LOGINELEONORA noite começou como todas as outras. Eu estava na cozinha, dando ordens à Felícia, a governanta antiga e fiel da mansão, que estava comigo há mais de vinte anos.— Felícia, prepare o jantar para hoje à noite. Meus filhos vão chegar. Quero algo especial. Assado, talvez. E o vinho que o Pedro gosta.— Sim, senhora Eleonor — ela respondeu, com a cabeça baixa. — Vou providenciar tudo.Felícia sabia mais sobre a minha família do que qualquer outra pessoa. Ela estava lá quando os meus filhos eram crianças, quando o pai deles morreu, quando tudo começou a desmoronar. Eu confiava nela mais do que em qualquer outra pessoa. E ela sabia disso.Horas depois, Isadora e Pedro chegaram para o jantar. Como sempre, a mesa foi um inferno. Os dois discutiam antes mesmo de se sentarem.— Você é um idiota, Pedro! — Isadora gritou, jogando o guardanapo na mesa. — Como você pôde investir naquele mercado chinês sem pesquisar direito? Agora estamos nessa situação!— Eu estava tentando ajudar, Isadora
VALENTINA O peito ficou apertado a manhã inteira. Desde que Leon saiu para falar com a avó de Anya, eu não conseguia me concentrar em nada. Tentei me distrair, brinquei com Benjamin, ajudei Laura na cozinha, mas nada funcionava. A preocupação me consumia. Foi quando Benjamin se aproximou e abraçou minha barriga. Ele estava cada vez mais fascinado com a ideia de ser irmão mais velho. — Irmãzinha, você pode se mexer? — ele sussurrou, com a testinha colada na minha barriga. Senti um movimento. O bebê chutou. Benjamin arregalou os olhos. — Ela mexeu! Ela mexeu! — ele gritou, animado. — Oi, irmãzinha, aqui é o seu irmão mais velho. Vou cuidar de você para sempre, tá bom? Ninguém vai te machucar enquanto eu estiver por perto. Eu ri, sentindo o coração derreter. Aquele menino era um presente. Laura, que estava passando perto, parou para observar a cena. Sorriu, com os olhos marejados. — Se for uma menina, eu nem quero pensar no pai e no irmão super protetores que ela terá — ela disse
LEON Suspirei pesadamente e disse: — Nos primeiros momentos, ela falava sobre usar a avó de Anya para recorrer à cláusula do testamento. Dizia que, como a avó de Anya era sentimental, ia fazer exatamente o que ela queria. E se não funcionasse, ela tinha outros planos. Ela queria que você pagasse por ter roubado o que ela acredita ser dela. — Ou seja, você — Valentina falou entre dentes. — Não somente eu, mas tudo o que eu represento: poder e dinheiro. Em um dos áudios, ela falava claramente com o Pedro sobre a empresa deles. Dizia que a empresa estava em frangalhos, que precisavam do meu dinheiro. Se eu não voltasse para ela, perderiam tudo. Foi aí que eu percebi que todo esse tempo foi só por dinheiro. Ela nunca me amou. Aliás, agora eu sei que nunca amou ninguém, na verdade. — Ela é uma cobra, Leon. Sempre foi. Assenti, me preparando para contar a Valentina que aquilo nem de longe era o pior que descobri sobre Isadora. Então continuei: — Sim. Tanto que a maldita ameaçou você,
LEON Quando chegamos à delegacia, eu e Rafael, com as provas contra Isadora nas mãos, eu tinha certeza de que o delegado ficaria chocado com as gravações. E ele ficou. Mas o que me deu raiva foi que, ao invés de agir imediatamente, ele começou a fazer perguntas idiotas sobre como conseguimos aquelas gravações. Como se a origem da prova importasse mais do que o crime em si. Senti a raiva subir como lava. A culpa, a impotência, a dor de saber que a mulher que eu deixei entrar na minha vida, na vida do meu filho, era uma assassina — tudo isso me cegava. Eu estava à beira de cometer uma bobagem diante das perguntas daquele delegado. Se não fosse Rafael, que me segurou pelo braço e falou em meu lugar, eu teria explodido ali mesmo. — Delegado — Rafael disse, a voz calma mas com um tom de ameaça velada —, entendo que o senhor precisa seguir os procedimentos. Mas estamos falando de uma assassina. E se o senhor não agir agora, ela vai fugir. E aí, a imprensa vai adorar saber que a polícia d
RAFAELNo exato momento em que Leon ouviu o áudio, percebi que algo quebrou dentro dele. Não era raiva — era algo mais profundo, mais perigoso. Uma fúria fria que fazia os olhos azuis dele ficarem escuros, como um animal prestes a atacar. Ele já estava quase na porta, os punhos cerrados, a respiração pesada.— Vou acabar com ela, Rafael. Vou fazer essa desgraçada pagar por tudo.Ele falou entre dentes, e eu sabia que ele não estava brincando. Conhecia meu irmão o suficiente para saber quando ele estava prestes a fazer uma besteira. E aquela era uma das piores.Antes que ele pudesse sair, segurei o braço dele com força.— Leon, para.— Tira a mão de mim, Rafael.— Não vou tirar. Você precisa se acalmar para poder agir.Ele tentou se soltar, mas eu apertei mais forte.— Você não entende, porra! Ela dormiu na minha cama, criou o meu filho, e agora descobri que foi ela que...— Eu entendo! — gritei de volta. — Eu entendo mais do que você imagina. Mas se você sair daqui agora, de cabeça qu
LEONA avó de Anya me recebeu com a expressão severa, e não esperou nem eu pôr os pés direito dentro do seu escritório. Ela já foi logo dizendo:— Ainda bem que veio, Leon.Ela era uma senhora de rosto enrugado, pequena de estatura, com a aparência frágil, mas os olhos azuis como os de Anya brilhavam com uma intensidade que denunciava sua força. Os cabelos grisalhos estavam perfeitamente presos em um coque elegante, e cada movimento seu transmitia orgulho e determinação. Era difícil não sentir o peso da presença dela.— Bem, eu tinha que vir. Você praticamente me obrigou, não? — respondi, tentando manter a calma. — Por qual motivo, senhora Montreal?Sem paciência, ela jogou logo a bomba:— Preciso que você entenda: vou fazer de tudo para que a vontade da minha neta seja cumprida o quanto antes. Ainda mais agora que sei que você realmente pretende levar essa história de casamento com a babá a sério, ao invés de casar com Isadora. Vou usar a cláusula de Anya para isso.Eu soltei um sorr







