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CAPÍTULO 5 - O TOQUE QUEIMA

last update publish date: 2026-09-01 08:50:33

Sara não se mexeu.

A colher dele ainda estava suspensa no ar, a poucos centímetros da boca dela. E os olhos dele não estavam mais frios.

— Eu não sou criança pra você dar comida na boca, senhor Thiago.

— Eu sei. — A voz dele saiu rouca. — Crianças não me olham desse jeito.

O coração de Sara disparou. Ela desviou o olhar e pegou a colher da mão dele, os dedos roçando de leve. Foi só um segundo, mas foi o suficiente para os dois sentirem um choque.

Ela tomou a sopa rápido, só para quebrar aquele silêncio pesado.

— Satisfeito?

Thiago se recostou na cadeira e cruzou os braços. Aquele terno caro, aquele relógio que devia valer mais que um ano do salário dela, e ali estava ele, num refeitório simples de empregados, comendo sopa de legumes.

— Por que você veio trabalhar aqui, Sara?

— Porque eu precisava do emprego.

— Você tem faculdade de pedagogia. Poderia estar em uma escola particular ganhando três vezes mais. Por que na minha casa? Cuidando de uma criança que nem é sua e de um homem que todo mundo diz que é um fera?

Sara levantou da mesa e começou a guardar as louças, de costas para ele.

— Porque aqui a Lara precisa de mim. E criança que precisa da gente, a gente não abandona.

Thiago se levantou devagar. Quando ficou atrás dela, Sara sentiu o perfume dele, amadeirado, caro.

— E eu? Eu preciso de você?

Ela prendeu a respiração.

— O senhor tem tudo, senhor Thiago. Não precisa de ninguém.

Ele chegou mais perto.

— Você me chama de Fera quando acha que eu não estou ouvindo.

O sangue de Sara gelou.

— Eu...

— Ouvi você falando com a Lara ontem à noite. "Vamos deixar o Fera dormir". — Ele deu um meio sorriso. — Eu gostei.

Ela finalmente se virou. Ficou presa entre a pia e ele.

— Não era por mal...

— Eu sei. — Ele levantou a mão e pegou uma mecha de cabelo dela que tinha caído e colocou atrás da orelha. O toque dos dedos dele na pele dela foi como fogo. — Ninguém nunca teve coragem de me dar apelido.

— Amanhã a Lara tem apresentação na escola. 9h da manhã. Você vai com ela.

— O senhor vai?

— Eu tenho uma reunião em São Paulo. Muito importante.

— Claro. Reunião. Entendi. A Lara vai entender também, ela sempre entende quando o pai não vai.

Thiago parou na porta da cozinha.

— Você me acha um péssimo pai, não acha, Sara?

— Eu acho que a Lara te espera na janela todo dia, senhor. E isso responde sua pergunta.

Ele ficou em silêncio por um longo tempo.

— Boa noite, Sara.

— Boa noite, Fera.

Dessa vez ela disse olhando nos olhos dele.

Quando ele saiu, Sara teve que se segurar na pia porque as pernas estavam bambas.

Lá em cima, Thiago tirou o celular do bolso e discou.

— Cancele minha ida para São Paulo amanhã. Remarque tudo. Eu vou na apresentação da minha filha.

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