LOGINCapítulo 4
O Primeiro Passo Thomas caminhou em direção à mesa de Silvia com passos tranquilos, embora, pela primeira vez em muito tempo, não tivesse certeza absoluta do que diria quando chegasse até ela. Artur e Albert permaneceram a algumas mesas atrás, não dava para ouvir a conversa mas dava para observar todos os movimentos deles. Os sorrisos entre eles significavam problemas, para Thomas. — Não estrague tudo — Artur havia murmurado, baixo, só para Thomas ouvir. Thomas lançou-lhe um olhar de advertência por cima do ombro. — Eu sei o que estou fazendo. — Espero que saiba mesmo. Thomas voltou a atenção para a mulher sentada à mesa a pouco menos de um metro de distância dele Silvia parecia completamente concentrada no próprio almoço. Ou, pelo menos, fazia um esforço para parecer. Desde que entrara no restaurante, ela havia percebido os olhares de Thomas e Artur. Tentara convencer a si mesma de que era apenas impressão, mas agora já não havia como ignorar. Thomas estava vindo em sua direção. Seu coração começou a bater mais rápido. Silvia imediatamente abaixou os olhos para o prato. Por que ele está vindo até aqui? A pergunta se repetiu em sua mente. Talvez quisesse apenas cumprimentá-la. Talvez precisasse falar alguma coisa sobre o trabalho. Talvez... Ela não conseguiu encontrar uma explicação que a deixasse realmente tranquila. Thomas parou ao lado da mesa. — Com licença. Silvia ergueu os olhos. Por alguns segundos, simplesmente o encarou. Era a primeira vez que estavam tão próximos fora do ambiente profissional, e aquela proximidade fez com que ela percebesse detalhes que normalmente não se permitiria observar. Os olhos dele eram ainda mais intensos de perto. Silvia rapidamente desviou o olhar. — Sim? Thomas apontou discretamente para a cadeira vazia à sua frente. — Posso me sentar? Silvia hesitou. A pergunta parecia simples, mas, para ela, havia algo estranho naquela situação. Thomas Tavares Júnior nunca havia demonstrado qualquer interesse em conversar com ela além do necessário. Então por que, de repente, estava ali? — Claro. Thomas puxou a cadeira e se sentou. Silvia tentou manter uma expressão natural. Não conseguiu. — Aconteceu alguma coisa, Digo... no trabalho? — perguntou. Thomas arqueou levemente uma sobrancelha. — Alguma coisa? — É que... você veio até aqui. — Sim. Ele sorriu discretamente. — Achei que poderia conversar um pouco com você. Silvia ficou ainda mais confusa. — Sobre o trabalho? Thomas percebeu imediatamente a cautela em sua voz. — Não necessariamente. Ela ficou em silêncio. Thomas apoiou os braços sobre a mesa. — Você sempre almoça aqui? — Às vezes. — Sozinha? Silvia sentiu um pequeno desconforto. — Geralmente. — Você não gosta de companhia? A pergunta a pegou desprevenida. Ela ergueu os olhos. — Não é isso. — Então o que é? Silvia respirou fundo. — Eu só gosto de lugares tranquilos. Thomas assentiu. Agora começava a entender algumas das coisas que Artur havia contado. Ela realmente parecia preferir ficar longe dos holofotes. — Entendo. — Você não parece entender. Thomas sorriu. — Por quê? — Porque você não parece ser o tipo de pessoa que gosta de ficar em lugares tranquilos. Ele soltou uma risada baixa. — E que tipo de pessoa você acha que eu sou? Silvia se arrependeu imediatamente da própria pergunta. — Eu não sei. — Sabe sim. — Não conheço você o suficiente para saber. Thomas inclinou ligeiramente a cabeça. — Então talvez seja uma boa oportunidade para começar a me conhecer. Silvia ficou sem resposta. A frase parecia inocente, mas havia algo no modo como ele a pronunciara que fez seu coração acelerar novamente. Ela tentou disfarçar. — Você costuma fazer isso? — Isso o quê? — Chegar à mesa de uma pessoa que mal conhece e começar a fazer perguntas pessoais? Thomas sorriu. — Não. — Então por que está fazendo comigo? Por um instante, Thomas ficou em silêncio. A pergunta era mais direta do que esperava. Ele poderia ter inventado uma desculpa. Poderia ter mencionado alguma questão relacionada ao trabalho. Mas preferiu não mentir. — Porque fiquei curioso. Silvia franziu a testa. — Curioso? — Sim. — A meu respeito? — Exatamente. Ela soltou uma pequena risada, sem humor. — Não entendo o motivo. Thomas a observou por alguns segundos. — Talvez seja justamente isso que me deixou curioso. Silvia desviou o olhar. Não sabia como reagir àquele homem. Thomas tinha uma maneira de falar que fazia cada frase parecer mais importante do que realmente era. E aquilo a deixava desconfortável. Não porque estivesse sendo mal-educado. Pelo contrário. Ele estava sendo extremamente gentil. Talvez fosse justamente isso que a confundisse. Silvia estava acostumada a esperar pouco das pessoas. Principalmente de homens como Thomas. — Você está desconfortável? — ele perguntou. Ela voltou a olhá-lo. — Um pouco. Thomas não pareceu ofendido. — Por minha causa? Silvia pensou antes de responder. — Não exatamente. — Então? Ela soltou o ar lentamente. — Eu não estou acostumada com esse tipo de situação. — Que tipo? — Um homem como você demonstrando interesse em conversar comigo. Thomas ficou sério. — Um homem como eu? Silvia percebeu o erro. — Não foi isso que eu quis dizer. — Foi exatamente o que você quis dizer. — Eu só... Ela parou. Thomas esperou. Silvia não sabia como explicar sem parecer insegura. — Você é diferente de mim. — Diferente como? — Você é confiante. Thomas sorriu de lado. — E você não é? Ela abaixou os olhos. A resposta estava evidente. — Nem sempre. Thomas observou o movimento. Pela primeira vez, começou a perceber que havia algo além da timidez. Silvia realmente não enxergava em si mesma aquilo que os outros poderiam enxergar. — Você deveria confiar mais em si mesma. Ela ergueu os olhos rapidamente. — Você nem me conhece. — Talvez eu queira conhecer. O silêncio que se seguiu pareceu durar mais do que realmente durou. Silvia sentiu o rosto esquentar. — Thomas... — Sim? — Por que está fazendo isso? Ele sabia exatamente o que ela queria dizer. Por que estava ali? Por que estava conversando daquele jeito? Por que parecia tão interessado? Thomas poderia responder que era por causa da aposta. Mas não podia. Ainda não. — Porque conversar com você é interessante. Silvia não pareceu convencida. — Você diz isso para todas? Thomas sorriu. — Não. — Tem certeza? — Absoluta. Ela tentou conter um sorriso. Não conseguiu completamente. Thomas percebeu. E aquilo o surpreendeu. Havia algo diferente naquele pequeno sorriso. Era discreto, quase tímido, mas sincero. Por alguns segundos, ele esqueceu completamente que aquela conversa fazia parte de uma aposta. Então se lembrou. Trinta dias. Era esse o prazo. Trinta dias para provar a Artur que conseguiria conquistar Silvia. Fácil. Pelo menos deveria ser. Mas, olhando para ela naquele momento, Thomas teve a sensação de que talvez tivesse subestimado o desafio. Silvia não parecia impressionada pelo charme que costumava funcionar com outras mulheres. Na verdade, parecia desconfiada dele. E isso, em vez de afastá-lo, despertava ainda mais sua curiosidade. — Você trabalha na Celebrare há quanto tempo? — perguntou. Silvia pareceu aliviada com a mudança de assunto. — Alguns anos. — Gosta do que faz? — Gosto. — Muito? Ela sorriu. — Muito. — Dá para perceber. — Como? — Pela maneira como você fala. Silvia ficou em silêncio por um instante. — Eu gosto de fazer as coisas direito. — Isso é uma qualidade. — Às vezes também é um problema. — Por quê? — Porque acabo me cobrando demais. Thomas a observou. — Você parece fazer isso com frequência. Silvia franziu a testa. — Fazer o quê? — Se cobrar. Ela não respondeu. Aquela observação havia acertado em cheio. Thomas percebeu. — Acertei? Silvia soltou um suspiro. — Talvez. — Você deveria relaxar um pouco. — Fácil falar. — É verdade. Ele sorriu. — Mas posso tentar ajudar. Silvia olhou para ele, desconfiada. — Como? Thomas deu de ombros. — Começando por um almoço sem falar de trabalho. Ela finalmente sorriu. — Você está dizendo que quer almoçar comigo outra vez? Thomas sustentou seu olhar. — Se você permitir. Silvia não respondeu imediatamente. Por dentro, estava completamente confusa. Parte dela queria dizer não. Outra parte, muito mais silenciosa, estava curiosa. — Talvez — respondeu por fim. Thomas sorriu. — Vou considerar isso um sim. — Não foi isso que eu disse. — Eu sei. Ele se levantou. Silvia acompanhou o movimento com os olhos. — Já vai? — Vou deixar você terminar seu almoço. Ela assentiu. Thomas colocou as mãos nos bolsos e a encarou por mais alguns segundos. — Foi bom conversar com você, Silvia. — Para mim também. Ele se afastou. Silvia permaneceu imóvel, olhando-o desaparecer entre as mesas. Só quando ele voltou para junto de Artur e Albert percebeu que estava prendendo a respiração. Soltou o ar lentamente. — O que acabou de acontecer? Do outro lado do salão, Artur recebeu Thomas com uma expressão divertida. — Então? Thomas puxou a cadeira e se sentou. — Então o quê? — Você conversou com ela. — Sim. — E? Thomas olhou novamente na direção de Silvia. Ela ainda estava olhando para ele. Os dois trocaram um breve olhar. Silvia desviou imediatamente. Thomas sorriu discretamente. — Ela é mais interessante do que eu imaginava. Artur arregalou os olhos. — Isso foi quase um elogio. — Não exagera. — Você gostou dela. Thomas voltou a olhar para o amigo. — Eu gostei da conversa. Artur abriu um sorriso. — É assim que começa. Thomas balançou a cabeça. — Não começa. — Você está curioso? Pergunta Albert. — Estou. — E quer vê-la novamente. Thomas permaneceu em silêncio. Artur sorriu ainda mais. — Acertei. Thomas pegou o copo de água e bebeu um gole antes de responder. — Talvez. Artur soltou uma gargalhada. — Meu Deus! Você está perdido. — Não estou perdido. — Ainda. Disse Albert. Thomas não respondeu. Porque, pela primeira vez, aquela palavra não lhe pareceu tão absurda. Enquanto isso, Silvia ainda tentava entender o que havia acontecido. Thomas Tavares Júnior havia se sentado à sua mesa. Conversara com ela. Fizera perguntas. E, pior de tudo, havia conseguido deixá-la curiosa. Ela pegou o celular e olhou para a tela, tentando afastar os pensamentos. Mas uma pergunta insistia em permanecer. Por que ele se interessaria justamente por mim? Silvia ainda não sabia. E talvez fosse melhor assim. Porque, se soubesse que aquela aproximação começara com uma aposta, talvez jamais tivesse permitido que Thomas chegasse tão perto. Do outro lado do restaurante, Thomas se levantou novamente. Antes de sair, olhou uma última vez para Silvia. Dessa vez, ela não desviou imediatamente. Os olhos dos dois se encontraram. Um segundo. Dois. Thomas sorriu. Silvia, sem saber exatamente por quê, acabou sorrindo também. E foi naquele instante que Thomas percebeu que o verdadeiro jogo havia começado. Não quando Artur fizera a aposta. Não quando ele aceitara o desafio. Mas naquele simples sorriso. Porque, pela primeira vez, Thomas teve vontade de descobrir até onde aquela história poderia chegar. E, sem que nenhum dos dois soubesse, aquele almoço seria apenas o primeiro de muitos encontros que mudariam completamente as regras daquela aposta. O problema era que, quanto mais Thomas se aproximasse de Silvia, mais difícil seria separar o homem que queria vencer o desafio do homem que começava, lentamente, a se interessar por ela. E o prazo continuava correndo. Trinta dias. A contagem regressiva havia começado.CAPÍTULO 72 Um Almoço CorporativoA manhã começou como tantas outras na Celebrare Eventos, com telefones tocando, funcionários atravessando os corredores e reuniões disputando espaço nas agendas. Ainda assim, Silvia sentia que algo havia mudado. Depois dos últimos dias, sua vida parecia encontrar um ritmo familiar, embora algumas coisas tivessem se transformado definitivamente.O jantar em seu apartamento continuava rendendo boas lembranças. A facilidade com que Taissa se aproximara dela, as brincadeiras de Margot e a satisfação de Thomas ao perceber que as pessoas importantes de sua vida estavam se entendendo haviam deixado uma sensação acolhedora. Silvia sempre imaginara que conhecer a família de um homem por quem estivesse apaixonada seria uma experiência carregada de nervosismo. Com Taissa, porém, tudo acontecera naturalmente.Talvez fosse isso que mais a emocionasse: aos poucos, ela deixava de se sentir uma visitante na vida de Thomas.— Está sorrindo
CAPÍTULO 71 b. O Que Construímos JuntosA manhã seguinte começou com tranquilidade no apartamento de Thomas. Enquanto preparava o café, ele se lembrava das risadas que haviam preenchido a sala de Silvia na noite anterior. A reunião tinha sido simples, sem formalidades ou grandes preparativos, mas proporcionara algo que ele valorizava cada vez mais: a oportunidade de compartilhar momentos felizes com as pessoas que amava.— Você está sorrindo sozinho — Taissa comentou ao entrar na cozinha.Thomas voltou o rosto para a irmã, que se acomodou diante da bancada.— Estou pensando no jantar de ontem.— Eu também! Fazia tempo que não me divertia tanto.— Principalmente porque você ganhou uma partida e passou o restante da noite agindo como se tivesse conquistado um campeonato mundial.Taissa soltou uma gargalhada.— Você está com inveja porque perdeu.— Eu deixei você ganhar.— Claro. E eu sou a mulher mais ingênua do mundo.Thomas colocou uma xícara de café di
CAPÍTULO 70 Laços que EscolhemosO jantar havia terminado, mas ninguém parecia disposto a encerrar aquela noite.Na sala do apartamento de Silvia, o aroma agradável da comida ainda pairava no ar, misturado às risadas que surgiam sempre que Margot e Taissa recuperavam alguma lembrança dos momentos que haviam compartilhado. Thomas estava acomodado ao lado de Silvia no sofá, observando com satisfação a facilidade com que sua irmã se integrava àquele pequeno universo que a namorada havia construído.Silvia sentia uma felicidade tranquila. Não era apenas a presença de Thomas que tornava aquela noite especial, mas a maneira como ele parecia à vontade naquele ambiente, sem a formalidade dos restaurantes ou as preocupações do trabalho. Ali, entre almofadas coloridas e copos sobre a mesa de centro, ele era simplesmente Thomas.E ela gostava ainda mais dele assim.— Eu ainda não acredito que você teve coragem de fazer aquilo! — Margot exclamou, apontando para Taissa co
CAPÍTULO 69 Uma Surpresa à MesaSilvia chegou em casa pouco depois das quatro da tarde, ainda com a cabeça cheia dos acontecimentos dos últimos dias e um sorriso discreto que insistia em aparecer sempre que pensava em Thomas. Mal atravessou a porta, deixou a bolsa sobre o sofá, trocou os sapatos por algo mais confortável e seguiu diretamente para a cozinha.Naquela noite, receberia Thomas e Taissa para jantar. Depois do encontro anterior, Silvia estava feliz por ter outra oportunidade de passar um tempo com a irmã do homem que amava. Queria conhecê-la melhor, estreitar os laços entre elas e, principalmente, proporcionar a Thomas uma noite agradável ao lado das duas.Ela queria que aquela noite fosse especial.Não precisava de luxo, muito menos de uma mesa digna de um restaurante sofisticado. Queria apenas preparar uma refeição deliciosa, criar um ambiente acolhedor e fazer com que Taissa se sentisse à vontade em sua casa.Prendeu os cabelos, lavou a
CAPÍTULO 68 MAIS PERTO DO QUE NUNCAA luz suave da manhã atravessava as cortinas do chalé, iluminando o quarto onde Thomas e Silvia ainda aproveitavam os últimos minutos de tranquilidade antes de retornarem a Santa Aurora.Silvia despertou primeiro. Permaneceu alguns instantes nos braços de Thomas, observando o rosto sereno dele. Era difícil acreditar que aquele homem, que antes parecia tão distante de seu mundo, havia se tornado alguém tão importante em sua vida.Como se percebesse que estava sendo observado, Thomas abriu os olhos.— Está me espionando, minha linda?Silvia sorriu.— Estou tentando descobrir se você é tão bonito dormindo quanto pensa que é acordado.— E qual foi o resultado?— Ainda estou analisando as evidências.Thomas aproximou o rosto e a beijou, interrompendo qualquer resposta. Quando se afastaram, acariciou a face dela.— Eu poderia me acostumar a acordar assim todos os dias.O sorriso de Silvia se tornou mais discreto.— Não diga
CAPÍTULO 67 Uma Noite Só NossaThomas percebeu que estava sentindo falta de Silvia de um jeito diferente naquela semana. Não era a ausência dela durante o expediente, tampouco a saudade que costumava sentir quando passavam algumas horas separados. Silvia continuava ao seu lado, compartilhava os dias com ele e, mesmo nos momentos mais corridos, encontrava uma maneira de fazê-lo sorrir.O que lhe fazia falta eram os instantes em que o mundo parecia pertencer apenas aos dois.Desde que Taissa chegara a Santa Aurora, o apartamento havia recuperado a animação das reuniões familiares. Thomas adorava ter a irmã por perto, ouvir suas histórias de viagem e descobrir as novidades que ela trazia consigo. Entretanto, com a presença dela, as noites tranquilas ao lado de Silvia haviam se tornado menos frequentes. Os momentos em que podiam se esquecer do restante do mundo, conversar sem pressa e simplesmente desfrutar da companhia um do outro tinham ficado para de







