Mag-log inPOV: ALICERicardo escreveu outra vez, mas deixei o telefone sobre a mesa antes de descobrir o que pretendia fazer quando viesse me buscar. A fotografia continuava aberta no aparelho de Luca, e Konstantin, ainda vestido para o jantar que tinha interrompido, esperava uma resposta que eu já não conseguia oferecer.Ele tinha voltado. Eu precisava reconhecer isso. Também disse que Eva tentou beijá-lo e que ele não permitiu. Talvez fosse verdade, talvez a imagem tivesse sido escolhida justamente por mostrar o instante mais ambíguo de um cumprimento. Só que a discussão começou muito antes daquele carro. Passou pelo jantar marcado diante de mim, pela maneira como observou minhas mensagens com Ricardo e por todas as noites em que me fez esquecer, durante algumas horas, que continuava impedida de atravessar o portão.— Alice, podemos conversar em particular? — perguntou.Mikhail afastou discretamente uma cadeira, como se estivesse prestes a nos deixar sozinhos. Vi o gesto e senti um cansaço qu
POV: ALICERicardo Moretti.O nome dele permanecia na tela quando Konstantin pegou o telefone. Tinha a mão ferida apoiada na mesa e a outra apertava o aparelho enquanto chamava Mikhail ao escritório. Luca ampliou o registro da Vela Mercantile: não havia uma assinatura minha, mas Ricardo aparecia como representante autorizado de uma operação que eu tinha acabado de recusar.Eu conhecia aquele homem dos jantares de Vittorio, dos presentes de aniversário e de um concerto em que ele passou a noite tentando me fazer sorrir. Conhecia também o Ricardo que, semanas antes, pelo WhatsApp, admitiu desejar me beijar e imaginar uma vida comigo. Não conhecia o homem que podia aparecer num documento movimentando milhões em meu nome.— Vou perguntar o que significa — anunciei, pegando o telefone.Konstantin terminou a chamada e me encarou.— Primeiro precisamos saber que documento ele está usando.— E como pretende descobrir sem falar com ele?— Moretti sabe exatamente o que dizer para você baixar a
POV: ALICEÀs oito e trinta e sete, eu estava diante do closet, segurando uma calça preta numa mão e uma camisa branca na outra, tentando descobrir como se vestia uma herdeira que ainda precisava de ajuda para entender o próprio patrimônio.Minha referência mais próxima eram as executivas das reportagens econômicas, sempre impecáveis, com cabelos obedientes e expressões de quem jamais tinha precisado procurar um absorvente no fundo da bolsa cinco minutos antes de uma reunião importante. Eu tinha vinte anos, uma cólica persistente e havia passado parte da noite discutindo com um homem sobre a possibilidade de ele se casar com outra mulher. Minha preparação para o mundo corporativo estava excelente.Escolhi a calça, enfiei a camisa por dentro e prendi o cabelo ainda úmido num coque baixo. Ao encontrar meu reflexo, tentei imaginar o que Bianca diria se me visse. Provavelmente perguntaria se eu tinha conseguido um estágio ou decidido processar alguém.As duas hipóteses eram razoáveis.Kon
POV: KONSTANTINAlice levou menos tempo para chegar naquela noite.Não contei.O fato de ter percebido já era ruim o bastante.Quando ouvi a batida, fechei o relatório que estava lendo e abri a porta antes que ela repetisse. Alice estava exatamente como eu imaginava que estaria quando disse que ia dormir: camiseta larga, shorts curtos, óculos, cabelo preso de qualquer maneira e nenhuma tentativa de parecer outra coisa além de cansada.Foi provavelmente por isso que meu olhar demorou nas pernas.Ela percebeu.— Você veio — falei.— Eu disse que vinha.Abri espaço e Alice passou por mim, levando consigo o cheiro do sabonete e alguma coisa que já começava a reconhecer como dela. Quando avisou, antes mesmo de chegar à cama, que tinha ido apenas dormir, precisei conter a vontade de perguntar por que parecia considerar necessário esclarecer.— Entendido.Ela parou e olhou para mim.— Só isso?Voltei para a mesa para esconder o sorriso.— Você queria resistência?— Não. Só esperava mais arrog
POV: KONSTANTINAlice levou dezessete minutos para aparecer para um café de cinco.Eu contei, embora não tivesse nenhuma razão para isso. Também não tinha razão para passar parte daqueles dezessete minutos lembrando da boca dela dizendo eu quero você como se quatro palavras fossem capazes de alterar a estrutura de uma manhã inteira.Tinham sido.Tomei dois analgésicos, vesti uma camiseta porque minhas costelas já tinham recebido atenção suficiente e fui para a cozinha menor antes que ela chegasse. Era cedo demais para a casa estar completamente desperta, mas a parte de serviço já começava a ganhar vida. Ouvi louça ao longe, uma porta abrindo, passos atravessando o corredor e o ruído metálico de alguma coisa sendo colocada sobre uma bancada. Pela janela, a umidade ainda permanecia sobre o jardim.Pedi café e, quase sem pensar, pedi que deixassem leite na mesa.Só percebi o que tinha feito quando a jarra apareceu.Alice usava mais leite quando estava cansada. Não sabia exatamente quando
POV: ALICEA piscina estava vazia quando cheguei.A manhã ainda não tinha acordado completamente. Uma claridade pálida atravessava as janelas do anexo e alcançava a água sem força suficiente para aquecê-la, embora o sistema mantivesse a piscina numa temperatura agradável. Do lado de fora, o jardim parecia úmido de sereno. Ali dentro, havia apenas o ruído constante da circulação da água e aquele cheiro de cloro que eu conhecia bem demais.Parei junto à borda. Já tinha estado naquele lugar muitas vezes antes de saber. Antes de descobrir quanto Konstantin conseguia ver. Antes de entender que, numa das vezes em que eu nadara acreditando estar sozinha, ele tinha acompanhado meu corpo por uma tela enquanto outra mulher estava ajoelhada entre suas pernas.A lembrança ainda conseguia me irritar. Provavelmente continuaria conseguindo por muito tempo.Tirei a saída de banho e deixei junto da toalha. O biquíni preto tinha sido uma escolha bastante pragmática para uma mulher menstruada que preten







