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3 — SHEIKH IDRIS

last update publish date: 2026-10-25 10:45:55

Idris Al-Harith

O nome da advogada brasileira chegou à minha mesa antes do café.

Minha assessora deixou a agenda do dia ao lado de dois relatórios de ocupação dos hotéis e de uma nota encaminhada pelo diretor de operações. No assunto, Nabil escreveu: “Questionamentos fora do escopo original”.

A palavra “fora” me incomodou. As pessoas costumavam usá-la quando não queriam lidar com alguma coisa.

Abri o memorando. O Fundo Atlântico tinha solicitado esclarecimentos sobre uma planilha de pagamentos da Najma Services, prestadora responsável por operações de lavanderia e limpeza em várias unidades do grupo.

Segundo Nabil, a consultora jurídica do investidor estava ampliando indevidamente a investigação e ameaçando atrasar negociações importantes.

— Qual é o nome dela? — perguntei à assessora, afastando o relatório que pretendia examinar primeiro.

— Júlia Valença. É uma advogada brasileira e integra a equipe responsável pela diligência do Fundo Atlântico. Foi ela quem encaminhou as perguntas que o senhor recebeu pela secretaria.

— E o que exatamente ela encontrou para justificar essa preocupação toda de Nabil?

— Uma divergência entre bases de dados. O departamento jurídico está preparando os esclarecimentos.

Levantei os olhos.

— Não perguntei quem está preparando a resposta. Quero entender o que ela encontrou e por que meu diretor de operações considera um problema responder às perguntas de alguém que está fazendo o trabalho para o qual foi contratada.

Minha assessora consultou as anotações.

— Existe um ajuste de trezentos e cinquenta dirhams em uma amostra de remuneração. A advogada pediu os documentos que comprovam a origem desse lançamento e a metodologia utilizada para classificá-lo.

Trezentos e cinquenta dirhams.

Era pouco dinheiro quando comparado aos contratos milionários que ocupavam minha mesa. Ainda assim, aquela diferença levantava uma questão que nenhuma apresentação elegante conseguiria responder sozinha: de onde tinha saído aquele valor?

Meu avô costumava dizer que a reputação de uma família era construída durante anos e podia ser destruída numa única tarde de imprudência.

Aisha, minha tia, discordava da parte mais importante dessa frase. Para ela, ninguém deveria agir corretamente apenas para proteger a própria reputação. A boa reputação precisava ser consequência das escolhas feitas, inclusive quando ninguém estava olhando.

Na prática, administrar um conglomerado exigia conciliar essas duas vozes enquanto acionistas cobravam resultados e diretores apresentavam números cuidadosamente organizados.

Nabil entrou no gabinete sem demonstrar pressa.

Aos cinquenta e três anos, carregava a segurança de quem ajudou a construir metade das operações do grupo e, por isso, às vezes parecia acreditar que tinha autorização permanente para decidir sozinho.

— Precisamos evitar ruídos desnecessários nessa negociação, Idris. A equipe brasileira está dando importância demais a uma questão administrativa que poderia ser esclarecida pelos departamentos envolvidos.

Olhei para ele.

— Bom dia, Nabil.

Ele ajeitou a postura, percebendo minha ironia.

— Bom dia. Como eu dizia, a advogada está tentando transformar uma reconciliação contábil em um questionamento trabalhista. Isso pode provocar um desgaste que não precisamos enfrentar agora.

— Existe uma reconciliação documentada que explique o lançamento?

— A Najma mantém seus próprios registros. Não administramos diretamente a folha de pagamento dos funcionários da prestadora.

Apoiei as costas na cadeira.

— Conheço o contrato, Nabil. Minha pergunta é outra. Se a diferença tem uma explicação contábil, quero saber se possuímos os documentos que sustentam essa explicação.

Ele puxou uma cadeira.

— A auditoria anual não identificou problemas materiais. Estamos falando de uma linha isolada dentro de um volume enorme de informações. A doutora Valença quer mobilizar três departamentos por causa de trezentos e cinquenta dirhams.

— Então esses três departamentos poderão apresentar a resposta com rapidez. Prefiro esclarecer uma diferença hoje a descobrir, daqui a seis meses, que ignoramos uma pergunta legítima porque consideramos o valor pequeno demais.

Nabil alisou a gravata.

— A pressão sobre essa operação está crescendo. Paulo Meirelles quer avançar, e o fundo sabe que pode perder a janela de investimento. Não considero prudente permitir que uma assessora externa comprometa o cronograma sem apresentar evidências de irregularidade.

— Paulo responde pelos interesses do fundo. Nós respondemos pela qualidade das informações que entregamos. E solicitar documentos não significa afirmar que existe uma irregularidade.

Nabil desviou o olhar.

Conhecia aquele homem havia tempo suficiente para distinguir uma discordância profissional de uma tentativa de encerrar um assunto antes de examiná-lo.

A equipe jurídica me encaminhou as perguntas de Júlia.

Li cada uma com atenção.

Eram precisas, técnicas e inconvenientes no melhor sentido possível. Ela não usava palavras acusatórias nem afirmava que alguém estava mentindo. Solicitava documentos, critérios de classificação e a metodologia utilizada para registrar uma compensação financeira.

Nada além do necessário para compreender a divergência.

— A doutora Valença está correta ao pedir a origem desse lançamento — concluí.

Nabil ergueu o rosto.

— Com todo o respeito, Idris, ela não conhece o funcionamento local. Algumas práticas administrativas podem parecer estranhas para alguém que trabalha com outra legislação.

— Isso pode limitar determinadas conclusões dela, mas não transforma uma pergunta legítima em algo inadequado. Se existe uma particularidade da legislação local, nossos advogados podem explicá-la. O que não podemos fazer é usar essa diferença como justificativa para deixar de apresentar documentos.

Ele respirou fundo.

— Vou orientar as equipes a preparar os esclarecimentos.

— Ótimo. E quero que todas as respostas sejam encaminhadas pelo canal oficial da diligência. Não precisamos criar versões diferentes de uma mesma informação.

Quando Nabil saiu, reservei vinte minutos para revisar a apresentação executiva.

No centro da mesa havia uma fotografia do último projeto inaugurado pela fundação dirigida por Aisha: uma biblioteca comunitária.

Minha tia escolheu pessoalmente aquela imagem e me proibiu de utilizá-la em qualquer apresentação que confundisse filantropia com prova de regularidade empresarial.

Aisha tinha um talento extraordinário para desmontar as desculpas mais confortáveis de um homem, principalmente quando esse homem era seu sobrinho.

Como se soubesse que eu estava pensando nela, meu telefone tocou.

— Soube que você vai receber investidores brasileiros hoje — anunciou, sem qualquer introdução.

Sorri.

— A informação chegou antes do convite para jantar?

— Informação útil sempre chega, Idris. E também ouvi falar de questionamentos sobre uma das prestadoras de serviços do grupo. Espero que esteja dando ao assunto a atenção necessária.

— Estamos esclarecendo os dados. Recebi o relatório esta manhã e já conversei com Nabil.

— Então faça questão de receber respostas verificáveis. Não quero descobrir pela imprensa que estamos utilizando fotografias dos projetos da fundação enquanto ignoramos possíveis problemas nas operações que financiam tudo isso.

Passei a mão pelo rosto.

— Você poderia começar uma conversa perguntando se almocei, por exemplo. Seria uma demonstração interessante de carinho familiar.

Ela soltou uma risada.

— Almoçou?

— Ainda não.

— Então trate de comer antes da reunião. E trate dessa documentação com a mesma seriedade que dedica aos contratos milionários. Uma coisa não deveria depender da outra.

— Mais alguma recomendação?

— Sim. Não confunda um diretor experiente com um homem incapaz de cometer erros. Nem presuma que uma pessoa está criando problemas apenas porque fez perguntas que ninguém queria responder.

Desligou antes que eu conseguisse discutir.

Ri sozinho.

Aisha era uma das poucas pessoas que me tratavam como alguém capaz de errar sem transformar isso num acontecimento histórico.

No caminho para a sala de reuniões, parei por alguns instantes diante da parede de vidro do corredor.

Dubai se estendia além das torres, com bairros residenciais, trânsito, pequenas lojas e uma cidade inteira que raramente aparecia nas fotografias distribuídas aos investidores.

O nosso grupo dependia de milhares de pessoas que também não apareciam nessas imagens.

Eu sabia disso. Mas começava a me perguntar se conhecia o suficiente sobre a realidade de quem sustentava nossas operações diariamente.

Quando entrei na sala, a apresentação já estava em andamento.

Paulo Meirelles ocupava uma das extremidades da mesa, acompanhado de dois analistas e da equipe jurídica. Nabil estava próximo à tela, organizando os indicadores operacionais.

Cumprimentei os presentes e caminhei até meu lugar.

Foi quando a vi.

À esquerda de Paulo estava uma mulher de blazer claro, cabelos presos e expressão atenta. Tinha o computador aberto diante de si e algumas anotações organizadas ao lado.

Não demonstrava qualquer esforço para chamar atenção.

Também não parecia disposta a se tornar invisível apenas porque estava cercada de homens acostumados a conduzir negociações milionárias.

— Sheikh Idris — Paulo anunciou, levantando-se. — Permita-me apresentar a doutora Júlia Valença, nossa assessora jurídica.

Ela se levantou e estendeu a mão.

— Obrigada pela disponibilidade, Sheikh Idris. Sei que sua agenda é bastante concorrida.

Apertei sua mão.

O cumprimento foi firme, acompanhado de um olhar direto e de uma expressão profissional que não parecia ter sido ensaiada para me impressionar.

— Agradeço a clareza das suas solicitações, doutora Valença. Examinei os pontos encaminhados ao meu gabinete e considero importante que nossa equipe tenha a oportunidade de esclarecê-los.

Vi uma surpresa discreta atravessar seus olhos.

Talvez esperasse resistência. Talvez apenas não imaginasse que eu tivesse dedicado tempo à leitura das perguntas.

— Fico satisfeita em saber disso. A clareza ajuda bastante quando a documentação disponibilizada não oferece todas as respostas necessárias.

Nabil mexeu nos papéis.

Paulo tossiu discretamente.

Júlia continuou tranquila, como se não tivesse provocado um desconforto perfeitamente perceptível entre os homens sentados à mesa.

Por um instante, esqueci a frase que preparei para abrir minha participação na reunião.

Não porque estivesse diante de uma mulher bonita, embora fosse impossível ignorar isso.

O que me chamou a atenção foi a naturalidade com que ela respondeu. Sem reverência exagerada, sem hostilidade e, principalmente, sem demonstrar qualquer necessidade de conquistar minha aprovação.

Eu estava acostumado a pessoas que escolhiam cuidadosamente cada palavra na minha presença. Algumas por respeito. Outras porque esperavam conseguir alguma coisa.

Júlia Valença parecia interessada apenas nas respostas.

— Nesse caso, espero que nossa conversa seja útil para preencher essas lacunas — respondi, indicando sua cadeira.

Ela voltou a se sentar.

Antes de olhar para o computador, sustentou meu olhar por mais um instante.

Havia inteligência naquela expressão. E uma segurança que despertou minha curiosidade muito mais do que qualquer tentativa de agradar poderia despertar.

Nabil retomou a apresentação dos indicadores.

Percebi que Júlia acompanhava os números enquanto mantinha uma das mãos próxima às anotações sobre a Najma Services.

Ela esperou o diretor concluir a explicação de um dos quadros. Em seguida, ajeitou a postura e olhou novamente para a tela.

Reconheci o momento em que decidiu fazer a primeira pergunta.

E tive a impressão de que aquela reunião seria muito mais interessante do que qualquer um dos meus diretores imaginava.

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