.
Abri numa página aleatória.
Algumas anotações antigas apareciam perto das ilustrações.
Eu nunca soubera se eram minhas.
Traços.
Uma letra torta.
Uma sequência que parecia escrita ao contrário.
Quando criança eu tentara várias vezes entender aquilo. Depois perdi o interesse.
Sentei na cama com o livro aberto sobre as pernas.
A Alice dos livros tinha atravessado lugares impossíveis, conversado com criaturas absurdas e reclamado bastante durante o processo.
Eu, aparentemente, não conseguia atravessar nem o portão de casa sem informar meu destino.
Fechei o livro.
— Definitivamente a Alice errada.
Sorri sozinha da própria idiotice.
O celular vibrou.
Uma mensagem de Bianca.
AMANHÃ VAMOS SAIR. NÃO ACEITO NÃO. SEU ANIVERSÁRIO É ESSA SEMANA.
Ri.
Digitei:
Meu pai vai dizer não.
Ela respondeu imediatamente.
VOCÊ TEM VINTE ANOS.
Quase.
Fiquei olhando para aquela frase.
Vinte anos.
Eu deveria me sentir adulta.
Não me sentia.
Nunca tivera namorado. Nunca voltara para casa bêbada. Nunca beijara ninguém escondida numa festa. Nunca pegara um trem sozinha para uma cidade desconhecida. Nunca fizera metade das coisas que as pessoas da minha idade pareciam considerar completamente comuns.
Às vezes eu pensava que havia alguma coisa errada comigo.
Em outras, percebia que talvez simplesmente nunca tivessem me dado oportunidade suficiente para descobrir.
Meu telefone vibrou outra vez.
Não era Bianca.
Era uma mensagem do meu pai.
Amanhã, 10h. Escritório. Os documentos estarão aqui.
Fiquei olhando para a tela.
Depois para o livro sobre minha cama.
Depois para o jardim do lado de fora.
Por algum motivo que eu não saberia explicar, um desconforto frio deslizou pela minha nuca.
Levantei e tranquei a porta do quarto, embora ninguém naquela casa tivesse o hábito de entrar sem bater.
Ainda assim.
POV: KONSTANTINEva Conti chegou às dezenove e dez.Eu havia esquecido que viria.Isso, sozinho, já era um problema.Eu não esquecia compromissos.Ela entrou pela sala lateral usando um vestido preto simples, casaco claro e a tranquilidade de quem já tinha atravessado aquela casa vezes suficientes para não olhar para seguranças, câmeras ou portas biométricas.Eva tinha trinta e quatro anos, administrava uma empresa de consultoria que não dependia de mim e nunca fingira interesse em transformar nossa relação em outra coisa.Era exatamente por isso que funcionava.— Você esqueceu — disse quando me viu.— Não.Ela tirou o casaco.— Vocêestá me recebendo aqui no anexo... Você está sem paletó, o jantar ainda não chegou e Mikhail me recebeu dizendo “boa sorte”. Você esqueceu.— Tive uma semana complicada.— Eu ouvi versões.Meu olhar endureceu.Eva percebeu.— Não perguntei.Essa era outra razão.Ela sabia onde não entrar.Marta apareceu na porta.— Jantar em quinze minutos.— Obrigada.Ent
POV: KONSTANTINNeri apareceu morto na sexta-feira às vinte e duas e quarenta.Mikhail não tentou transformar a informação em algo menos desagradável.Colocou a fotografia sobre minha mesa, afastou a cadeira e esperou.Eu olhei apenas o necessário.— Onde?— Estrada secundária, quarenta quilômetros ao sul. Um agricultor encontrou.— Alguma assinatura?— Nenhuma que possamos provar.Não precisava.Neri desaparecera poucas horas depois de ajudarmos Alice a sair da casa de Vittorio. Bellandi não costumava desperdiçar mensagens quando podia produzir exemplos.Afastei a fotografia.— Família?— Segura.— Compense.— Já está feito.O sistema da redoma permanecia minimizado no monitor lateral. Eu havia passado o dia inteiro evitando abri-lo sem necessidade.A palavra necessidade começava a ficar incômoda.Alice tinha circulado pela casa durante horas, memorizado portas, inventado um trabalho universitário ridiculamente transparente para registrar horários e passado três vezes diante do mesmo
POV: ALICENa manhã seguinte ao meu aniversário, descobri que vinte anos não vinham acompanhados de nenhuma habilidade especial para lidar com sequestradores, documentos suspeitos ou homens que encostavam a mão do outro lado de uma parede de vidro e conseguiam bagunçar pensamentos que eu preferia manter perfeitamente separados.Konstantin continuava sendo o homem que tinha me arrancado de casa, me trancado numa redoma e decidido que a minha liberdade dependia de respostas que eu não possuía. Também continuava sendo o homem que, na noite anterior, tinha dito talvez quando anunciei que sairia dali.Eu não sabia qual das duas coisas me incomodava mais.Talvez era diferente de não.Talvez significava que alguma coisa tinha mudado, mesmo que eu não soubesse o quê.E, quando não se tinha informação suficiente para entender um homem como Konstantin Voronov, restavam duas opções: enlouquecer tentando adivinhar ou começar a coletar informação melhor.Escolhi a segunda.Marta apareceu às oito e
POV: KONSTANTINAlice completou vinte anos numa quinta-feira.Às seis e quarenta e dois Vittorio enviou a primeira mensagem.Hoje ela faz vinte.Às seis e cinquenta e nove veio a segunda.Você não entende o que começou.Eu começava a entender.Mikhail colocou uma fotografia sobre minha mesa. Ricardo Moretti estava ao lado de Santoro num aeroporto privado.— Três horas atrás.— Luca?— Já está trabalhando.— Segurança norte?— Reforçada.— Jardim?— Também.— Redoma?Mikhail respirou pelo nariz.— Dois homens em cada acesso. Se colocar mais, ela vai precisar pedir licença para respirar.— Então mantenha dois.Ele me observou.— Estou começando a reconhecer evolução.— Nada a ver.Marta entrou sem bater.— Quero um bolo.— Não.— Ela faz vinte anos.— Eu sei disso.— Então, bolo.Continuei lendo.Marta estava trabalhando nesta casa já a anos. Confiava muito nela, mesmo quando ela tinha opinião própria e queria explanar ela. Nesses momentos, gostava um pouco menos.— Qual exatamente é a












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