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CAPÍTULO 1
Mais um dia Mais um dia havia chegado ao fim na vida de Silvia Marquês. Um dia como tantos outros. Ela havia acordado cedo, tomado seu café em silêncio, enfrentado o trânsito da movimentada cidade de Santa Aurora e chegado pontualmente à Celebrare Eventos, uma das maiores empresas de organização e produção de eventos da região. Ali, Silvia era outra pessoa. Competente, responsável e extremamente dedicada, era o tipo de profissional que os colegas procuravam quando precisavam resolver alguma coisa. Sabia organizar uma agenda caótica, lidar com clientes exigentes e encontrar soluções para problemas que pareciam não ter saída. Era irônico. Silvia trabalhava justamente criando experiências que faziam outras pessoas felizes. Casamentos. Festas. Eventos corporativos. Comemorações. Ela passava os dias cercada por música, flores, vestidos elegantes, decoração sofisticada e pessoas ansiosas para viver momentos inesquecíveis. Mas, quando o assunto era a própria vida, Silvia parecia incapaz de sair do lugar. Desde a adolescência, carregava um complexo de inferioridade que havia crescido silenciosamente dentro dela. Aprendera a conviver com a insegurança e, principalmente, a escondê-la. As pessoas costumavam enxergar apenas uma mulher reservada. Poucas imaginavam quantas vezes ela se questionava diante do espelho antes de sair de casa. Será que essa roupa está boa? Será que estou bonita? Será que alguém reparou em mim? E, quando alguém reparava, sua primeira reação quase sempre era imaginar que havia alguma coisa errada. Silvia não gostava de chamar atenção. Não gostava de festas. Não tinha uma vida social movimentada. E muito menos se considerava o tipo de mulher capaz de despertar o interesse de um homem como aqueles que costumava ver circulando pelos corredores da Celebrare Eventos. Na verdade, havia muito tempo que ela desistira de esperar alguma coisa diferente da vida. Sua rotina era previsível. Casa, trabalho, casa. E estava tudo bem. Pelo menos era isso que repetia para si mesma. Naquela noite, entretanto, alguma coisa começaria a mudar. Silvia ainda não sabia. Mas seu nome estava prestes a entrar em uma conversa da qual ela jamais imaginaria fazer parte. ─── A alguns quilômetros dali, o movimento no centro de Santa Aurora começava a diminuir. Em um restaurante conhecido por receber executivos e empresários da cidade, três homens ocupavam uma mesa afastada das demais. Thomas Tavares Júnior estava sentado de maneira descontraída, com uma das mãos apoiada sobre a mesa enquanto observava o amigo sentado à sua frente. Diretor de marketing da Celebrare Eventos, Thomas era conhecido por sua segurança. Sabia conversar. Sabia negociar. Sabia convencer. E tinha plena consciência do efeito que causava nas mulheres. Não precisava se esforçar muito para chamar atenção. Um sorriso bastava. Um olhar também. Era justamente essa confiança que fazia Artur Nogueira, seu melhor amigo e colega de trabalho, gostar de provocá-lo. — Você está com essa cara desde que chegamos — comentou Artur. — Está pensando em trabalho? Thomas ergueu os olhos. — Estou pensando em como seria maravilhoso passar uma noite inteira sem ouvir a palavra evento. Artur riu. — Então você escolheu o amigo errado para sair. — Eu deveria ter imaginado. — Você me ama. — Tenho minhas dúvidas. — Depois do terceiro chope, você sempre me ama. Thomas sorriu. — Esse é um argumento convincente. Os dois brindaram. Durante alguns minutos, conseguiram cumprir o acordo silencioso de não falar sobre trabalho. Até que Artur, naturalmente, estragou tudo. — E aquela negociação do Haras Imperial? Thomas fechou os olhos por um instante. — Eu sabia. — Sabia o quê? — Que você não conseguiria ficar cinco minutos sem falar de trabalho. — Eu só fiz uma pergunta. — Uma pergunta sobre trabalho. — Porque eu estou interessado no assunto. — Você está interessado em saber se eu consegui resolver o problema. Artur abriu um sorriso. — Talvez. Thomas soltou um suspiro. O Haras Imperial era um dos espaços mais disputados de Santa Aurora para eventos de grande porte. O local possuía uma estrutura sofisticada, amplos jardins, salão de festas e uma área externa que fazia dele o cenário perfeito para casamentos e celebrações luxuosas. A Celebrare precisava daquele espaço para um evento importante. O problema era o preço. — Eles continuam irredutíveis — respondeu Thomas. — Querem aumentar o valor do aluguel alegando que a estrutura será afetada durante o evento e precisará de alguns meses para se recuperar. — E você não conseguiu convencê-los? Thomas lançou um olhar atravessado para o amigo. — Ainda não. — Isso é novidade. — Não se acostume. Antes que Artur respondesse, uma voz surgiu atrás deles. — Boa noite, senhores. Os dois olharam para o homem que se aproximava. Albert. Também funcionário da Celebrare Eventos, Albert tinha o hábito de aparecer nos momentos mais inconvenientes e, principalmente, quando havia alguma possibilidade de diversão. — Finalmente — disse Artur. — Sente-se. Albert puxou uma cadeira. — Estavam falando de quê? — Haras Imperial — respondeu Artur. Albert imediatamente olhou para Thomas. — E aí? — E aí o quê? — Você resolveu? — Ainda não. Albert sorriu. — Eu aposto que resolve. Thomas pegou o copo. — Todo mundo tem tanta fé em mim. Impressionante. — Não é fé — respondeu Albert. — É conhecimento. — Conhecimento de quê? — Do seu ego. Artur gargalhou. Thomas apontou para ele. — Não incentive. — Eu nem fiz nada. — Você está rindo. — Porque é engraçado. Thomas balançou a cabeça. — Vocês dois são insuportáveis. Albert se acomodou melhor na cadeira. — Mas admita uma coisa. — O quê? — Você gosta de desafios. Thomas estreitou os olhos. — Depende do desafio. Artur e Albert trocaram um olhar. Foi rápido. Mas Thomas percebeu. Seu sorriso desapareceu. — Não. Artur fingiu inocência. — Não o quê? — Não façam isso. — Isso o quê? — Essa troca de olhares. Albert tentou disfarçar o sorriso. — Você está ficando paranoico. — Conheço vocês. Artur apoiou os braços sobre a mesa. — Tudo bem. Já que você descobriu... — Eu não descobri nada. — Vamos propor uma brincadeira. Thomas soltou uma risada sem humor. — Eu sabia. — Que exagero. — Toda vez que você diz "brincadeira", alguém acaba passando vergonha. — Dessa vez pode ser você. Thomas encarou o amigo. — Agora fiquei interessado. Albert se inclinou para a frente. — Então vamos direto ao ponto. Thomas cruzou os braços. — Estou ouvindo. Artur sorriu. — Apostamos que você não consegue conquistar uma mulher em menos de um mês. Thomas ficou em silêncio. Depois soltou uma gargalhada. — É sério? — Muito. — Vocês me chamaram para um restaurante para fazer esse tipo de aposta? — Você não está entendendo — disse Albert. — Não é qualquer mulher. Thomas arqueou uma sobrancelha. — Ah, não? — Não. — Então quem é? Artur recostou-se na cadeira. — Isso você vai descobrir. — Vocês escolheram a mulher antes de me fazer a proposta? — Claro. — Então eu posso recusar. — Pode. Thomas observou os dois. — E se eu aceitar? Artur sorriu. — Você terá trinta dias. — Para conquistá-la? — Para conquistá-la de verdade. Thomas deu um pequeno sorriso. — E o que significa "de verdade"? Albert respondeu: — Fazer com que ela aceite sair com você. — Só isso? — Para começar. Thomas soltou uma risada. — Vocês realmente acham que isso é um desafio? — Achamos — disse Artur. — Eu já fiz coisas muito mais difíceis. — Então aceite. Thomas ficou em silêncio por alguns segundos. Seu orgulho começava a falar mais alto. — E se eu perder? Albert abriu um sorriso. — Vai admitir diante de toda a equipe da Celebrare que não é tão irresistível quanto pensa. Thomas arregalou os olhos. — Nem pensar. — Está com medo? — Não. — Então aceite. Thomas passou a língua pelos dentes, contendo um sorriso. — E o que eu ganho se vencer? Artur ergueu o copo. — Eu pago a conta de vocês durante um mês. — Isso é pouco. — Escolha o restaurante da comemoração. Thomas pensou por um instante. — Fechado. Artur estendeu a mão. — Fechado. Thomas apertou a mão do amigo. Albert bateu palmas baixinho. — Temos um vencedor. Thomas sorriu. — Ainda nem comecei. Artur observou o amigo por alguns segundos. — Essa confiança toda pode desaparecer amanhã. Thomas franziu a testa. — Amanhã? — Amanhã você conhecerá a sua escolhida. — E quem é? — Você vai descobrir. — Artur... — Relaxa. — Eu quero saber pelo menos alguma coisa. Albert sorriu. — Posso dar uma pista. Thomas fez um gesto para que continuasse. — Ela trabalha na Celebrare. O sorriso de Thomas desapareceu. — Na Celebrare? — Sim. — Eu conheço? Artur respondeu: — Talvez. Thomas ficou ainda mais desconfiado. — Qual é o nome dela? Artur simplesmente tomou um gole do chope. — Amanhã. — Vocês estão fazendo suspense de propósito. — Claro. Thomas soltou uma risada. — Espero que essa mulher seja realmente interessante. Albert apoiou o queixo na mão. — Ela é. — Bonita? Artur respondeu sem hesitar: — Sim. — Inteligente? — Muito. — E solteira? Albert sorriu. — Até onde sabemos. Thomas balançou a cabeça. — Então qual é o problema? Artur o encarou. — O problema é que ela não é o tipo de mulher que você costuma conquistar. Thomas permaneceu em silêncio. Aquilo despertou sua curiosidade. — Explique. — Você está acostumado com mulheres que gostam da sua atenção. — E essa não gosta? — Não. — Como você sabe? Artur sorriu. — Porque ela mal olha para você. Thomas franziu a testa. — Eu já falei com ela? — Talvez tenha falado. — Artur. — Amanhã você descobre. Thomas recostou-se na cadeira. Pela primeira vez naquela noite, não estava pensando no Haras Imperial. Nem no evento. Nem no trabalho. Estava pensando naquela mulher misteriosa. Uma mulher que, segundo seus amigos, não se impressionava com ele. E isso era algo novo. Muito novo. ─── Enquanto isso, em outra parte de Santa Aurora Silvia estava em seu pequeno apartamento. Depois de tomar banho, vestiu uma roupa confortável e sentou-se no sofá. A televisão estava ligada, mas ela não prestava atenção. Pegou o celular. Nenhuma mensagem. Abriu as redes sociais. Nada que realmente lhe interessasse. Desligou a tela. Silvia suspirou. Mais um dia. Mais uma noite. Mais uma vez aquela sensação de que sua vida estava parada enquanto a de todo mundo parecia seguir em frente. Ela se levantou para preparar um café quando seu celular vibrou sobre a mesa. Uma mensagem do trabalho. Silvia pegou o aparelho. Era um aviso sobre uma reunião marcada para a manhã seguinte. Ela franziu a testa. — Logo cedo? Deixou o celular sobre a mesa. Não fazia ideia de que aquela reunião mudaria sua rotina. Não sabia que, naquela mesma noite, seu nome havia sido escolhido para participar de uma aposta. E muito menos imaginava que um homem que jamais esperaria se aproximar dela estava prestes a entrar em sua vida. Thomas Tavares Júnior acreditava que estava prestes a iniciar apenas mais um desafio. Silvia Marquês acreditava que teria apenas mais um dia comum. Nenhum dos dois sabia que estavam prestes a descobrir que algumas das maiores mudanças da vida começam justamente nos dias que parecem absolutamente normais. E, na manhã seguinte, quando Thomas finalmente descobrisse quem era sua escolhida, talvez percebesse que havia aceitado um desafio muito maior do que imaginava. Porque conquistar Silvia não seria fácil. E, talvez, o maior perigo não fosse perdê-la. Fosse se apaixonar por ela.CAPÍTULO 25 Uma visita inesperadaDois dias haviam se passado desde a conversa que Thomas tivera com Albert.Dois dias desde que ouvira do amigo aquilo que, no fundo, já começava a suspeitar.Talvez estivesse envolvido demais.Talvez Silvia já não fosse apenas o nome de uma aposta.E, quanto mais pensava nisso, mais difícil ficava continuar fingindo que tudo aquilo ainda era apenas um jogo.Naquela manhã, Thomas tomou uma decisão.Se havia uma coisa da qual tinha certeza, era de que não queria transformar Silvia em uma lembrança amarga.Se, algum dia, ela descobrisse a verdade sobre a aposta e tudo entre eles terminasse, ele queria que, ao menos, as lembranças que construíssem juntos fossem boas.Não queria que Silvia se lembrasse dele como o homem que brincou com seus sentimentos.Queria que ela se lembrasse dos momentos em que sorriu.Das conversas.Dos pequenos gestos.Do frio na barriga.Dos olhares demorados.Do beijo.Talvez fosse uma for
CAPÍTULO 24 O que ja não dava para esconderNa manhã seguinte, Thomas chegou àCelebrare Eventos alguns minutos antes do horário habitual.Dormira pouco.Não porque estivesse preocupado com o trabalho, com o contrato do Haras Imperial ou com os detalhes do grande evento que aconteceria no fim de semana.Sua cabeça insistia em voltar para uma única pessoa.Silvia.Por mais que tentasse se concentrar em outras coisas, lembrava-se dela com uma facilidade quase irritante.O jeito como ela franzia a testa quando estava concentrada.A maneira como desviava os olhos quando ficava sem graça.O sorriso discreto que surgia quando alguma coisa realmente a divertia.E, principalmente, a forma como ela havia conseguido entrar em seus pensamentos sem pedir licença.Thomas entrou em sua sala, deixou a pasta sobre a mesa e respirou fundo.Precisava trabalhar.Naquele dia, não haveria espaço para distrações.Ou pelo menos era isso que pretendia acreditar.Não demorou muito para
CAPÍTULO 23 O que Artur não queria enxergarArtur dirigia pelas ruas de Santa Aurora sem prestar muita atenção ao caminho.As mãos permaneciam firmes no volante, mas sua cabeça estava longe dali.Ainda conseguia ouvir a voz de Thomas.“Eu não quero machucá-la.”A frase voltava à sua mente repetidamente, irritando-o cada vez mais.Durante quinze anos de amizade, Artur nunca tinha se sentido tão decepcionado com Thomas.E talvez fosse justamente isso que mais o incomodasse.Não era apenas a aposta.Era a sensação de que, pela primeira vez, Thomas havia colocado alguma coisa acima da amizade dos três.Artur sabia que estava sendo egoísta.No fundo, sabia.Mas admitir isso não tornava o sentimento menos verdadeiro.Desde que os três se conheceram, havia uma espécie de pacto silencioso entre eles. Podiam discutir, provocar uns aos outros, fazer apostas idiotas e até passar alguns dias sem se falar depois de uma briga mais séria. No final, porém, sempre voltavam
CAPÍTULO 22 Entre a amizade e a culpaArtur ainda parecia incapaz de acreditar no que acabara de ouvir.Thomas realmente estava pensando em desistir.A ideia, por si só, parecia absurda para ele.Durante todos os anos de amizade, Artur nunca tinha visto Thomas hesitar diante de um desafio. Muito menos quando o desafio envolvia uma mulher. Thomas sempre fora seguro de si, determinado e, quando colocava alguma coisa na cabeça, dificilmente voltava atrás.Mas, daquela vez, havia alguma coisa diferente.E Artur não gostava nem um pouco disso.Ele observava o amigo sentado no sofá, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar perdido em algum ponto do chão. Thomas parecia cansado. Não apenas fisicamente. Havia uma espécie de peso em sua expressão que Artur não conseguia compreender — ou talvez simplesmente não quisesse compreender.Para ele, aquilo era muito mais simples.Havia uma aposta.Havia um prazo.E havia um acordo entre amigos.O resto, na cabeça
CAPÍTULO 21 RecuarComo havia combinado com os amigos, Thomas deixou a Celebrare Eventos mais cedo naquela noite. Não havia nenhum compromisso profissional que justificasse a pressa, mas, desde o momento em que entrou no carro, uma inquietação o acompanhava.Queria resolver aquilo.Precisava resolver.Seu apartamento não era exatamente o tipo de lugar preparado para receber visitas. Um homem solteiro que passava boa parte do tempo fora de casa e fazia suas principais refeições em restaurantes não costumava manter uma despensa abastecida. Nos armários havia algumas latas, alimentos instantâneos, pacotes esquecidos de salgadinhos e pouco mais. Na geladeira, bebidas ocupavam um espaço muito maior do que qualquer comida de verdade.Thomas parou diante da geladeira aberta e soltou um suspiro.— Patético.Fechou a porta e pegou o celular.Antes de ligar para os amigos, decidiu passar em um mercado. Comprou cervejas, refrigerantes, peti
CAPÍTULO 20 Feridas que não cicatrizam Ele era como um Monet.Uma obra de arte que, quando observada de perto, parecia impossível de compreender por completo, mas que, vista à distância certa, revelava uma beleza quase perfeita.Era assim que eu enxergava Thomas.Uma obra de arte que eu não sabia como tocar sem correr o risco de destruí-la. Um homem que parecia ter sido feito para pertencer a um mundo ao qual eu jamais teria acesso.E talvez fosse exatamente por isso que eu precisava manter distância.Eu não podia tê-lo.Não podia segurá-lo entre as minhas mãos e acreditar que ele permaneceria ali, porque, mais cedo ou mais tarde, eu acabaria abrindo os dedos e o perderia por entre eles.Talvez aquilo que Thomas sentia por mim fosse apenas curiosidade.Talvez fosse atração.Talvez fosse apenas o resultado de uma situação que havia fugido do controle.Mas, fosse o que fosse, eu sabia que terminaria.Quando ele finalmente enxergasse a minha realidade







