LOGINA porta do escritório estava entreaberta. Laura estava limpando ali quando viu uma folha caída próximo à escrivaninha. Era uma carta amarelada, dobrada com cuidado. A curiosidade falou mais alto. Ela abriu.
"Lucas, se você está lendo isso, é porque já passou tempo suficiente para que eu não esteja mais aí. Não quero que guarde apenas a dor. Quero que, ao menos por um instante, se lembre de como era o nosso amor quando tudo era simples. Cuide das crianças. E cuide de si. Você merece paz, mesmo que ache que não. Com amor, Helena."
— Laura, você não tem limites! — a voz de Lucas cortou o ar da mansão com uma força que fez os ossos de Laura tremerem. Ela ficou paralisada, os olhos arregalados de surpresa e medo.
As palavras atravessaram Laura como um vento frio. Foi nesse instante que ela ouviu o estalo da porta sendo empurrada. Lucas estava ali, parado, olhando a carta em suas mãos.
— O que você pensava que estava fazendo, Laura? — ele avançou, a fúria estampada no rosto. — Invadir o meu escritório e mexer nas minhas coisas?
— Eu... estava limpando... e vi no chão... — ela gaguejou, tentando achar as palavras, mas seu rosto já denunciava o medo.
— Limpando? E decidiu ler uma carta que claramente não era sua? — ele arrancou o papel das mãos dela. — Isso é inaceitável!
Laura deu um passo para trás. — Me desculpe. Eu juro que não foi por mal. Eu só... fiquei curiosa.
— Curiosa? — ele riu com desprezo. — Você não trabalha aqui para alimentar curiosidades. Trabalha para cuidar das crianças. E depois de hoje, nem isso mais.
— O quê? — ela mal conseguiu respirar. — O senhor está me demitindo?
— É claro que estou! — Lucas gritou. — Pegue suas coisas e vá embora agora mesmo.
— Por favor, não! Eu preciso desse trabalho! — Laura implorou, os olhos marejados. — Minha mãe está doente, meu irmão depende de mim... Eu não sabia que era algo tão pessoal. Eu nunca teria aberto se... se...
— Se tivesse um pingo de respeito — ele cortou.
Mas, antes que pudesse dizer mais, um choro agudo cortou o silêncio tenso. Logo depois, outro. Sofia e Theo haviam acordado com os gritos. Laura, instintivamente, correu até o quarto das crianças. Lucas ficou parado por um momento, os punhos cerrados.
Dentro do quarto, ela abraçou Sofia, sussurrando palavras suaves, enquanto acariciava os cabelos de Theo. Os dois se acalmaram pouco a pouco sob o cuidado dela.
Lucas apareceu à porta, agora mais calmo. A visão de Laura ali, protegendo seus filhos, pareceu desmontá-lo. A raiva deu lugar ao peso do arrependimento. Ele suspirou, apoiando-se no batente.
— Eu exagerei — disse, a voz mais baixa. — Você não deveria ter lido, mas eu não devia ter gritado daquele jeito. Não na frente deles.
Laura não disse nada. Apenas continuou balançando Sofia nos braços, sentindo as lágrimas escorrerem silenciosamente.
— Pode ficar — ele disse, enfim. — Pelo bem deles. Mas... não volte a mexer no que não lhe diz respeito.
Ela assentiu, sem olhar para ele. Seu coração ainda batia rápido, ainda doía. Mas uma parte dela sabia que, de algum modo, isso ainda não tinha acabado.
Laura ficou em silêncio. O que ele estava tentando dizer? Ela queria entender, mas não sabia se deveria dar ouvidos àquelas palavras. Ele estava jogando a responsabilidade sobre ela, como se estivesse querendo que ela entendesse as suas frustrações, mas, ao mesmo tempo, sentia-se culpada por algo que nem sabia ao certo.antes que pudesse refletir sobre o que ela acabara de viver com Lucas, um som vindo do corredor a fez se virar rapidamente.
Era um barulho suave, mas inconfundível: uma porta fechando com força. O que estaria acontecendo agora?Um Novo ComeçoO sol brilhava suavemente naquela manhã especial.A mansão estava decorada com flores brancas e azuis, mesas elegantes espalhadas pelo jardim e arranjos delicados que davam ao ambiente uma sensação de paz e renovação.Era o dia do batizado do bebê.Um dia que simbolizava muito mais do que uma cerimônia religiosa.Era a celebração de tudo o que aquela família havia sobrevivido.De tudo o que havia sido perdido.E de tudo o que havia sido reconstruído.Os primeiros convidados começaram a chegar ainda cedo.A mãe de Laura chegou emocionada, apoiando-se no braço de Davi.Ao ver a filha, abriu os braços imediatamente.— Minha menina...Laura sorriu e a abraçou com carinho.— Mãe.— Você está linda.Davi observou a cena e balançou a cabeça.— Incrível como você continua sendo a irmã chata que me obrigava a arrumar o quarto.Laura deu uma risada.— E você continua sendo o irmão bagunceiro.Os dois se abraçaram.Durante anos haviam enfrentado dificuldades juntos.Agora finalmen
O escritório estava mergulhado em silêncio.A única iluminação vinha do abajur sobre a mesa, lançando uma luz suave sobre o envelope envelhecido.Lucas permanecia imóvel.Os dedos repousavam sobre o papel há vários minutos.Ele tinha enfrentado tribunais, mentiras, traições e perdas.Mas naquele momento, abrir aquela carta parecia mais difícil do que qualquer outra coisa.Laura permaneceu ao seu lado, sem pressioná-lo.Apenas segurando sua mão.Quando finalmente encontrou coragem, Lucas rompeu o lacre.Dentro havia apenas algumas folhas dobradas.A letra era inconfundível.Seu coração apertou imediatamente.Ele começou a ler."Meu querido Lucas,Se você está lendo esta carta, significa que eu não consegui dizer tudo o que gostaria pessoalmente. E isso me entristece mais do que consigo colocar em palavras.Antes de qualquer coisa, quero que saiba que você foi o grande amor da minha vida. Não apenas porque me fez feliz, mas porque me fez sentir amada todos os dias. Você foi meu melhor a
A carta anônima permaneceu sobre a mesa da sala durante o resto da tarde.Lucas a havia lido várias vezes, mas as palavras continuavam causando o mesmo efeito."Vocês acreditam que a história acabou. Estão errados. Ainda existe uma verdade que ninguém conhece."Laura observava o marido do outro lado da sala.Desde que a mensagem chegara, ele parecia distante.Pensativo.E ela entendia o motivo.Durante anos, Lucas viveu cercado por mentiras. Era natural que qualquer novo mistério o colocasse em alerta.O bebê dormia tranquilamente em seus braços quando ela se aproximou.— Você está pensando nisso de novo.Lucas levantou os olhos.— Estou tentando entender quem enviaria uma mensagem dessas.— Talvez seja apenas alguém querendo chamar atenção.— Talvez.Mas nem ele parecia acreditar nisso.Na manhã seguinte, o telefone tocou logo cedo.Lucas atendeu sem imaginar que aquela ligação mudaria completamente o rumo das coisas.— Senhor Lucas?— Sim.— Meu nome é Helena Martins. Eu era amiga d
Os dias passaram com uma tranquilidade que há muito tempo não existia na mansão.Pela primeira vez em anos, não havia ameaças, investigações ou escândalos rondando a família. Apenas a rotina simples de uma casa cheia de amor, risadas de crianças e o choro ocasional de um bebê recém-nascido.E foi justamente observando essa rotina que Cecília tomou sua decisão.Numa manhã ensolarada, ela estava sentada na varanda quando viu Laura caminhando pelo jardim com o bebê nos braços. Theo corria atrás de uma bola, enquanto Sofia insistia em mostrar à madrasta as flores que havia colhido.Mais adiante, Lucas observava tudo com um sorriso tranquilo.Cecília permaneceu em silêncio.Aquela cena respondia todas as perguntas que ela vinha fazendo a si mesma nas últimas semanas.Seu filho era feliz.Os netos eram felizes.E Laura... bem, Laura fazia parte daquela felicidade.Talvez ela nunca se tornasse a mulher que Cecília havia imaginado para Lucas.Mas era a mulher que ele havia escolhido.E estava
Na manhã seguinte, a mansão despertou em um ritmo mais tranquilo.O bebê havia passado uma noite relativamente calma, o que para Laura já era uma pequena vitória.Depois de colocá-lo para dormir novamente, ela desceu para a sala, onde Theo e Sofia já a esperavam.— Laura! — Sofia correu até ela. — Você prometeu que ia brincar comigo hoje!— E comigo também! — Theo protestou. — Você prometeu me ajudar a terminar o castelo que começamos.Laura riu.— Então acho que vou ter que fazer os dois.As crianças comemoraram imediatamente.Sentada em uma poltrona próxima, Cecília observava a cena em silêncio.Ela havia decidido ficar alguns dias a mais na mansão, embora Lucas ainda estivesse claramente irritado com sua postura em relação a Laura.Naquele momento, porém, ela apenas assistia.Laura passou a manhã inteira dividida entre os três pequenos.Ajudou Theo a montar o castelo de blocos.Participou de uma festa do chá improvisada por Sofia.Correu para acudir o bebê quando ele começou a chor
Duas semanas haviam se passado desde o nascimento do bebê.A mansão estava mais movimentada do que nunca. Entre mamadeiras, trocas de fraldas e noites mal dormidas, Laura ainda se recuperava do parto. Apesar do cansaço, ela estava feliz. Ver Lucas tão dedicado aos filhos e ao bebê só fazia seu amor por ele crescer.Naquela manhã, porém, a tranquilidade da casa foi interrompida.Um carro preto parou diante da mansão.Lucas estava na sala com Theo e Sofia quando ouviu o som do veículo.Ao olhar pela janela, congelou.— Não acredito...Laura percebeu a mudança em sua expressão.— O que aconteceu?Antes que ele pudesse responder, a porta principal se abriu.Uma mulher elegante, de postura impecável e olhar crítico entrou na mansão como se fosse dona do lugar.— Finalmente estou de volta.Laura reconheceu imediatamente quem era.A mãe de Lucas.Dona Cecília.Cecília abriu os braços para o filho.— Lucas!Ele a abraçou, mas sem muito entusiasmo.— Mãe... você não avisou que estava voltando.







