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A ARTE DA CONQUISTA

Author: Ane Brito
last update publish date: 2026-09-06 10:46:40

Capítulo 4

O Primeiro Passo

Thomas caminhou em direção à mesa de Silvia com passos tranquilos, embora, pela primeira vez em muito tempo, não tivesse certeza absoluta do que diria quando chegasse até ela.

Artur e Albert permaneceram a algumas mesas atrás, não dava para ouvir a conversa mas dava para observar todos os movimentos deles.

Os sorrisos entre eles significavam problemas, para Thomas.

— Não estrague tudo — Artur havia murmurado, baixo, só para Thomas ouvir.

Thomas lançou-lhe um olhar de advertência por cima do ombro.

— Eu sei o que estou fazendo.

— Espero que saiba mesmo.

Thomas voltou a atenção para a mulher sentada à mesa a pouco menos de um metro de distância dele

Silvia parecia completamente concentrada no próprio almoço. Ou, pelo menos, fazia um esforço para parecer.

Desde que entrara no restaurante, ela havia percebido os olhares de Thomas e Artur. Tentara convencer a si mesma de que era apenas impressão, mas agora já não havia como ignorar.

Thomas estava vindo em sua direção.

Seu coração começou a bater mais rápido.

Silvia imediatamente abaixou os olhos para o prato.

Por que ele está vindo até aqui?

A pergunta se repetiu em sua mente.

Talvez quisesse apenas cumprimentá-la.

Talvez precisasse falar alguma coisa sobre o trabalho.

Talvez...

Ela não conseguiu encontrar uma explicação que a deixasse realmente tranquila.

Thomas parou ao lado da mesa.

— Com licença.

Silvia ergueu os olhos.

Por alguns segundos, simplesmente o encarou.

Era a primeira vez que estavam tão próximos fora do ambiente profissional, e aquela proximidade fez com que ela percebesse detalhes que normalmente não se permitiria observar.

Os olhos dele eram ainda mais intensos de perto.

Silvia rapidamente desviou o olhar.

— Sim?

Thomas apontou discretamente para a cadeira vazia à sua frente.

— Posso me sentar?

Silvia hesitou.

A pergunta parecia simples, mas, para ela, havia algo estranho naquela situação.

Thomas Tavares Júnior nunca havia demonstrado qualquer interesse em conversar com ela além do necessário.

Então por que, de repente, estava ali?

— Claro.

Thomas puxou a cadeira e se sentou.

Silvia tentou manter uma expressão natural.

Não conseguiu.

— Aconteceu alguma coisa, Digo... no trabalho? — perguntou.

Thomas arqueou levemente uma sobrancelha.

— Alguma coisa?

— É que... você veio até aqui.

— Sim.

Ele sorriu discretamente.

— Achei que poderia conversar um pouco com você.

Silvia ficou ainda mais confusa.

— Sobre o trabalho?

Thomas percebeu imediatamente a cautela em sua voz.

— Não necessariamente.

Ela ficou em silêncio.

Thomas apoiou os braços sobre a mesa.

— Você sempre almoça aqui?

— Às vezes.

— Sozinha?

Silvia sentiu um pequeno desconforto.

— Geralmente.

— Você não gosta de companhia?

A pergunta a pegou desprevenida.

Ela ergueu os olhos.

— Não é isso.

— Então o que é?

Silvia respirou fundo.

— Eu só gosto de lugares tranquilos.

Thomas assentiu.

Agora começava a entender algumas das coisas que Artur havia contado.

Ela realmente parecia preferir ficar longe dos holofotes.

— Entendo.

— Você não parece entender.

Thomas sorriu.

— Por quê?

— Porque você não parece ser o tipo de pessoa que gosta de ficar em lugares tranquilos.

Ele soltou uma risada baixa.

— E que tipo de pessoa você acha que eu sou?

Silvia se arrependeu imediatamente da própria pergunta.

— Eu não sei.

— Sabe sim.

— Não conheço você o suficiente para saber.

Thomas inclinou ligeiramente a cabeça.

— Então talvez seja uma boa oportunidade para começar a me conhecer.

Silvia ficou sem resposta.

A frase parecia inocente, mas havia algo no modo como ele a pronunciara que fez seu coração acelerar novamente.

Ela tentou disfarçar.

— Você costuma fazer isso?

— Isso o quê?

— Chegar à mesa de uma pessoa que mal conhece e começar a fazer perguntas pessoais?

Thomas sorriu.

— Não.

— Então por que está fazendo comigo?

Por um instante, Thomas ficou em silêncio.

A pergunta era mais direta do que esperava.

Ele poderia ter inventado uma desculpa.

Poderia ter mencionado alguma questão relacionada ao trabalho.

Mas preferiu não mentir.

— Porque fiquei curioso.

Silvia franziu a testa.

— Curioso?

— Sim.

— A meu respeito?

— Exatamente.

Ela soltou uma pequena risada, sem humor.

— Não entendo o motivo.

Thomas a observou por alguns segundos.

— Talvez seja justamente isso que me deixou curioso.

Silvia desviou o olhar.

Não sabia como reagir àquele homem.

Thomas tinha uma maneira de falar que fazia cada frase parecer mais importante do que realmente era.

E aquilo a deixava desconfortável.

Não porque estivesse sendo mal-educado.

Pelo contrário.

Ele estava sendo extremamente gentil.

Talvez fosse justamente isso que a confundisse.

Silvia estava acostumada a esperar pouco das pessoas.

Principalmente de homens como Thomas.

— Você está desconfortável? — ele perguntou.

Ela voltou a olhá-lo.

— Um pouco.

Thomas não pareceu ofendido.

— Por minha causa?

Silvia pensou antes de responder.

— Não exatamente.

— Então?

Ela soltou o ar lentamente.

— Eu não estou acostumada com esse tipo de situação.

— Que tipo?

— Um homem como você demonstrando interesse em conversar comigo.

Thomas ficou sério.

— Um homem como eu?

Silvia percebeu o erro.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Foi exatamente o que você quis dizer.

— Eu só...

Ela parou.

Thomas esperou.

Silvia não sabia como explicar sem parecer insegura.

— Você é diferente de mim.

— Diferente como?

— Você é confiante.

Thomas sorriu de lado.

— E você não é?

Ela abaixou os olhos.

A resposta estava evidente.

— Nem sempre.

Thomas observou o movimento.

Pela primeira vez, começou a perceber que havia algo além da timidez.

Silvia realmente não enxergava em si mesma aquilo que os outros poderiam enxergar.

— Você deveria confiar mais em si mesma.

Ela ergueu os olhos rapidamente.

— Você nem me conhece.

— Talvez eu queira conhecer.

O silêncio que se seguiu pareceu durar mais do que realmente durou.

Silvia sentiu o rosto esquentar.

— Thomas...

— Sim?

— Por que está fazendo isso?

Ele sabia exatamente o que ela queria dizer.

Por que estava ali?

Por que estava conversando daquele jeito?

Por que parecia tão interessado?

Thomas poderia responder que era por causa da aposta.

Mas não podia.

Ainda não.

— Porque conversar com você é interessante.

Silvia não pareceu convencida.

— Você diz isso para todas?

Thomas sorriu.

— Não.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Ela tentou conter um sorriso.

Não conseguiu completamente.

Thomas percebeu.

E aquilo o surpreendeu.

Havia algo diferente naquele pequeno sorriso.

Era discreto, quase tímido, mas sincero.

Por alguns segundos, ele esqueceu completamente que aquela conversa fazia parte de uma aposta.

Então se lembrou.

Trinta dias.

Era esse o prazo.

Trinta dias para provar a Artur que conseguiria conquistar Silvia.

Fácil.

Pelo menos deveria ser.

Mas, olhando para ela naquele momento, Thomas teve a sensação de que talvez tivesse subestimado o desafio.

Silvia não parecia impressionada pelo charme que costumava funcionar com outras mulheres.

Na verdade, parecia desconfiada dele.

E isso, em vez de afastá-lo, despertava ainda mais sua curiosidade.

— Você trabalha na Celebrare há quanto tempo? — perguntou.

Silvia pareceu aliviada com a mudança de assunto.

— Alguns anos.

— Gosta do que faz?

— Gosto.

— Muito?

Ela sorriu.

— Muito.

— Dá para perceber.

— Como?

— Pela maneira como você fala.

Silvia ficou em silêncio por um instante.

— Eu gosto de fazer as coisas direito.

— Isso é uma qualidade.

— Às vezes também é um problema.

— Por quê?

— Porque acabo me cobrando demais.

Thomas a observou.

— Você parece fazer isso com frequência.

Silvia franziu a testa.

— Fazer o quê?

— Se cobrar.

Ela não respondeu.

Aquela observação havia acertado em cheio.

Thomas percebeu.

— Acertei?

Silvia soltou um suspiro.

— Talvez.

— Você deveria relaxar um pouco.

— Fácil falar.

— É verdade.

Ele sorriu.

— Mas posso tentar ajudar.

Silvia olhou para ele, desconfiada.

— Como?

Thomas deu de ombros.

— Começando por um almoço sem falar de trabalho.

Ela finalmente sorriu.

— Você está dizendo que quer almoçar comigo outra vez?

Thomas sustentou seu olhar.

— Se você permitir.

Silvia não respondeu imediatamente.

Por dentro, estava completamente confusa.

Parte dela queria dizer não.

Outra parte, muito mais silenciosa, estava curiosa.

— Talvez — respondeu por fim.

Thomas sorriu.

— Vou considerar isso um sim.

— Não foi isso que eu disse.

— Eu sei.

Ele se levantou.

Silvia acompanhou o movimento com os olhos.

— Já vai?

— Vou deixar você terminar seu almoço.

Ela assentiu.

Thomas colocou as mãos nos bolsos e a encarou por mais alguns segundos.

— Foi bom conversar com você, Silvia.

— Para mim também.

Ele se afastou.

Silvia permaneceu imóvel, olhando-o desaparecer entre as mesas.

Só quando ele voltou para junto de Artur e Albert percebeu que estava prendendo a respiração.

Soltou o ar lentamente.

— O que acabou de acontecer?

Do outro lado do salão, Artur recebeu Thomas com uma expressão divertida.

— Então?

Thomas puxou a cadeira e se sentou.

— Então o quê?

— Você conversou com ela.

— Sim.

— E?

Thomas olhou novamente na direção de Silvia.

Ela ainda estava olhando para ele.

Os dois trocaram um breve olhar.

Silvia desviou imediatamente.

Thomas sorriu discretamente.

— Ela é mais interessante do que eu imaginava.

Artur arregalou os olhos.

— Isso foi quase um elogio.

— Não exagera.

— Você gostou dela.

Thomas voltou a olhar para o amigo.

— Eu gostei da conversa.

Artur abriu um sorriso.

— É assim que começa.

Thomas balançou a cabeça.

— Não começa.

— Você está curioso? Pergunta Albert.

— Estou.

— E quer vê-la novamente.

Thomas permaneceu em silêncio.

Artur sorriu ainda mais.

— Acertei.

Thomas pegou o copo de água e bebeu um gole antes de responder.

— Talvez.

Artur soltou uma gargalhada.

— Meu Deus! Você está perdido.

— Não estou perdido.

— Ainda. Disse Albert.

Thomas não respondeu.

Porque, pela primeira vez, aquela palavra não lhe pareceu tão absurda.

Enquanto isso, Silvia ainda tentava entender o que havia acontecido.

Thomas Tavares Júnior havia se sentado à sua mesa.

Conversara com ela.

Fizera perguntas.

E, pior de tudo, havia conseguido deixá-la curiosa.

Ela pegou o celular e olhou para a tela, tentando afastar os pensamentos.

Mas uma pergunta insistia em permanecer.

Por que ele se interessaria justamente por mim?

Silvia ainda não sabia.

E talvez fosse melhor assim.

Porque, se soubesse que aquela aproximação começara com uma aposta, talvez jamais tivesse permitido que Thomas chegasse tão perto.

Do outro lado do restaurante, Thomas se levantou novamente.

Antes de sair, olhou uma última vez para Silvia.

Dessa vez, ela não desviou imediatamente.

Os olhos dos dois se encontraram.

Um segundo.

Dois.

Thomas sorriu.

Silvia, sem saber exatamente por quê, acabou sorrindo também.

E foi naquele instante que Thomas percebeu que o verdadeiro jogo havia começado.

Não quando Artur fizera a aposta.

Não quando ele aceitara o desafio.

Mas naquele simples sorriso.

Porque, pela primeira vez, Thomas teve vontade de descobrir até onde aquela história poderia chegar.

E, sem que nenhum dos dois soubesse, aquele almoço seria apenas o primeiro de muitos encontros que mudariam completamente as regras daquela aposta.

O problema era que, quanto mais Thomas se aproximasse de Silvia, mais difícil seria separar o homem que queria vencer o desafio do homem que começava, lentamente, a se interessar por ela.

E o prazo continuava correndo.

Trinta dias.

A contagem regressiva havia começado.

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