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A Armadilha do Destino. O Acerto de Contas do CEO
A Armadilha do Destino. O Acerto de Contas do CEO
Autor: Tamires Ferreira

Capítulo 1

last update Data de publicação: 2026-05-08 08:34:33

"Estou cansada de você. Vamos terminar."

Seis anos atrás, Felícia Montes — a filha mais velha da tradicional família Montes — dispensou Mael Sarmento com essas palavras cortantes e foi embora sem olhar para trás. Naquela época, ele não tinha um centavo no bolso, e ela não via futuro algum ao lado de um homem sem perspectiva. Casou-se então com Lucas Jortan, filho do prefeito da cidade, convicta de que havia feito a escolha certa.

Enganou-se.

Seis anos depois, a família Montes havia falido. E Lucas Jortan, o homem que ela escolheu no lugar de Mael, havia revelado um monstro de terno e boa aparência. Felícia vivia em silêncio os horrores de um casamento abusivo, até que um dia decidiu que não aguentava mais. Queria o divórcio. E foi exatamente em seu momento mais vulnerável, mais pobre e mais sozinha, que o destino resolveu pregar uma peça cruel: colocou Mael Sarmento bem na sua frente.

---

A cafeteria tinha aquele cheiro aconchegante de café coado e baunilha que Felícia sempre gostou. Ela estava sentada perto da janela de vidro que ia do chão ao teto, com óculos escuros e um boné com a aba bem puxada para baixo, checando o celular a cada dois minutos.

Havia marcado uma consulta com seu advogado de divórcio, o Dr. Fábio Viana, mas o homem simplesmente não aparecia. Ela já estava prestes a ligar quando a porta da cafeteria se abriu.

Um homem entrou.

Alto, ombros largos, terno cinza de três peças, camisa preta aberta no colarinho com uma gravata listrada levemente afrouxada — o tipo de roupa que em outras pessoas parecia exagerada, mas nele ficava absolutamente natural. Ele carregava aquela aura de quem está acostumado a ser obedecido sem precisar levantar a voz.

As atendentes atrás do balcão pararam o que estavam fazendo. Uma delas até deixou o pano de secar xícaras cair no chão sem perceber. Não era para menos: um rosto assim, com aquela estrutura óssea forte e aqueles traços afiados, você encontra em novela, não numa cafeteria de bairro numa terça-feira de manhã.

Felícia ficou paralisada.

Porque ela conhecia aquele rosto.

Muito bem.

Era Mael Sarmento. Seu primeiro amor. Seu ex-namorado. O homem que ela havia dispensado com aquelas palavras que, ao longo dos anos, nunca saíram completamente da sua cabeça.

---

Seis anos haviam passado, mas ele parecia uma pessoa inteiramente diferente — e ao mesmo tempo, inconfundivelmente ele.

Na memória de Felícia, Mael sempre usava camisas de linho branco, tinha um jeito tranquilo e gentil, aquele tipo de pessoa que parecia um vizinho de confiança, o amigo que todos querem ter por perto. O homem que estava à sua frente agora não era mais esse garoto. Seus traços tinham amadurecido de um jeito que ela não esperava — mais rudes, mais marcados, mais bonitos de uma forma que desarmava e intimidava ao mesmo tempo. E o olhar... o olhar havia mudado completamente. Era frio. Calculista. Como o de um caçador que já avistou a presa e está apenas esperando o momento certo.

O coração de Felícia disparou dentro do peito.

Ela baixou ainda mais a aba do boné, rezando mentalmente para que ele não a reconhecesse. No dia anterior, Lucas havia chegado em casa embriagado e ela saíra daquele episódio com o rosto marcado de hematomas. Os óculos escuros escondiam o estrago, mas não eram perfeitos. Ela não queria que Mael a visse assim — destruída, humilhada, exatamente o oposto da mulher orgulhosa que um dia o dispensou como se ele fosse descartável.

"Se ele precisar se lembrar de mim", pensou ela, "que seja daquela versão: a Felícia arrogante que foi embora. Não é essa aqui."

Mas o destino não estava com o menor humor para piedade naquele dia.

Mael caminhou direto até a mesa dela, puxou a cadeira da frente e sentou-se com uma naturalidade irritante, como se estivesse fazendo a coisa mais óbvia do mundo.

— Desculpa o atraso — disse ele, com a voz mais grave do que ela lembrava. — Trânsito na Paulista estava um caos.

Felícia piscou.

"O quê?"

Ela olhou para os lados, depois para ele, tentando entender se havia algum engano absurdo acontecendo ali.

— Senhor — ela abaixou o queixo, forçando a voz para um tom mais neutro, diferente do natural. — Acho que o senhor se confundiu. Esse lugar está reservado. A pessoa com quem eu marquei chega a qualquer momento.

— Felícia. — Ele pediu um café ao garçom com um gesto discreto, sem nem olhar para ela enquanto falava. — Para de fingir. Te reconheceria em qualquer lugar.

Ela congelou.

Felícia.

Fazia quanto tempo que ninguém a chamava pelo nome com aquele peso? Não pelo sobrenome da família Jortan, não por "esposa do Lucas", não pelos apelidos que Lucas usava quando estava com raiva. Só... Felícia. Simples assim. Do jeito que Mael sempre pronunciou, com uma leveza que contradizia completamente a frieza que ele exibia agora.

Ela se forçou a não derreter.

— Eu não sou quem o senhor pensa que é — insistiu ela.

— O Dr. Fábio não vai aparecer — disse Mael, ignorando a encenação completamente. Girou a xícara que o garçom havia trazido e por fim a encarou. — Eu vou cuidar do seu processo de divórcio.

Felícia ergueu a cabeça de um salto.

— Como assim? Eu marquei com o Fábio Viana! A gente confirmou ontem à noite!

— Agora você finalmente me olhou nos olhos.

Ela percebeu tarde demais que havia caído na armadilha.

Por trás das lentes dos óculos escuros, os olhos de Mael eram calmos e profundos, absolutamente impossíveis de decifrar. Ele irradiava aquela autoridade silenciosa de quem não precisa gritar para ser levado a sério.

Felícia engoliu em seco e voltou ao assunto:

— Por que o Fábio não vai aparecer?

— Porque ele cometeu diversas irregularidades éticas ao longo da carreira — respondeu Mael, com o mesmo tom neutro de quem comenta o tempo. — A OAB suspendeu a licença dele esta manhã.

Felícia ficou olhando para ele por dois segundos.

— Ontem à noite ele estava bem. Hoje de manhã, suspenderam a licença dele. — Ela baixou a voz, mas o tom era carregado. — Mael, você fez isso de propósito.

Ele inclinou levemente a cabeça, como se a acusação fosse uma curiosidade interessante.

— Por que eu faria isso? Para ter o prazer de te ver?

— Exatamente — ela disse, firme.

— Felícia. — Ele quase sorriu, mas não chegou a sorrir. — Você acha que eu ainda tenho algum sentimento por você?

A pergunta caiu no ar entre os dois como um copo quebrado no chão de uma sala silenciosa.

Ela sabia a resposta. Não era ilusão sua achar que ele a odiava — era a leitura mais honesta que ela conseguia fazer da situação. E nenhum homem que preza a própria dignidade guarda carinho por uma mulher que o descartou do jeito que ela descartou Mael.

— Não era isso que eu quis dizer.

— Então, o que você quis dizer?

— Quis dizer que você pode ter feito isso só para me ver passar vergonha.

Mael ficou em silêncio por um momento. Então, com uma calma que era quase mais cruel do que qualquer explosão seria:

— Pelo menos você tem alguma autoconsciência.

Ele havia confirmado. Sem rodeios, sem eufemismos. Tinha vindo para ver exatamente isso.

Felícia sentiu uma fisgada funda no peito — não de surpresa, porque ela já esperava por isso, mas do tipo de dor que acontece quando algo que você sabia de cabeça finalmente chega aos sentimentos.

Nos seis anos desde que se casou com Lucas Jortan, ela havia sido moída aos poucos. As brigas constantes, a frieza dos sogros, a falência da família Montes, a indiferença crescente do marido que havia se transformado em violência. O orgulho que um dia definiu a Felícia Montes foi sendo lixado pela realidade, camada por camada. Havia muita gente que queria vê-la cair. Mas se existia alguém que tinha o direito legítimo de assistir à queda dela, esse alguém era Mael Sarmento.

Ela respirou fundo.

"Tudo bem. Se é isso que ele veio buscar..."

Felícia tirou os óculos escuros devagar. Depois, soltou o boné e o colocou na mesa.

O rosto apareceu por inteiro — os hematomas roxos e amarelados no maxilar, o corte pequeno acima da sobrancelha, a exaustão dos olhos de uma mulher que havia dormido pouco e chorado muito.

— Já que você veio me ver pagar mico — ela disse, com uma voz que ainda carregava um fio de altivez que se recusava a morrer —, então pode olhar à vontade.

---

Mael Sarmento olhou para ela.

E pela primeira vez naquela manhã, sua expressão mudou.

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