ANMELDENSoraia esperou alguns minutos antes de sair do quarto. Permaneceu diante da janela, em silêncio, observando o jardim através da fresta da cortina. Lá embaixo, Marilua havia voltado para a manta. Felícia mostrava o desenho para ela, enquanto Thomas e Jennifer discutiam sobre qual dos dois havia feito o melhor céu. Soraia apertou os lábios. Ela havia sido a pessoa atrás daquela cortina. Não tinha intenção de ser descoberta. Quando vira Marilua se aproximar da janela, afastara-se imediatamente e fechara o tecido. Não queria que ninguém soubesse que estava observando. Muito menos Marilua. Mas agora havia algo que chamava sua atenção. Máximo. O irmão de Grego estava conversando com Marilua. E, pelo que conseguia perceber à distância, os dois já se conheciam. Soraia franziu a testa. — Eles já se conheciam? Aquilo mudava algumas coisas. Não sabia exatamente como. Mas mudava. Ela havia passado os últimos dias acreditando que Marilua era simplesmente um obstáculo. A antiga b
Marilua apoiou o lápis azul ao lado do desenho e se levantou com cuidado.Felícia nem percebeu seu movimento.Continuava completamente concentrada na rosa vermelha que ganhava forma sob seus dedos pequenos. A ponta da língua aparecia discretamente entre os lábios, como acontecia sempre que ela queria fazer algo com perfeição.— Já volto, está bem? — Marilua avisou.Felícia apenas acenou com a cabeça.Marilua seguiu pelo caminho de pedras que cortava o jardim.A sensação de estar sendo observada ainda permanecia.Não era exatamente medo.Era uma inquietação.Desde que havia retornado à mansão, percebera que algumas coisas estavam diferentes. Havia olhares que antes não existiam, silêncios que pareciam esconder conversas e uma tensão que ela ainda não conseguia explicar.Ao chegar mais perto da ala lateral da mansão, ergueu os olhos para a janela do segundo andar.A cortina continuava imóvel.Como se nada tivesse acontecido.Marilua estreitou os olhos.O vidro refletia a luz do sol e di
Os preparativos para a festa de Felícia estavam a todo vapor. Dentro da mansão, funcionários circulavam de um lado para o outro, levando caixas, ajustando os últimos detalhes da decoração e organizando tudo para que a comemoração fosse perfeita. Marilua, porém, percebeu que Felícia começava a ficar cansada de tanta movimentação. Thomas e Jennifer também estavam inquietos. Foi então que ela teve uma ideia. — Que tal irmos para o jardim? Felícia levantou os olhos imediatamente. — Podemos? — Podemos. Vocês levam os lápis de cor e os desenhos. Thomas foi o primeiro a se levantar. — Eu vou! Jennifer pegou uma pequena caixa de lápis. — Eu também. Poucos minutos depois, os quatro estavam no jardim. Marilua estendeu uma manta sobre a grama, debaixo da sombra de uma árvore. A fonte no centro do jardim produzia um som suave e contínuo, misturando-se ao canto dos pássaros e ao farfalhar das folhas. Era diferente do interior da mansão. Ali havia espaço. Ar. Silêncio. Marilua se
O café da manhã daquela manhã parecia diferente de todos os outros. Talvez fosse porque a casa estava cheia. Ou porque, pela primeira vez em muitos dias, Felícia estava exatamente onde queria estar. Sentada à mesa, ela não conseguia ficar quieta. — Thomas, você vai ficar até depois da minha festa, não vai? O garoto assentiu enquanto passava manteiga em um pedaço de pão. — Vou. Meu pai disse que podemos ficar até amanhã. — E você, Jennifer? A menina sorriu. — Eu também. Felícia bateu palmas baixinho. — Então vai ser perfeito! Grego estava sentado na cabeceira da mesa, observando a filha com um sorriso discreto. À sua direita, Felícia falava sem parar com os gêmeos. Nina circulava pela cozinha, verificando se tudo estava pronto. Marilua estava próxima à bancada, ajudando a organizar algumas coisas. Ela ainda não tinha se acostumado completamente com a sensação de estar novamente naquela casa. De vez em quando, seu olhar encontrava o de Grego. E, sempre que isso aconteci
A manhã chegou tranquila à mansão Aslan. Marilua acordou antes mesmo que o despertador tocasse. Por alguns segundos, ficou deitada, olhando para o teto, tentando se acostumar novamente com aquele quarto. Havia algo estranho em voltar para um lugar que, ao mesmo tempo, parecia familiar e distante. Ela havia passado noites naquele quarto, acordado cedo para cuidar de Felícia, estudado até tarde quando conseguia alguns minutos de silêncio e adormecido pensando nas responsabilidades do dia seguinte. Agora estava ali outra vez. Mas tudo parecia diferente. Talvez porque ela também estivesse diferente. Marilua se levantou, arrumou os cabelos e vestiu uma roupa simples e confortável. Antes de sair do quarto, olhou para a própria imagem no espelho. — Hoje é o aniversário dela — murmurou. Um sorriso pequeno apareceu em seus lábios. Felícia. Era por ela que havia escolhido voltar. Ao descer as escadas, encontrou Nina na cozinha. A governanta já estava ocupada, passando o café. O aro
A madrugada havia tomado conta da pequena cidade. As ruas estavam quase vazias, iluminadas apenas pela luz amarelada dos postes e por algumas placas de estabelecimentos que permaneciam abertas durante a noite. Davi saiu da casa de apostas com os ombros pesados. Parou na calçada e passou a mão pelo rosto. O ar frio da madrugada bateu contra sua pele, mas não conseguiu aliviar a sensação de sufoco que carregava no peito. Ele havia perdido novamente. Não queria pensar naquilo. Já tinha problemas demais. A dívida havia crescido muito além do que imaginara quando começou a apostar. No início, parecia simples. Uma aposta aqui. Outra ali. Depois vieram as tentativas de recuperar o dinheiro perdido. Quanto mais perdia, mais apostava. E quanto mais apostava, maior ficava o buraco. Agora não sabia mais como sair. Davi colocou as mãos nos bolsos e começou a caminhar. Precisava chegar em casa antes que Marilua percebesse que ele havia saído novamente. Ela já tinha problemas dema







