تسجيل الدخولMARIANA— Ela sabe quem eu sou?Caio olhou para a porta como se calculasse a possibilidade de empurrar a própria irmã para fora de casa sem precisar explicar nada. Isabela, ao contrário, parecia cada vez mais confortável. Ainda segurava a caixa de chocolates contra o corpo e me observava com uma curiosidade que teria sido muito menos constrangedora se eu não estivesse tentando colocar a blusa com o sutiã abandonado em algum lugar da bancada.— Sei — ela respondeu.Enfiei a cabeça pela abertura errada da blusa.Caio fechou os olhos por um instante.— Isa.— O quê? Ela perguntou.Consegui finalmente vestir a peça e puxei o tecido para baixo. O problema era que o sutiã continuava perto da fruteira, o cabelo parecia ter sobrevivido a uma ventania e meus óculos tinham descido pelo nariz. Não havia nenhuma possibilidade de recuperar dignidade naquela cozinha. Restava tentar parecer uma adulta que costumava ser encontrada sem roupa em bancadas alheias.Isabela pousou os chocolates.— Eu sabi
CAIOFechei a porta do carro e fiquei com a chave entre os dedos sem ligar o motor.Do outro lado da rua, a janela do restaurante ainda enquadrava parte da mesa. Mariana estava de pé. Dorian permanecia sentado diante dela, e mesmo à distância eu reconhecia o modo como ele a observava quando alguma coisa importante estava acontecendo.Não precisava ouvir novamente.Eu amo você.Passei as duas mãos pelo rosto e afundei a cabeça no encosto.Eu sabia.Tinha sabido antes de dormir com ela, antes da viagem, antes de dividir uma cama com os dois. Sabia quando Mariana ainda falava de Dorian com uma mistura de raiva e saudade que ninguém usava para um homem indiferente. Sabia quando ele reapareceu e ela precisou de menos de cinco segundos para reconhecê-lo com o corpo inteiro.Saber tinha sido administrável. Ouvir saiu mais caro.O mais irritante era não existir sequer um culpado decente naquela história. Mariana não tinha mentido. Dorian não provocou. Eu fiz a pergunta e recebi a resposta. Ai
MARIANAFoi só depois de mandar a última mensagem que percebi que preciso falar uma coisa para vocês dois era o tipo de frase que fazia qualquer pessoa imaginar gravidez, crime ou doença terminal. Cheguei a abrir a conversa outra vez para escrever alguma coisa menos ameaçadora, mas desisti. Talvez um pouco de medo fosse justo depois de tudo que aqueles dois já tinham feito comigo nos últimos meses.Passei o restante da tarde na CEU tentando revisar uma apresentação da faculdade e voltando três vezes ao mesmo slide sem absorver uma palavra. Meu celular ficou ao lado do notebook, virado para baixo para evitar que eu conferisse mensagens a cada dois minutos. Não adiantou muito. Eu sabia que Dorian continuava na empresa de Caio e, por alguma razão, essa informação ocupava espaço demais na minha cabeça.Até poucos dias antes eu teria considerado uma péssima ideia deixá-los sozinhos por horas. Agora Dorian tinha entrado numa reunião, opinado num projeto e permanecido ali mesmo depois de não
DORIANQuando Caio disse que eu podia entrar na reunião, imaginei que mudaria de ideia antes de atravessar a porta.Não mudou.Havia oito pessoas ao redor de uma mesa comprida, notebooks abertos, duas plantas espalhadas sobre a madeira e uma terceira projetada na parede. Caio ocupava uma das pontas sem parecer particularmente interessado em demonstrar que aquele lugar era dele. Apresentou-me apenas pelo nome, disse que eu acompanharia a reunião por alguns minutos e retomou o assunto que tinha sido interrompido.Sentei numa cadeira lateral. Nos primeiros cinco minutos, descobri duas coisas. A primeira era que eu entendia muito pouco do que estavam discutindo. A segunda era que Caio não tinha qualquer problema com isso.Uma engenheira de cabelo preso e óculos de armação vermelha discordou dele diante de todo mundo sobre a sequência de uma etapa. Não amenizou a frase, não procurou uma forma diplomática de dizer que o cálculo dele estava errado e não pareceu preocupada com o fato de o don
CAIODorian fechou a porta do passageiro e puxou o cinto como se entrar no meu carro depois de passar a noite na mesma cama fosse uma decisão perfeitamente razoável para nós dois.Não era.Vi Mariana pelo retrovisor enquanto saía da vaga. Ela continuava parada perto da entrada da CEU, uma mão segurando a alça da mochila e a outra solta junto ao corpo. Acompanhei sua imagem até o prédio esconder tudo. Dorian também olhou para trás. Nenhum dos dois comentou.Durante a viagem, ele tinha passado horas no banco traseiro porque Mariana estava ao meu lado. Agora ocupava exatamente o lugar dela. O perfume dela ainda estava no carro, misturado ao cheiro de café que eu tinha comprado no caminho e ao resto de maresia preso nas roupas. Havia um elástico de cabelo esquecido perto do câmbio, provavelmente dela, e uma embalagem vazia de bala no porta-objetos que eu não lembrava quem tinha deixado.Pequenas evidências de uma viagem que tinha terminado havia menos de cinco minutos e já parecia pertenc
MARIANAAcordei antes dos dois e levei alguns segundos para entender por que havia tão pouco espaço disponível numa cama daquele tamanho.Durante a noite, alguém tinha desmontado completamente a organização cuidadosa com que nós três havíamos começado. Eu estava virada para Caio, com a cabeça perto de seu ombro e uma das mãos fechada na camiseta que ele ainda vestia. Dorian permanecia atrás de mim, mais próximo do que na hora em que tinha apagado o abajur, uma de suas pernas tocava a minha por baixo da coberta, e o braço estava dobrado sobre o travesseiro, perto demais do meu cabelo.Fiquei quieta, aproveitando alguns minutos em que nenhum deles sabia que estava sendo observado.A claridade entrava pelas frestas da cortina e transformava os dois em versões estranhamente domésticas dos homens que eu conhecia acordados. Caio dormia como ocupava quase todos os outros espaços: sem muita preocupação em parecer menor. A camiseta tinha torcido durante a noite e deixava uma faixa do abdômen à







