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CAPÍTULO 4 - O JANTAR

ผู้เขียน: Fernanda santos
last update วันที่เผยแพร่: 2026-08-29 02:52:39

O relógio da cozinha marcava oito horas da noite e a chuva caía forte em São Paulo.

— Eu não janto com funcionários — Thiago disse seco, da porta da cozinha, na cadeira de rodas. Ele tinha tomado banho, estava de moletom preto e cheirava a perfume caro.

Sara tinha acabado de fazer uma panela grande de sopa de legumes com frango, bem temperada, do jeito que aprendeu com a avó. E tinha colocado dois pratos fundos na mesa enorme de mármore da cozinha, com duas colheres, dois copos de suco e um pão francês quentinho.

— O senhor não vai jantar com funcionária — ela respondeu, sem se abalar, puxando a cadeira para ele chegar mais perto da mesa. — O senhor vai jantar com a única alma viva que está nessa mansão de 20 milhões com o senhor numa noite de sexta-feira chuvosa, fria e solitária. Ou o senhor prefere jantar sozinho de novo olhando para a parede, comendo aquela comida sem graça da dieta do hospital que a cozinheira deixa pronta?

Thiago ficou em silêncio. Ele olhou para a sopa fumegante, cheirosa, com cheiro de casa de verdade. Fazia quase dois anos que ele não comia comida feita na hora. Desde o acidente, ele só comia comida de dieta, sem sal, sem gosto, que a nutricionista mandava. Comida de doente.

— Eu não como sopa de legumes — ele mentiu, mas o estômago dele roncou alto.

— Que coincidência, eu também não gostava até hoje — Sara mentiu de volta e sorriu. — Mas fiz porque é bom para a sua recuperação e porque está frio. Senta, Fera. Só hoje. Prometo que amanhã eu janto no meu quartinho e deixo o senhor sozinho com seu mau humor.

Ele bufou, mas manobrou a cadeira e se aproximou da mesa. Ele pegou a colher com a mão forte e provou um pouco da sopa, desconfiado.

No segundo que a sopa quente tocou a boca dele, os olhos dele se arregalaram. Estava deliciosa. Caseira. Temperada. Com gosto de amor, de cuidado.

— Está... boa — ele admitiu, baixo, quase sem querer admitir.

— Eu sei — ela disse, sentando na frente dele com a própria sopa. — Minha avó me ensinou. Ela dizia que sopa cura tristeza.

Eles comeram em silêncio por alguns minutos. Só o barulho da chuva lá fora e das colheres nos pratos.

— Por que você virou enfermeira, Sara? — ele perguntou de repente, sem olhar para ela, olhando para a sopa. — Com essa sua língua afiada, você poderia ser advogada e ganhar muito mais que 5 mil.

Sara parou de comer. O sorriso dela sumiu por um segundo e deu lugar a uma dor antiga.

— Porque minha mãe morreu no corredor do SUS esperando atendimento quando eu tinha 16 anos — ela disse, simples, com a voz baixa, mas sem chorar. — Ela teve um infarto e ficou 8 horas numa maca no corredor porque não tinha médico. Ela morreu sozinha, com frio, chamando meu nome. E eu estava lá e não pude fazer nada. Eu prometi para ela, no dia do enterro, que ninguém nunca mais ia se sentir sozinho e com frio numa cama de hospital enquanto eu estivesse por perto.

O silêncio tomou conta da cozinha. Thiago parou de comer na hora. Ele olhou para ela de verdade, pela primeira vez desde que ela chegou. Sem raiva, sem armadura de CEO grosso, sem a máscara de Fera.

Ele viu uma menina de 24 anos que tinha sofrido muito mais que ele, mas que ainda tinha um coração enorme e quente.

— Desculpa — ele disse. Baixo. Sincero. — Eu não sabia.

Foi a primeira vez em dois anos que o CEO mais temido e mais grosso de São Paulo pediu desculpas para alguém dentro daquela mansão.

Sara sentiu os olhos marejarem, mas segurou.

— Tudo bem — ela disse, voltando a sorrir. — Agora o senhor já sabe por que eu não desisto de paciente difícil. Porque eu já perdi uma paciente que eu amava muito.

Thiago ficou olhando para ela por um tempo longo.

— Você pode... ficar mais um pouco? Depois do jantar? Aqui na sala? É que... faz tempo que eu não converso com ninguém sem ser sobre negócios — ele pediu, quase sem jeito, como um menino.

Sara sorriu, um sorriso largo e verdadeiro.

— Só se o senhor prometer que vai comer toda a sopa e tomar todos os dez remédios sem reclamar.

— Prometo — ele disse, e pela primeira vez em dois anos, ele sorriu de verdade também. Um sorriso pequeno, torto, mas verdadeiro.

— Então eu fico — ela disse. — Come a sopa que esfria, Fera.

E naquela noite chuvosa, pela primeira vez, a mansão fria de 20 milhões não pareceu mais tão fria e tão vazia.

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