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9 — O CONTRATO DE MARIAM

last update 公開日: 2026-10-25 11:07:48

Júlia Valença

Na manhã seguinte, os documentos da Najma Services já ocupavam minha tela antes mesmo de o café esfriar.

Eu tinha deixado algumas solicitações organizadas na noite anterior, esperando encontrar respostas quando voltasse ao trabalho. Em vez disso, recebi um fluxograma colorido, acompanhado de uma explicação genérica sobre a maneira como o Grupo Sahar consolidava as informações de seus fornecedores.

O desenho era bonito.

Tinha setas, etapas de aprovação, nomes de departamentos e uma apresentação tão organizada que quase me fez esquecer o motivo da solicitação.

Quase.

Porque os trezentos e cinquenta dirhams continuavam sem uma explicação verificável.

Abri a planilha original ao lado do fluxograma e comecei a comparar os registros. A sequência apresentada pelo departamento financeiro fazia sentido na teoria, mas faltavam os documentos que demonstrassem a aplicação daquele procedimento ao lançamento questionado.

Era como receber uma receita detalhada e tentar descobrir se alguém realmente preparou o prato.

Helena entrou carregando algumas impressões autorizadas.

— A reunião complementar foi antecipada para amanhã, no fim da tarde. Nabil informou que pretende apresentar uma justificativa definitiva para as diferenças identificadas. Paulo está convencido de que finalmente vamos conseguir encerrar essa parte da análise.

Tirei os óculos e olhei para ela.

— Definitiva para qual pergunta? Porque temos o ajuste de recrutamento, duas versões de um aditivo e uma metodologia que continua sem documentação de suporte.

Ela acomodou os papéis na mesa.

— Para todas, segundo Nabil. Ele parece bastante confiante de que a equipe financeira conseguiu reunir os esclarecimentos necessários.

— Uma ambição admirável. Espero que venha acompanhada dos arquivos originais.

Helena sorriu, mas não voltou imediatamente ao computador.

Ficou me observando por alguns instantes.

— Posso falar uma coisa? Você está diferente desde ontem. Continua exigente com os documentos, mas parece menos interessada em transformar cada reunião numa disputa para ver quem tem razão.

Levantei uma sobrancelha.

— Tenho dormido quatro horas por noite. Talvez meu organismo tenha decidido economizar energia.

— Não estou brincando, Júlia. Parece que você está escolhendo melhor quais discussões merecem sua atenção.

Voltei os olhos para a planilha.

Pensei em Amina, no cuidado com que corrigiu as palavras da intérprete e na firmeza com que pediu para conversar sozinha com a profissional responsável por orientá-la.

Eu sempre acreditei que uma boa advogada precisava saber assumir a frente de uma discussão difícil. E continuava acreditando nisso.

Mas existiam momentos em que nossa obrigação era justamente não ocupar o espaço de quem precisava falar.

— Talvez eu esteja aprendendo a fazer perguntas melhores — respondi, retomando o trabalho.

Helena não insistiu.

Passamos o restante da manhã entre arquivos, solicitações e telefonemas. Quando consegui separar os documentos que precisavam de nova conferência, meu celular tocou.

O número pertencia à entidade que organizou o atendimento de Amina.

Atendi numa sala reservada.

— Doutora Valença? Meu nome é Mariam Al-Suwaidi. Reem Haddad me forneceu seu contato profissional para esclarecer uma questão específica, com autorização de Amina Rahman.

A voz era segura, direta e sem cerimônias desnecessárias.

— Bom dia, Mariam. Reem mencionou que você poderia prestar orientação jurídica independente. Em que posso ajudar?

— Antes de conversar sobre qualquer encaminhamento, Amina pediu que eu confirmasse exatamente para quem a senhora trabalha. Expliquei que essa informação não modifica meus deveres profissionais, mas considero importante que ela compreenda a relação entre as instituições envolvidas.

Gostei da objetividade.

— Sou advogada brasileira e represento o Fundo Atlântico numa diligência relacionada à possível aquisição de uma participação minoritária no Grupo Sahar. Não represento a Najma, seus empregados ou o próprio Sahar. Minha atuação está limitada ao mandato empresarial que recebi.

— Entendi. Da minha parte, qualquer assistência prestada a Amina será independente. Minha atuação também precisa respeitar os limites do meu registro profissional e das normas locais. Se surgir necessidade de representação perante um tribunal, teremos de avaliar o encaminhamento a um advogado habilitado.

— Concordo plenamente. Não pretendo exercer advocacia local nem receber documentos que Amina decida compartilhar com sua equipe. Quero preservar a separação entre a diligência do fundo e os interesses individuais dela.

Mariam fez uma pausa.

— Fico satisfeita com essa clareza. Algumas pessoas chegam aqui com boas intenções, mas acreditam que isso lhes dá autoridade para conduzir situações que não conhecem suficientemente.

Sorri.

— No Brasil também acontece. Às vezes, a parte mais importante do nosso trabalho é reconhecer onde termina nossa competência.

Ela soltou uma risada discreta.

Conversamos sobre os limites institucionais do encaminhamento. Mariam explicou que apresentaria a Amina os procedimentos disponíveis, os cuidados necessários com documentos e os possíveis riscos de cada decisão.

Não antecipou resultados.

Também não compartilhou qualquer informação sobre o conteúdo do atendimento.

Antes de encerrar, sugeriu que nos encontrássemos brevemente para alinhar apenas a separação entre nossas funções.

— Posso ir à entidade amanhã pela manhã, desde que a conversa não envolva informações confidenciais da trabalhadora nem documentos protegidos do meu cliente — respondi.

— Essa também é minha condição. Quero que ninguém confunda a assistência de Amina com o processo de investimento.

Combinamos o horário.

Assim que desliguei, registrei o contato no arquivo restrito e voltei à diligência.

Uma mensagem de Paulo já me esperava.

Ele queria agilidade.

Sorri sozinha.

Paulo parecia acreditar que repetir a palavra urgente transformaria qualquer documento incompleto numa resposta suficiente.

Na manhã seguinte, encontrei Mariam no escritório da entidade.

O endereço ficava numa região movimentada, distante dos grandes edifícios espelhados que dominavam as apresentações institucionais.

Na recepção, cartazes em vários idiomas orientavam os visitantes sobre serviços disponíveis. Dois voluntários organizavam folhetos enquanto uma mulher aguardava atendimento com uma criança pequena.

Reem me recebeu e indicou uma sala.

Mariam estava diante de uma mesa simples, com uma pasta fina e um bloco de anotações.

Usava roupas sóbrias e tinha a expressão de alguém acostumada a separar o que era importante daquilo que apenas parecia importante.

Cumprimentou-me cordialmente.

— Agradeço por ter vindo, Júlia. Prefiro esclarecer essas questões pessoalmente porque Amina precisa ter segurança sobre quem está tratando dos seus interesses.

Sentei-me à sua frente.

— Concordo. Não quero que ela imagine que suas informações serão utilizadas numa negociação entre empresas. Nem que meu envolvimento inicial me dê algum direito sobre as decisões dela.

Mariam apoiou as mãos sobre a mesa.

— Esse é justamente o ponto. Amina precisa compreender que minha atuação não está vinculada ao Fundo Atlântico ou ao Sahar. Se decidir apresentar uma reclamação, essa escolha deverá ser avaliada conforme os direitos dela, não conforme a conveniência dos investidores.

— Da minha parte, não divulgarei sua identidade nem seus relatos ao fundo com base nesse contato. Se surgirem informações por fontes legítimas da diligência empresarial, serão examinadas dentro daquele trabalho, com os cuidados jurídicos correspondentes. Não vou utilizar o que ela disser à sua equipe para sustentar uma conclusão comercial.

Mariam assentiu.

— E se seu cliente perguntar diretamente se algum trabalhador procurou a senhora?

A pergunta exigia uma resposta cuidadosa.

— Precisarei observar meus deveres profissionais e os limites de confidencialidade aplicáveis. Por isso, não pretendo continuar recebendo relatos substantivos de Amina. Se surgir alguma obrigação de comunicação, será necessário avaliá-la adequadamente, sem expor a identidade dela além do que for juridicamente exigido.

— É uma cautela importante — respondeu. — O desejo de ajudar não pode criar riscos que a própria pessoa não escolheu assumir.

Ela explicou, de maneira geral, que eventuais reclamações trabalhistas poderiam envolver canais administrativos específicos, dependendo do vínculo contratual e das normas aplicáveis.

A avaliação individual ficaria sob responsabilidade da equipe local.

Se fosse necessária representação judicial, Faisal Darwish, advogado habilitado, poderia examinar o caso e as condições de uma eventual contratação.

Nada seria protocolado sem a orientação e as decisões apropriadas.

— E Amina? — perguntei, tomando cuidado para não ultrapassar o limite que acabávamos de estabelecer. — Ela conseguiu compreender as informações apresentadas?

Mariam suavizou a expressão.

— Ela fez as perguntas que desejava fazer. Posso dizer isso. Quanto ao conteúdo da conversa, só compartilharei aquilo que ela autorizar.

Sorri.

— Então não preciso saber mais nada.

Mariam me acompanhou até a recepção.

Perto da saída, uma jovem explicava um formulário a um trabalhador que parecia ter dificuldade com o idioma. Reem aguardava a interpretação terminar antes de fazer qualquer pergunta adicional.

Observei a cena por alguns segundos.

Havia uma quantidade enorme de trabalho importante acontecendo naquele lugar, sem discursos grandiosos, fotografias de divulgação ou reuniões cercadas de executivos.

Despedimo-nos, e segui para os compromissos da tarde.

Voltei ao edifício do Sahar pouco antes das seis, a tempo da apresentação complementar antecipada.

Encontrei Idris no corredor, acompanhado de sua assessora.

Ele interrompeu a conversa quando me viu.

— Doutora Valença. Pela sua expressão, imagino que o dia tenha sido mais longo do que o previsto.

Sorri discretamente.

— Foi produtivo. Também serviu para me lembrar de que existem muitas maneiras de trabalhar com responsabilidade.

Idris me observou com curiosidade.

Não perguntou onde estive nem tentou descobrir o motivo da resposta.

A discrição dele me agradou mais do que eu esperava.

— Espero que nossa reunião também contribua para essa impressão — comentou.

— Isso vai depender dos documentos apresentados.

Ele soltou um suspiro exagerado, acompanhado de um sorriso.

— Um dia ainda vou conseguir conversar com a senhora sem ouvir a palavra documentos. Estou começando a considerar isso um desafio pessoal.

Ri antes de conseguir evitar.

— Talvez consiga, Sheikh Idris. Quando terminarmos de trabalhar.

A frase saiu com uma naturalidade que só me fez perceber sua segunda interpretação depois de pronunciá-la.

Idris percebeu também.

O sorriso que surgiu em seu rosto foi lento, discreto e perigosamente bonito.

— Nesse caso, doutora Valença, espero que encontremos todas as respostas necessárias.

Senti minhas bochechas esquentarem.

— Seria muito conveniente para todos os envolvidos — respondi, tentando recuperar a seriedade.

Ele se afastou ligeiramente para me dar passagem.

Passei por ele sentindo um perfume amadeirado discreto, que me acompanhou até a porta da sala.

Não olhei para trás.

Seria uma péssima ideia.

Helena já estava sentada quando entrei. Paulo conversava com dois integrantes da equipe financeira, enquanto Nabil organizava os documentos que seriam apresentados.

Sentei-me, abri o computador e examinei a relação dos novos arquivos.

Dessa vez, havia registros de aprovação que não constavam nas versões anteriores.

Um deles chamou imediatamente minha atenção.

O documento fazia referência direta à conciliação financeira da Najma e trazia uma assinatura de validação.

Ampliei a imagem para conferir o nome.

Nabil Qassem.

Passei os olhos pelas datas, pelo código do documento e pela identificação do departamento responsável.

Era a primeira vez que encontrava um registro ligando diretamente o diretor de operações à aprovação daquele procedimento específico.

Isso não explicava a diferença entre os valores nem comprovava qualquer irregularidade.

Mas trazia uma informação que precisava ser esclarecida.

Ergui os olhos.

Nabil estava diante da tela, preparando-se para iniciar a apresentação.

Abri meu caderno numa página limpa e anotei a primeira pergunta que faria.

O que exatamente o senhor aprovou ao assinar este documento?

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