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CAPÍTULO 2 – O ENCONTRO

Auteur: Joss Austen
last update Date de publication: 2026-06-02 19:37:50

VALENTINA

Eu não parei.

Meus olhos estavam borrados pelas primeiras lágrimas que finalmente explodiram. Entrei no primeiro táxi que vi, sem nem pensar. O motorista, um homem de meia-idade, me olhou pelo retrovisor.

— Para onde, moça?

Chorei cobrindo a boca com as mãos trêmulas.

— Sem destino… Quero apenas sair daqui, por favor.

Ele hesitou por um segundo, mas ligou o carro. Eu não podia ir muito longe. No fim, mal teria dinheiro para pagar a corrida.

E enquanto ele dirigia, eu me lembrava que o dia inteiro pareceu ter conspirado contra mim.

O despertador que não tocou. Cheguei atrasada no trabalho e recebi uma advertência. Foi tanto trabalho que acabei perdendo a hora de ir para a faculdade, corri tanto que quase fui atropelada. Cheguei ofegante, suada, pronta para encarar mais três horas de aula — e aí, o que aconteceu?

A turma foi dispensada. O professor teve um acidente. Ninguém avisou no grupo.

Um verdadeiro dia de merda.

A única coisa boa que me esperava era o cinema que eu havia combinado com o Theo, isso porque hoje estaríamos completando três meses juntos e eu queria comemorar.

Que idiota que fui.

No portão de saída da faculdade, minha amiga Ana apareceu ao meu lado.

— Podiam ter avisado pelo grupo, né?

— Podiam — respondi, já andando em direção à saída. — Mas não avisaram. Pois preferem nos ver perder tempo e dinheiro.

— Você vai voltar pra casa agora?

— Não tenho dúvidas. Tô cansada pra caralho. Mas pelo menos vou encontrar o Theo mais tarde. Isso é a única coisa boa desse dia.

Ana hesitou.

— A Isabela não apareceu hoje, sabia? Tinha aula de Administração mais cedo, mas ela não veio.

Parei no meio do saguão. Algo apertou meu peito.

— Ela não me disse nada.

— Estranho. Ela quase nunca falta.

— É verdade… , mas vou saber o que aconteceu quando chegar.

Agora, eu sabia. Todo esse tempo, os malditos estavam rindo da minha cara enquanto roubavam o meu projeto.

Olhei pelo vidro embaçado do carro. As ruas de São Paulo passavam como um borrão de luzes colorida molhado pela chuva fina. Eu soluçava sem controle, o peito doendo tanto que mal conseguia respirar.

A cena de ambos trasansando em cima da minha cama, era um maldito e nojento loop que não saiam da minha mente.

Nos dois nunca tínhamos transado, quando eu o conheci ainda era virgem. No começo ele insistiu e eu quase cedi, mas nunca fizemos. Não era simplesmente por pudor. Era porque por algum motivo, eu ainda não me achava confiante para fazer amor com ele. Ele ainda insistiu um tempo mas, depois parou de insistir e eu idiota nem perguntei porque. E agora tudo fazia sentido: ele estava saciando suas vontades com minha melhor amiga o tempo todo.

— Seu filho da puta… — murmurei entre soluços, batendo o punho no banco do carro.

Tudo tinha sido mentira. Os beijos, as promessas, os planos. Eu me sentia suja, traída, estúpida. A dor era tão grande que eu queria desaparecer.

Em determinado momento, vi as luzes de um bar. Pedi ao taxista para parar.

— Aqui está bom.

Paguei com as últimas notas que tinha na carteira e desci. O letreiro neon azul brilhava na noite: Lumina Lounge. Um lugar chique que eu nunca teria coragem de entrar em outro momento. Mas hoje eu precisava beber. Precisava apagar aquela imagem da minha cabeça, mesmo que por algumas horas.

Limpei o rosto molhado com as mãos, respirei fundo e entrei.

O ambiente era sofisticado: luz baixa, jazz suave tocando ao fundo, cheiro de whisky e perfume caro. Eu me sentia deslocada com meu jeans simples e blusa da faculdade, mas não me importei. Sentei no balcão.

— O que vai beber? — perguntou o barman.

— Algo forte, por favor.

Ele serviu uma bebida que disse se chamar Moscow Mule. Eu nunca havia bebido na vida. O primeiro gole desceu ardido, e eu tossi. O segundo desceu melhor. O terceiro trouxe um calor anestesiante que se espalhou pelo peito.

As lágrimas voltavam em ondas. Eu as secava com raiva.

Pedi o segundo drink. O álcool começava a suavizar a dor, transformando a humilhação em algo distante, quase suportável.

— Você parece que precisa esquecer o mundo inteiro hoje — disse uma voz grave e aveludada ao meu lado.

Virei o rosto e encontrei os olhos azuis mais intensos que já vi na vida. Um homem alto, pele morena dourada, cabelo escuro ligeiramente bagunçado, barba bem aparada. Devia ter uns 27 ou 28 anos. A camisa preta justa marcava o corpo definido. Havia algo nele… perigoso e atraente ao mesmo tempo.

— Talvez eu precise mesmo — murmurei.

Ele sorriu de canto, um sorriso lento e charmoso.

— Leon — disse, estendendo a mão grande e quente.

— Valentina — respondi, sentindo um arrepio quando nossos dedos se tocaram.

— Valentina… Nome bonito. Forte. Combina com você.

Senti o rosto esquentar. O álcool estava me dando uma coragem que eu não conhecia.

— E você, Leon? Sempre chega assim, do nada, para salvar garotas destruídas em bares?

Ele riu baixo, um som rouco que vibrou no meu peito.

— Só quando elas têm olhos como os seus. Olhos que parecem carregar o peso do mundo, mas ainda brilham. — Ele se inclinou um pouco mais perto, o cheiro dele — madeira, especiarias e algo masculino — me envolveu. — O que aconteceu para uma garota como você precisar beber sozinha num lugar como este?

Hesitei. Mas o álcool e a dor soltaram minha língua.

— Traição. Da pior forma possível. Meu namorado… com minha melhor amiga. Na minha cama.

Leon me olhou em silêncio por um momento, sério. Depois passou o dedo lentamente pela borda do copo.

— Alguns homens não sabem o que têm nas mãos. São cegos. — Seus olhos desceram por um segundo até minha boca antes de voltarem para os meus. — Mas eu não sou cego, Valentina.

A conversa fluiu fácil, quase natural. Leon era charmoso sem esforço. Falava pouco de si, mas cada palavra parecia carregada de mistério. Disse que viajava muito, que gostava de observar pessoas, que sabia reconhecer alguém que precisava ser vista de verdade. Cada vez que ele sorria de canto ou baixava a voz, eu sentia um calor diferente no corpo.

Pela primeira vez naquela noite, Theo saiu da minha cabeça.

Quando ele se inclinou devagar e me beijou, eu não recuei. O beijo começou suave, explorando, mas rapidamente ficou profundo, urgente, faminto. Sua mão segurou minha nuca com firmeza, mas sem forçar. Era como se ele soubesse exatamente o que fazer.

— Vem comigo — sussurrou contra minha boca, a voz rouca.

E eu fui.

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