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A ARTE DA CONQUISTA

Author: Ane Brito
last update publish date: 2026-09-06 08:14:22

CAPÍTULO 2

A aposta

Thomas Tavares Júnior saiu do restaurante naquela noite com a sensação de que acabara de entrar em uma situação muito mais complicada do que gostaria de admitir.

A conversa com Artur e Albert continuava ocupando seus pensamentos.

A aposta estava feita.

Não havia mais volta.

Trinta dias.

Era esse o prazo.

Trinta dias para conquistar uma mulher que trabalhava na mesma empresa que ele.

O problema era que Thomas ainda não sabia quem ela era.

Entrou no carro, fechou a porta e permaneceu alguns segundos em silêncio antes de ligar o motor.

Olhou para o próprio reflexo no retrovisor.

— Quem será você?

As palavras saíram baixinho, acompanhadas de um sorriso quase divertido.

Thomas estava acostumado com desafios.

E aquele parecia interessante.

Sabia conversar.

Sabia provocar.

Sabia fazer uma mulher rir.

Sabia reconhecer quando alguém estava interessada nele.

Sabia também quando deveria insistir e quando era melhor recuar.

Mas, dessa vez, havia uma variável que ele ainda desconhecia.

A mulher escolhida por seus amigos.

Tudo o que sabia era que ela trabalhava na Celebrare Eventos e que, segundo Artur e Albert, não era o tipo de mulher que costumava se impressionar com ele.

Aquilo despertava sua curiosidade.

Enquanto atravessava as ruas iluminadas de Santa Aurora, tentou pensar no contrato do Haras Imperial.

A negociação continuava sendo uma prioridade.

A Celebrare precisava daquele contrato.

Ele precisava resolver a situação.

Mas agora havia outro desafio esperando por ele.

Uma mulher cujo nome ainda não conhecia.

Thomas ligou o rádio, mas desligou poucos segundos depois.

Sua cabeça estava cheia demais.

Talvez Artur tivesse escolhido alguém que Thomas já conhecesse.

Talvez fosse uma funcionária com quem tivesse pouco contato.

Talvez fosse alguém completamente inesperado.

A única certeza era que descobriria em breve.

E, pela primeira vez naquela noite, Thomas percebeu que estava realmente ansioso para saber.

───

Na manhã seguinte, Thomas chegou à Celebrare Eventos mais cedo do que de costume.

Entrou no prédio com a postura habitual, cumprimentou alguns funcionários e seguiu em direção à sua sala.

Por fora, nada havia mudado.

Por dentro, entretanto, sua cabeça estava longe da tranquilidade que tentava demonstrar.

A aposta voltava à sua mente a cada poucos minutos.

Trinta dias.

Ele poderia fazer isso.

Era apenas uma questão de estratégia.

Pelo menos era o que dizia a si mesmo.

Thomas colocou alguns documentos sobre a mesa e começou a revisar as informações referentes ao Haras Imperial.

Precisava manter o foco.

A negociação exigia atenção.

Os valores precisavam ser revistos.

As condições do contrato também.

Mas, em determinado momento, percebeu que estava lendo a mesma página pela terceira vez.

Fechou a pasta.

— Isso está ridículo.

Passou a mão pelos cabelos.

Estava curioso.

Queria saber quem era a mulher.

Não demorou muito para descobrir.

Pouco depois, Artur apareceu na porta.

— Bom dia, conquistador.

Thomas ergueu os olhos.

— Nem começa.

Artur entrou na sala sorrindo.

— Eu só vim desejar bom dia.

— Com esse sorriso?

— Qual o problema do meu sorriso?

— Eu conheço esse sorriso.

Artur se sentou diante da mesa.

— Então deveria estar preparado.

Thomas cruzou os braços.

— Para quê?

Artur inclinou-se ligeiramente para a frente.

— Para finalmente descobrir quem é a mulher.

Thomas soltou um suspiro.

— Você poderia simplesmente me dizer, Artur.

— Poderia.

— E?

— Vou dizer.

Thomas arqueou uma sobrancelha.

— Estou ouvindo.

Artur sorriu.

— Silvia Marquês.

Thomas ficou imóvel por alguns segundos.

O nome lhe era familiar.

Mais do que familiar.

Silvia.

Ele já havia cruzado com ela diversas vezes pelos corredores da Celebrare.

Já haviam conversado sobre assuntos de trabalho.

Já havia reparado naquela postura reservada, naquele jeito cuidadoso de escolher as palavras e na maneira como ela parecia sempre manter uma certa distância das pessoas.

Thomas recostou-se na cadeira.

— Silvia?

— Ela mesma.

Por algum motivo, ouvir aquele nome mudou completamente a situação.

Thomas não estava mais imaginando uma mulher desconhecida.

Agora tinha um rosto.

Uma voz.

Um olhar.

E, de repente, a aposta parecia muito mais interessante.

— Você está falando sério?

— Muito.

Thomas passou a mão pelo queixo.

— E vocês escolheram justamente ela?

Artur deu de ombros.

— Por que não?

Thomas não respondeu imediatamente.

A verdade era que Silvia havia despertado sua curiosidade antes mesmo daquela noite.

Ela não parecia interessada em chamar sua atenção.

Não fazia questão de se aproximar.

Não procurava seus olhares.

E, quando conversava com ele, mantinha uma distância que Thomas não estava acostumado a encontrar.

Talvez fosse justamente isso que tornasse tudo tão interessante.

Artur observou o amigo em silêncio.

— Está surpreso?

Thomas ergueu os olhos.

— Um pouco.

— Por quê?

— Porque eu conheço a Silvia.

Artur abriu um sorriso.

— Conhece?

— Conheço de vista. Já conversamos algumas vezes.

— Então fica mais fácil.

Thomas soltou uma risada curta.

— Não tenha tanta certeza.

Artur se levantou.

— Só não esqueça uma coisa.

— O quê?

— Ela não sabe da aposta.

Thomas assentiu.

— E não vai saber.

— Ótimo.

Artur caminhou até a porta.

Antes de sair, porém, voltou-se.

— Boa sorte.

Thomas balançou a cabeça.

— Não vou precisar.

Artur riu.

— É exatamente essa confiança que quero ver durar.

Quando o amigo saiu, Thomas permaneceu alguns segundos olhando para a porta fechada.

Silvia Marquês.

Agora o nome tinha um significado diferente.

Antes, ela era apenas uma colega de trabalho que despertava certa curiosidade.

Agora, era o centro de um desafio.

E Thomas não sabia ainda qual dessas duas coisas era mais perigosa.

───

Durante aquela semana, Thomas tentou concentrar-se no trabalho.

Tentou.

O contrato do Haras Imperial continuava exigindo sua atenção. Havia reuniões, documentos, ligações e negociações que precisavam ser resolvidas.

Ainda assim, Silvia aparecia em seus pensamentos com uma frequência irritante.

Não porque ele já estivesse apaixonado.

Isso seria absurdo.

Ele mal a conhecia de verdade.

Era apenas curiosidade.

Era o desafio.

Era a aposta.

Thomas repetia essas três palavras mentalmente sempre que percebia que estava pensando nela.

Mas havia algo que o incomodava.

Antes mesmo de existir qualquer aposta, Silvia já havia despertado sua atenção.

Isso significava que talvez a aposta não tivesse criado aquele interesse.

Talvez apenas tivesse dado um nome a algo que já começava a acontecer.

Na sexta-feira, depois de uma reunião cansativa, Thomas encontrou Artur e Albert novamente.

Os três estavam próximos ao café da empresa quando Albert comentou:

— E então?

Thomas ergueu uma sobrancelha.

— E então o quê?

— Nada aconteceu ainda?

— O que você esperava? Que eu chegasse nela com uma faixa escrita “aceite sair comigo”?

Artur riu.

— Seria interessante.

— Não.

— Por quê?

— Porque não quero transformar isso em um espetáculo.

Albert cruzou os braços.

— Então você está levando a sério.

Thomas ficou em silêncio por um instante.

— Estou levando a sério o suficiente para não fazer uma besteira.

Artur o observou.

— Isso é novo.

— O quê?

— Você pensando antes de agir.

Thomas lançou um olhar atravessado.

— Talvez eu esteja amadurecendo.

Albert riu.

— Ou talvez Silvia esteja dando trabalho.

Thomas não respondeu.

Porque, pela primeira vez, não queria admitir que o amigo tinha razão.

───

No sábado pela manhã, Thomas tentou esquecer tudo.

Saiu para resolver algumas coisas, almoçou fora e passou parte da tarde trabalhando em algumas ideias relacionadas ao projeto do Haras Imperial.

Mesmo assim, em algum momento, percebeu que estava pensando novamente em Silvia.

— Isso está ficando ridículo.

Largou os documentos sobre a mesa.

Não podia permitir que uma aposta interferisse em sua concentração.

Muito menos que uma mulher que mal conhecia de verdade começasse a ocupar tanto espaço em seus pensamentos.

Pegou o celular.

Abriu algumas mensagens.

Nada importante.

Bloqueou a tela.

Alguns segundos depois, desbloqueou novamente.

Nenhuma nova mensagem.

Thomas franziu a testa.

— O que eu estou esperando?

Não sabia.

Talvez uma mensagem dela.

E reconhecer aquilo o deixou ainda mais irritado consigo mesmo.

Ele conhecia aquele sentimento.

Curiosidade.

Aquela vontade insistente de descobrir o que havia por trás de alguém que não conseguia compreender.

Era exatamente isso que tornava Silvia perigosa.

Ela não estava tentando conquistá-lo.

Não estava tentando chamar sua atenção.

Não fazia esforço algum para impressioná-lo.

E, justamente por isso, ele estava começando a querer impressioná-la.

Thomas passou a mão pelos cabelos.

— No que eu fui me meter?

Não havia resposta.

Mas uma coisa ele sabia.

Precisaria ter paciência.

Silvia parecia exigir o contrário de tudo o que ele estava acostumado a fazer.

Talvez fosse necessário conhecê-la primeiro.

Descobrir o que ela gostava.

O que a fazia sorrir.

O que a incomodava.

Por que era tão reservada.

E, principalmente, o que havia por trás daquele olhar que tantas vezes parecia esconder alguma coisa.

Thomas ainda não sabia.

Mas queria descobrir.

───

No domingo, Artur resolveu lembrá-lo da aposta.

O celular de Thomas vibrou sobre a mesa.

Artur:

“Não esquece que amanhã começa o jogo.”

Thomas leu a mensagem duas vezes.

Digitou uma resposta.

Apagou.

Digitou novamente.

Thomas:

“Eu não esqueci.”

A resposta chegou quase imediatamente.

Artur:

“Ótimo. Quero ver quanto tempo você leva para conseguir um encontro.”

Thomas revirou os olhos.

Bloqueou o celular.

Depois ficou alguns segundos olhando para a tela apagada.

Um encontro.

A palavra parecia simples.

Mas não era.

E Thomas começava a perceber que, para se aproximar dela, talvez precisasse fazer algo que nunca tivera muita necessidade de fazer.

Ter paciência.

Ele estava acostumado a conquistar espaço rapidamente, Mas com essa Silvia Marquês parecia exigir o contrário.

Mas uma coisa ele sabia.

Na segunda-feira, teria que vê-la.

E, dessa vez, não seria apenas como uma colega da Celebrare Eventos.

Havia uma aposta em jogo.

E seu orgulho.

E uma mulher que, sem perceber, já começava a despertar nele algo muito mais perigoso do que simples curiosidade.

───

Na manhã de segunda-feira, Thomas chegou mais cedo à Celebrare Eventos.

Vestiu-se com cuidado, revisou algumas informações sobre o projeto do Haras Imperial e seguiu para sua sala.

Tentava agir normalmente.

Mas sua atenção estava longe de estar normal.

Enquanto analisava alguns documentos, ouviu passos no corredor.

Levantou os olhos por instinto.

Por alguns segundos, pensou ter visto Silvia passando diante da porta.

Seu coração acelerou de maneira inexplicável.

Thomas fechou a pasta.

Levantou-se.

Precisava conversar com ela.

Não apenas por causa da aposta.

Pelo menos era o que tentava dizer a si mesmo.

Abriu a porta da sala.

O corredor estava vazio.

Silvia já havia desaparecido.

Thomas respirou fundo.

Então ouviu a voz de Albert atrás dele.

— Procurando alguém?

Thomas virou-se lentamente.

Albert estava encostado na parede, com um sorriso divertido.

— Não começa.

— Eu não disse nada.

— Mas pensou.

Albert riu.

— Só vou dizer uma coisa: tenha cuidado.

Thomas franziu a testa.

— Com o quê?

Albert deu de ombros.

— Com a aposta.

— Por quê?

O sorriso de Albert desapareceu.

— Porque acho que você ainda não percebeu uma coisa.

— O quê?

Albert olhou para o corredor por onde Silvia havia acabado de passar.

— Talvez o maior risco dessa história não seja você perder a aposta.

Thomas ficou em silêncio.

— Então qual é o risco?

Albert apenas sorriu de lado.

— Você descobrir que não quer ganhar.

Antes que Thomas pudesse responder, Albert se afastou.

Thomas permaneceu parado.

A frase do amigo ficou ecoando em sua cabeça.

Ele tentou ignorá-la.

Não conseguiu.

E, naquele instante, ainda não fazia ideia de que aquela aposta estava prestes a colocá-lo diante de um desafio muito maior do que qualquer contrato.

Porque, para conquistar Silvia Marquês, Thomas teria primeiro que descobrir por que aquela mulher parecia tão determinada a manter todos à distância.

E, quando descobrisse, talvez percebesse que algumas pessoas não erguem muros para impedir alguém de entrar.

Às vezes, elas os erguem porque têm medo do que pode acontecer quando alguém finalmente consegue atravessá-los.

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