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10 — O RELATÓRIO QUE FALTAVA

last update publish date: 2026-10-25 11:15:36

Idris Al-Harith

Nabil iniciou a apresentação dos novos documentos encaminhados pela equipe financeira. Da cabeceira da mesa, acompanhei seus primeiros esclarecimentos e percebi Júlia deixar a caneta ao lado do caderno, voltando toda a atenção para a tela.

Havia alguma coisa na expressão dela que me chamou a atenção.

Não foi uma reação exagerada. Apenas ajeitou a postura, aproximou o computador e esperou que Nabil concluísse o raciocínio.

— Esses registros demonstram que os procedimentos de conciliação foram devidamente validados — afirmou ele. — Portanto, considero que as dúvidas levantadas anteriormente estão esclarecidas.

Júlia ergueu a mão discretamente.

— Senhor Qassem, encontrei sua assinatura na validação de um dos documentos apresentados. Gostaria de compreender exatamente qual etapa do procedimento foi aprovada pelo senhor e quais informações estavam disponíveis naquele momento.

Nabil olhou para a tela.

— Minha diretoria aprova centenas de documentos administrativos, doutora Valença. Isso não significa que eu examine pessoalmente cada lançamento financeiro.

— Compreendo. Justamente por isso, preciso identificar quem realizou a conferência e quais documentos serviram de base para sua aprovação. A assinatura demonstra uma validação, mas não esclarece a diferença entre as informações apresentadas.

Observei meu diretor.

A pergunta era simples. E ele poderia respondê-la sem dificuldade se tivesse os registros adequados.

— A controladoria da prestadora é responsável pela conferência inicial — explicou Nabil. — Nossa equipe recebe os dados consolidados e verifica sua conformidade com os procedimentos internos.

Júlia consultou uma anotação.

— Nesse caso, solicito a identificação do responsável pela conferência e os documentos utilizados nessa etapa. Também precisamos esclarecer por que o resumo de regularidade foi emitido antes do fechamento do período examinado.

Paulo Meirelles se movimentou na cadeira.

Conhecia aquela expressão. Ele queria encerrar o assunto antes que a reunião se transformasse em outro pedido de documentação.

Resolvi intervir.

— Nabil, vamos encaminhar os registros solicitados. Se nossa equipe aprovou a conciliação, precisamos demonstrar o que foi efetivamente conferido. Não vejo motivo para prolongar uma discussão que pode ser resolvida com documentos.

Meu diretor assentiu, embora não parecesse satisfeito.

Júlia voltou a fazer anotações.

Durante o restante da reunião, examinamos as cláusulas de responsabilidade contratual, os procedimentos de fiscalização dos fornecedores e os limites de acesso às informações.

Ela não interrompeu desnecessariamente.

Quando fez perguntas, foram relacionadas a pontos que precisavam de esclarecimento.

Em determinado momento, nossos olhares se encontraram.

Lembrei da conversa no corredor, minutos antes, quando ela comentou que talvez pudéssemos conversar sobre outros assuntos depois que terminássemos de trabalhar.

A lembrança provocou um sorriso involuntário.

Júlia estreitou discretamente os olhos, como se tentasse descobrir o motivo.

Desviei a atenção para os documentos.

Aquela mulher já ocupava meus pensamentos com uma frequência inconveniente. Não permitiria que isso interferisse numa reunião profissional.

Quando encerramos, Paulo agradeceu a disponibilidade das equipes e reafirmou o interesse do fundo na operação.

Júlia recolheu os materiais aos quais tinha acesso e se levantou junto com Helena.

— Doutora Valença — chamei antes que saísse. — Nossa equipe responderá às questões pendentes pelo canal oficial. Espero que os próximos documentos permitam avançar na sua análise.

Ela parou perto da porta.

— Espero o mesmo, Sheikh Idris. Uma resposta bem fundamentada facilita o trabalho de todos, inclusive o meu.

Sorri.

— Então temos um objetivo em comum.

— Pelo menos um — respondeu, com uma expressão discretamente divertida.

Acompanhei sua saída com os olhos por um instante.

Nabil esperou os demais deixarem a sala antes de fechar a pasta.

— Está satisfeito? Abrimos outra série de documentos e continuamos sem uma aprovação. Desse jeito, a equipe brasileira vai encontrar motivos para adiar a operação indefinidamente.

Voltei minha atenção para ele.

— Não estamos esperando uma aprovação da doutora Valença, Nabil. Estamos aguardando uma análise jurídica do fundo. E, neste momento, temos duas versões de uma conciliação financeira sem uma explicação verificável para a diferença entre elas.

Ele se recostou na cadeira.

— São problemas de procedimento. A equipe financeira vai resolver, como já expliquei.

— Então preciso saber qual equipe aprovou a primeira versão.

— A controladoria da Najma.

Apontei para o rodapé do documento que continuava projetado.

— Nesse caso, por que sua assinatura aparece aqui como responsável pela validação?

Nabil olhou novamente para a tela.

Não demonstrou surpresa.

E isso me incomodou mais do que qualquer reação exagerada poderia incomodar.

— Idris, eu aprovo centenas de resumos administrativos. Não tenho condições de conferir individualmente cada lançamento de todas as empresas contratadas pelo grupo.

— Não estou exigindo que faça o trabalho da controladoria. Quero identificar quem conferiu esses registros e quais informações foram utilizadas para aprovar a conciliação.

Ele esfregou a lateral do rosto.

— Todo conglomerado tem diferenças administrativas. Se transformarmos cada uma delas numa investigação, vamos paralisar as operações. Você sabe tão bem quanto eu como isso pode prejudicar a empresa.

Apoiei as mãos sobre a mesa.

— Não determinei uma investigação criminal. Solicitei esclarecimentos sobre divergências documentadas. Existe uma diferença importante entre essas duas situações.

Nabil se inclinou para a frente.

— É assim que problemas administrativos chegam à imprensa. Um investidor estrangeiro faz perguntas, alguém interpreta a situação como escândalo e, quando percebemos, a reputação da empresa está comprometida.

Eu conhecia aquela lógica.

Durante anos, controlar informações antes que se transformassem em crises pareceu uma estratégia razoável de gestão.

Mas havia uma pergunta que começava a me incomodar: em que momento a preocupação com a reputação passou a ser mais importante do que conhecer os fatos?

— Quero que todos os registros relacionados a esse contrato sejam preservados — determinei. — Inclusive versões anteriores, históricos de alteração e documentos utilizados na aprovação. Ninguém deverá substituir arquivos nem produzir declarações retrospectivas para justificar procedimentos. O jurídico vai orientar a preservação adequada.

Nabil afastou a cadeira.

— Você está tratando minha diretoria como suspeita.

— Estou tratando nossos processos como algo que precisa ser verificável. Não confunda as duas coisas.

Ele ficou em silêncio.

Depois recolheu os documentos e saiu sem se despedir.

Esperei a porta se fechar antes de telefonar para a diretora de governança.

Expliquei que precisava de uma proposta para revisão independente dos registros da Najma, com escopo definido, acesso autorizado e proteção dos dados pessoais envolvidos.

Não queria que uma divergência contábil se transformasse numa exposição indevida de trabalhadores.

Também não permitiria que profissionais envolvidos nas aprovações anteriores conduzissem sozinhos a verificação dessas mesmas decisões.

— Podemos estruturar uma avaliação preliminar — respondeu a diretora. — Caso seja necessária uma apuração mais ampla, precisaremos submeter ao conselho as questões de orçamento, independência e autoridade para acesso aos documentos.

— Prepare as opções. Quero compreender a trilha de pagamentos, os controles de terceirização e as versões utilizadas. Sem conclusões antecipadas e sem improvisar entrevistas com empregados.

Ela confirmou as orientações.

Quando desliguei, meu telefone voltou a tocar.

Aisha.

Atendi enquanto caminhava até a janela.

— Antes que pergunte, estou trabalhando — anunciei.

— Isso seria uma excelente notícia se trabalhar significasse também prestar atenção ao que seus diretores estão fazendo.

Soltei uma risada.

— Boa noite para você também, tia.

— Soube que a apresentação aos investidores brasileiros foi bastante movimentada. Imagino que tenha alguma relação com aquela prestadora de serviços.

— Você mantém alguém informando cada movimento meu?

— Tenho olhos, ouvidos e experiência suficiente para reconhecer quando seus executivos começam a utilizar a palavra “ruído”. Geralmente significa que existe alguma coisa que prefeririam não discutir.

Observei as luzes da cidade.

— Encontramos diferenças entre documentos. Ainda estamos verificando a origem e a extensão. Não tenho uma conclusão.

— Então não tente substituir respostas por fotografias da fundação. Ontem, alguém sugeriu incluir nossas ações sociais na comunicação institucional sobre governança. Recusei imediatamente.

Franzi a testa.

— Não solicitei esse material.

— Eu sei. Estou avisando antes que algum assessor considere conveniente fazer isso em seu nome. Uma biblioteca construída para a comunidade não comprova a regularidade de uma folha de pagamento, Idris.

Fechei os olhos por um instante.

— Você tem razão.

Aisha ficou em silêncio.

— Repita, por favor. Quero ter certeza de que ouvi corretamente. Meu sobrinho finalmente reconheceu que estou certa sem tentar negociar os termos?

Ri.

— Não se acostume.

— Tarde demais. Vou contar no jantar de família.

Antes de desligar, perguntou se eu tinha comido.

Respondi que ainda não.

Recebi uma repreensão suficientemente longa para me convencer a pedir alguma coisa à cozinha.

A bandeja chegou enquanto o departamento jurídico reunia os primeiros registros disponíveis.

Deixei a comida sobre a mesa e voltei ao computador.

A nota preliminar da controladoria mostrava que a Najma utilizava dois conjuntos de informações: um relacionado às transferências registradas e outro aos ajustes de liquidação interna.

Em determinados lançamentos, os valores pareciam coincidir. Em outros, surgiam compensações descritas de maneira genérica, sem documentação suficiente para explicar sua natureza.

Nada daquilo comprovava, por si só, que algum empregado recebeu menos do que deveria.

Mas os registros também não sustentavam a declaração de regularidade absoluta apresentada anteriormente.

Abri o histórico de versões.

O resumo que afirmava não existir inconsistência material recebeu aprovação antes da consolidação completa do período analisado.

Precisávamos descobrir por que continuava sendo utilizado como comprovação de conformidade.

Minha assessora entrou trazendo um copo de água.

— A equipe do Fundo Atlântico pediu confirmação sobre a revisão complementar. Também recebemos uma nova lista de perguntas da doutora Valença.

Peguei o documento.

Júlia tinha avançado exatamente para os pontos que precisávamos examinar: quem validou cada versão, quais datas correspondiam aos registros efetivamente consolidados e como seria demonstrada a natureza das compensações.

No rodapé, havia uma observação.

“Os documentos disponíveis não permitem afirmar regularidade plena nem concluir pela existência de irregularidade individual. Necessária verificação complementar.”

Reli a frase.

Ela resistia à pressão para encerrar a análise, mas também não utilizava as lacunas para formular acusações que não conseguiria sustentar.

Era uma postura que merecia respeito.

Lembrei da segurança com que me enfrentou na reunião e do sorriso que tentou esconder quando trocamos provocações no corredor.

Eu estava interessado naquela mulher.

Negar isso começava a parecer uma perda de tempo.

Mas meu interesse não poderia influenciar as decisões que precisava tomar.

Entreguei a lista à assessora.

— Encaminhe tudo à governança. Informe ao fundo que estamos estruturando uma revisão independente, mas que não existe conclusão. Quero todas as respostas documentadas nos canais oficiais.

Pouco antes das oito, Nabil voltou ao gabinete.

Dessa vez, sua expressão estava mais fechada.

— Idris, precisamos limitar a revisão a uma amostra financeira. Não considero apropriado incluir procedimentos de recrutamento ou contratos que estejam fora das unidades diretamente envolvidas no investimento.

— O escopo será definido pelos riscos identificados e pelas autorizações aplicáveis. Não vamos ampliar a revisão sem justificativa, mas também não vamos restringi-la apenas porque algumas respostas podem ser desconfortáveis.

Ele apoiou as mãos na mesa.

— Você não está compreendendo o tamanho da exposição que podemos enfrentar.

Levantei-me.

— Estou começando a compreender que talvez ninguém tenha medido essa exposição corretamente.

Nabil abriu a boca, mas a chegada da diretora de governança interrompeu sua resposta.

Ela trazia duas pastas.

Na primeira, estavam os registros preparados para a diligência do fundo.

Na segunda, versões de trabalho preservadas pela controladoria, incluindo diferenças que não apareciam nos resumos executivos.

Pedi que colocasse ambas sobre a mesa.

Abri a primeira pasta e comparei os documentos com os registros da segunda.

As diferenças exigiam uma análise muito mais cuidadosa do que a que tínhamos feito até então.

Na manhã seguinte, eu precisaria apresentar ao conselho um plano de verificação que provavelmente desagradaria a Nabil, aos investidores e a parte da minha própria equipe.

Olhei para os números mais uma vez.

Não sabia quem tinha cometido erros, se eram falhas de procedimento ou se algum trabalhador tinha sofrido prejuízo.

Sabia apenas que os documentos oficiais não contavam a história inteira.

E, se quisesse descobrir o restante, teria de permitir que profissionais independentes examinassem procedimentos que, durante anos, aceitei com base na confiança que depositava em meus diretores.

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