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Capítulo 2

last update Data de publicação: 2026-05-08 08:39:55

Felícia saiu da cafeteria com as pernas bambas.

Precisou segurar na maçaneta da porta por um segundo antes de dar o primeiro passo na calçada, como se o chão pudesse não estar mais lá onde ela esperava. Respirou fundo o ar quente da tarde e começou a andar sem pressa, tentando organizar o que havia acabado de acontecer.

Durante todos esses seis anos, o nome Mael Sarmento havia ficado guardado num canto do seu coração que ela mesma fingia não saber onde ficava. A separação tinha sido dolorosa demais para ser revisitada, então ela simplesmente não visitava. Seguiu em frente. Casou-se. Tentou construir uma vida. E por algum tempo, funcionou — pelo menos na superfície.

Mas ver Mael assim, de repente, sem aviso, sem tempo de se preparar emocionalmente, havia mexido com ela de um jeito que ela não esperava. Ela se sentiu completamente desarmada, e Felícia Montes detestava se sentir desarmada.

O celular vibrou no bolso. Ela atendeu sem nem olhar o número.

— Mãe, quando você volta? — A voz fininha e doce de Clara do outro lado da linha foi como um copo de água fria num dia de calorão. Imediata. Reconfortante.

Felícia fechou os olhos por um segundo e deixou a voz da filha aterrissar nela.

— Já estou indo, meu bem. Já estou indo.

---

A casa onde Felícia estava se abrigando ficava num condomínio tranquilo no bairro da Vila Carioca — o endereço da sua melhor amiga, Renata Souza. Uma casa simples, mas aconchegante, com vasos de plantas na varanda e o cheiro permanente de café fresco que Renata não conseguia viver sem.

Na noite anterior, depois que Lucas Jortan chegou em casa bêbado e a agrediu, ele havia desaparecido sem deixar rastro. Felícia tentou acionar a polícia, mas Lucas simplesmente não era localizável — e ela conhecia bem o suficiente a família Jortan para saber que isso não era coincidência. Com medo de que ele voltasse, ela havia pegado Clara no colo, colocado as coisas mais essenciais numa mochila e saído pela madrugada, ligando para Renata do táxi.

Renata havia atendido no segundo toque, sem fazer perguntas desnecessárias.

— Vem. A chave está embaixo do tapete.

Depois que a família Montes faliu, a maioria das pessoas que Felícia chamava de amigas havia sumido com elegância discreta — uma mensagem aqui, um "me chama se precisar de algo" ali, e depois nada mais. Renata era a exceção. Continuou exatamente igual, como se o sobrenome da família Montes não tivesse perdido nenhum valor.

---

Assim que a porta se abriu, Clara veio correndo pelo corredor com os braços abertos.

— Mãe!

— Meu amor! — Felícia se agachou para recebê-la, prestes a dar um beijo na testa da menina.

Mas parou.

Ficou olhando para o rostinho de Clara com uma estranheza que nunca havia sentido antes.

Clara tinha cinco anos, cabelos cacheados escuros, pele clara e aqueles olhos levemente amendoados que todo mundo sempre dizia que eram igualzinho aos de Felícia. A família inteira repetia isso desde que a menina nasceu: "É a cópia da mãe."E Felícia sempre acreditou, sem questionar.

Mas agora, depois de ter ficado sentada do outro lado de uma mesa olhando para Mael Sarmento por quase trinta minutos...

A linha do maxilar. A forma dos olhos. A expressão séria que Clara fazia quando estava concentrada.

"Meu Deus."

— Mãe, o que foi? — Clara inclinou a cabeça, curiosa com o silêncio.

— Nada, nada. — Felícia piscou e abraçou a filha com força, escondendo o rosto no cabelo dela por um momento a mais do que o necessário. — A mamãe só sentiu saudade. A Clara se comportou bem com a tia Rê?

— Muito bem! — respondeu Clara, com o orgulho de quem tem um relatório impecável. — Eu até reguei as plantinhas dela.

— Reguei mesmo — confirmou Renata, aparecendo pela porta do corredor com uma toalha ainda na cabeça e uma xícara de café na mão. Olhou para Felícia com os olhos de quem quer fazer perguntas, mas está esperando a hora certa. — Então, Fê. O que o advogado disse?

Felícia fez um sinal discreto com os olhos. Espera.

Levou Clara até o quarto, instalou-a confortavelmente na cama com aquele livro de atividades que a menina adorava — um daqueles cheios de labirintos, figurinhas e personagens para colorir. Clara conseguia passar uma hora inteira entretida sozinha com aquele negócio.

— Fica aqui um pouquinho, meu bem. Mamãe vai conversar com a tia Rê rapidinho e já vem te ver. Tá?

— Tá bom — Clara já estava debruçada sobre o livro antes mesmo de terminar a frase.

---

Na sala, Renata havia colocado uma fruteira na mesa de centro e estava sentada no sofá com as pernas cruzadas, esperando. Felícia se jogou ao lado dela e, num fôlego só, contou tudo: o advogado que não apareceu, Mael entrando pela porta da cafeteria, a conversa inteira que não deveria ter acontecido.

Renata ouviu tudo sem interromper. Quando Felícia terminou, ficou quieta por uns três segundos — e então:

— Pera aí. Você está me dizendo que Mael Sarmento vai cuidar do seu divórcio? "Esse" Mael? O Mael que você deixou?

— Ao que parece.

— Felícia. — Renata pegou o celular e começou a digitar alguma coisa. — Você sabe quem é Mael Sarmento hoje em dia?

— Ele é advogado —

— Ele é o CEO do escritório Sarmento & Vaz Internacional. — Renata virou a tela do celular para ela. Era uma entrevista numa revista de negócios, foto de página inteira, Mael de terno olhando para a câmera como se a câmera tivesse pedido licença antes de fotografá-lo. — Você já ouviu falar nesse escritório?

Felícia olhou para a foto por mais tempo do que deveria.

— O nome é familiar.

— Familiar? Fê, esse escritório tem mais de trinta filiais espalhadas pelo mundo, mais de dois mil advogados na folha de pagamento e fatura mais de um bilhão de dólares por ano. O Mael que você deixou pra se casar com o Lucas é hoje um dos advogados mais poderosos e influentes do país.

Felícia ficou em silêncio, olhando para a foto.

O menino de camisa de linho branco que um dia a olhava como se fosse a coisa mais importante que ele havia encontrado na vida agora olhava para uma câmera de revista de negócios com a autoridade tranquila de quem não precisa provar nada para ninguém.

"A roda gira", ela pensou. "E girou mesmo."

— Ele ainda está obcecado por você? — perguntou Renata, com aquele jeito direto que era a marca da sua amizade.

— Claro que não. Ele mesmo disse que veio só para me ver passar vergonha.

— Ah, para. Você realmente acha que um homem com a agenda e o nível que ele tem hoje vai perder uma manhã inteira só para assistir a um constrangimento? — Renata abriu um sorriso lateral. — Se ele não tivesse mais nada guardado no coração...

— Rê. — Felícia cortou antes que a frase fosse longe demais. — Eu sou casada. Tenho uma filha. Ele pode ter qualquer mulher que queira com a vida que construiu. Por que no mundo ele ainda teria algum sentimento por mim?

Renata ficou quieta por um momento.

Depois disse, num tom mais gentil:

— Fê, eu sempre quis te perguntar uma coisa. Você claramente gostava muito do Mael. Você foi atrás dele, você correu atrás por muito tempo até ele finalmente abrir o coração. E aí, do nada, você terminou tudo e foi se casar com o Lucas. — Ela pausou. — O que aconteceu de verdade naquela época?

O silêncio de Felícia foi a resposta mais completa que ela conseguiu dar.

Havia coisas que ela ainda não estava pronta para dizer em voz alta. Talvez nunca estivesse.

— Tudo bem — disse Renata, percebendo. Não forçou. Nunca forçava. — Não precisa falar. Então me diz: o que você vai fazer agora?

Felícia respirou fundo e olhou para frente, com aquele fio de determinação que a realidade ainda não havia conseguido arrancar dela completamente.

— Preciso encontrar outro advogado. — Ela disse com firmeza. — Esse divórcio vai acontecer. Custe o que custar.

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