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Zion Black Wolf
Eu sei que sou um erro. Todos sabem.
Sou o fruto de um casal de Alfas que já tinha tudo, incluindo um filho perfeito para quem queriam dar amor e um futuro brilhante. Mas a natureza me pregou uma peça cruela. Eu nunca escolhi nada e nunca tive a chance de controlar o ritmo da minha própria vida. Isso acabou resultando em uma transformação prematura.
Meu lobo surgiu cedo demais, quando eu ainda era apenas um garoto. E com essa transformação repentina, veio o amadurecimento forçado do meu corpo e da minha alma.
Não foi uma escolha; simplesmente aconteceu. E quando me vi sufocado e decepcionado por não conseguir controlar a fera dentro de mim — que parecia ser a mais selvagem e perigosa de toda a matilha —, tomei a única decisão que me parecia lógica: abandonar tudo e todos.
Foi uma atitude covarde, eu sei. Mas eu não vi outra saída a não ser recuar. Eu não podia machucar meus pais no meio de um surto de raiva, e muito menos queria ferir o meu irmão mais velho. Por isso, eu fugi.
Passei anos vivendo mais como bicho do que como homem, deixando a fera dominar e caminhar sem rumo pelas florestas mais isoladas.
Lembro até hoje do dia em que o meu lobo finalmente cansou de controlar o nosso corpo e deu espaço para a minha consciência voltar. Emergi de uma escuridão que parecia não ter fim, pisando em terra fria. Quando olhei para baixo, me dei conta de que estava nu, parado em frente a uma cabana rústica no meio de uma floresta densa. O cheiro de um Alfa desconhecido impregnava o ar, colocando meus sentidos em alerta máximo.
Um rosnado alto cortou o silêncio. Um macho de pelagem clara surgiu entre as árvores, com olhos atentos e dominantes.
— Perdão por invadir seu território... — murmurei com a garganta seca, sentindo meu lobo arranhar o peito, querendo arrumar briga.
O outro macho farejou o ar e, em questão de segundos, retraiu as garras e assumiu a forma humana.
— O que você quer por aqui? — perguntou ele, o tom rígido.
— Nada... Eu realmente não sei por que o meu lobo me trouxe até aqui — falei a verdade. Não havia motivos para mentir.
O Alfa cruzou os braços, semicerrando os olhos enquanto me analisava.
— Sinto cheiro de ódio e sangue em você, rapaz. Quer arrumar encrenca?
— Não. Eu só... perdi o controle — desabafei, sentindo o cansaço esmagar meus ossos.
— Você é jovem. Quantos anos tem?
— Dezesseis.
Ele ergueu uma sobrancelha e deu uma risada curta, sem acreditar.
— Acha que sou bobo, garoto? Seu corpo é de um guerreiro feito.
— Estou falando a verdade — respondi, tentando conter a dor de cabeça que surgia. — Meu lobo despertou cedo demais. Eu não consigo controlá-lo... Ele é quem me controla.
Aguardei o ataque. Se fosse qualquer outro Alfa defendendo seu território, ele teria partido para cima de mim para me subjugar. Mas aquele homem apenas suspirou, relaxando os ombros.
— Seu lobo não vai achar conflito aqui. Não perco meu tempo lutando contra jovens perdidos — disse ele, dando as costas e caminhando para a cabana. — Vem. Tem carne fresca no fogo.
— Está me convidando para comer? — perguntei, surpreso.
Ele se virou, olhando de canto de olho.
— Não está com fome?
E foi naquele dia que conheci James. O único homem que não me olhou como um monstro sem controle, mas sim como um igual que precisava de chão.
Dez anos depois...
Olhei para o céu noturno através da janela com grades de ferro trabalhado. A lua cheia iluminava o quarto luxuoso — e totalmente trancado por magia —, onde eu estava mantido como prisioneiro nas últimas semanas.
O coven das bruxas era um lugar belo, silencioso e completamente mortal.
O cheiro de ervas secas, terra molhada e aquela energia mágica sufocante preenchia o ar, fazendo os pelos dos meus braços se arrepiarem. Meu lobo andava de um lado para o outro na minha mente, arranhando as paredes do meu peito, furioso por estar preso em uma gaiola invisível de feitiços.
Mas o que mais me irritava não era a cela de pedra ou o isolamento. Era o fato de que a dona daquela prisão era a única pessoa no mundo capaz de fazer a minha fera rosnar e, ao mesmo tempo, calar a sua raiva.
O som suave de passos ecoou pelo corredor de pedra do santuário. A porta de madeira pesada se abriu sem fazer barulho, e a luz das velas revelou a figura baixa, mas imponente, que caminhava na minha direção.
Catarina.
Ela vestia um túnica escura e trazia nos olhos pretos aquele brilho debochado e perigoso que eu aprendi a odiar e desejar ao mesmo tempo.
— Ainda tentando quebrar as minhas barreiras mágicas com o olhar, lobinho? — provocou ela, com a voz suave ecoando pelas paredes. — Você devia saber que a força bruta do seu sangue de Alfa não funciona contra a minha feitiçaria.
Voltei-me para ela, dando dois passos lentos até a borda do feitiço que nos separava.
— Você disse que eu ficaria aqui até que o seu "assunto" comigo estivesse resolvido, Catarina — falei, a voz grave e baixa. — Já se passaram semanas. Quanto tempo mais vai me manter preso neste coven?
Ela deu um passo à frente, parando a centímetros da linha de energia no chão. Ela inclinou a cabeça, olhando diretamente no fundo dos meus olhos, sem demonstrar um único pingo de medo do lobo selvagem que vivia dentro de mim.
— O tempo que eu achar necessário, Zion — sussurrou ela, com um sorriso enigmático surgindo nos lábios. — Até que você entenda por que o seu lobo escolheu me seguir em vez de fugir.
Olhei para ela, completamente confuso e perdido. Eu não desejava ficar preso feito um animal, mas sentindo o cheiro dela, tudo parecia bem menos pior do que realmente estava.
ZionO ar no quarto da Anciã estava pesado demais. O cheiro de podridão e magia negra me incomodava, mas o que realmente fazia meu lobo rosnar em alerta era o comportamento de Selene. Aquela bruxa exalava algo errado.Quando Catarina se debruçou sobre a cama para tentar estabilizar a respiração de Matilde, aproveitei a confusão e a atenção de todos voltada para a velha senhora. Selene usou o caos para se esgueirar de volta para o corredor, caminhando em silêncio como uma sombra.Eu não pensei duas vezes. Dei meia-volta e a segui.Meus passos eram silenciosos no piso de madeira. Acompanhei o rastro dela até o final do corredor escuro, perto da entrada que levava ao porão do casarão. A tempestade lá fora ainda batia forte contra as paredes, cobrindo qualquer ruído menor.Selene parou diante de uma pequena luminária de ferro na parede. Olhei bem para o rosto dela e notei algo muito estranho, os olhos de Selene estavam opacos, com um tom esverdeado esquisito, quase sem vida. Não parecia a
ZionO som da porta do quarto de Catarina se fechando com a chave foi como uma facada no meu peito. Fiquei parado no corredor por alguns segundos, ouvindo o silêncio pesado que vinha lá de dentro. Meu lobo arranhava a minha mente, rosnando de frustração por ser afastado da nossa companheira. Mas eu sabia que ficar ali implorando não mudaria a cabeça teimosa dela.Virei as costas e desci os degraus de madeira do casarão.Lá fora, a tempestade tinha desabado de vez. O vento uivava forte contra as janelas, e trovões altos faziam as paredes de pedra tremerem. Sem a barreira de proteção de Catarina para nos esconder, o coven estava totalmente exposto. O cheiro de chuva forte se misturava com o odor úmido de terra, mas havia algo mais no ar.As bruxas mais novas estavam encolhidas no salão principal. Lulu tentava acalmar Maya, enquanto Selene observava tudo do canto, perto da lareira apagada, com os braços cruzados e o mesmo olhar indecifrável de sempre.— A barreira caiu, não foi? — pergun
CatarinaHaviam algumas ervas em cima de um lençol de seda branco, e duas velas acesas, uma de cada lado do meu corpo.A noite estava silenciosa, e o único barulho que eu ouvia eram dos grilos na floresta.Obviamente, todas as bruxas do coven estavam do lado de dentro, espiando pela janela enquanto eu, ajoelhada no chão em frente ao casarão do coven recitava algumas palavras antigas.A base das palavras de poder vem do grego, que é uma língua extremamente antiga.Confesso que com meus quatrocentos anos já não falo tão bem quanto falava antigamente.Quando Matilde veio ao coven, há quase cem anos atrás, eu havia decidido que não aguentaria mais tudo sozinha, e que faria dela a minha pupila, e daria a ela uma fração do meu poder e meus ensinamentos.Porém, agora me sinto doente, e Matilde logo desaparecerá da terra, deixando-me sozinha.Infelizmente nenhuma das bruxas do coven tem capacidade para me ajudar a sustentar as barreiras, pois a nova geração nasceu muito fraca e pobre de menta
CatarinaO ar dentro do casarão parecia ter virado chumbo. O peso no meu peito não vinha apenas da ameaça que rondava a floresta ou da traição que tínhamos descoberto no porão, mas sim do silêncio doloroso que vinha do quarto da Anciã Matilde.A bruxa que eu havia visto ainda criança, que eu havia ensinado as lições principais da magia agora estava indo embora, estava gravemente doente pela idade. Ela não conseguia mais se levantar da cama. A pele do rosto dela, antes cheia de rugas serenas, estava pálida como cera fria, e a respiração saía curta, arranhada, ecoando pelo corredor do andar térreo.Caminhei até a janela do meu quarto e puxei as cortinas. O céu lá fora estava carregado, tomado por nuvens escuras que prometiam uma tempestade forte. Mas não era o clima comum que me assustava, era o tremor na magia.Sem a força vital de Matilde para sustentar a estrutura espiritual da casa, as nossas proteções ancestrais começaram a rachar porque por mais que eu fosse a mais velha, a mais f
ZionO vento da tarde trouxe um cheiro que fez o meu sangue ferver na mesma hora. Não era o aroma de terra molhada ou o perfume de lavanda de Catarina. Era o cheiro de pelos molhados, suor de corrida e o odor inconfundível da minha antiga linhagem.Lobos. E não era apenas um.Parei no meio do pátio de entrada do casarão, com o corpo ficando rígido no mesmo segundo. O meu lobo no peito levantou as orelhas, rosnando baixinho com uma fúria contida. Olhei na direção da grande cerca de madeira que delimitava a propriedade do coven e vi as sombras se aproximando por entre as árvores.Ethan, o meu irmão de sangue, liderava o pequeno grupo. Ao lado dele vinham três batedores da matilha, homens fortes, de passos pesados e com os olhos atentos a cada movimento da floresta. Eles já tinham ultrapassado a linha da fronteira e avançavam direto para a porta principal da casa.— O que eles pensam que estão fazendo? — rosnei irritado, com a raiva subindo pela minha garganta como um fogo vivo.Eu estav
CatarinaO cheiro de podridão daquela árvore não saía da minha mente. Depois de destruir a marca de corrupção com a minha magia, voltei para o casarão em silêncio. A viagem de volta nas costas de Zion tinha sido rápida, mas a sensação do corpo maciço dele abaixo do meu e a ideia de uma ameaça invisível rondando nossa casa deixaram meus nervos à flor da pele.Sentei-me no meu escritório, no andar de cima, encarando o velho mapa de couro estendido sobre a mesa de madeira tão antiga quanto eu.A história das bruxas era marcada pelo sangue. Desde os tempos de Salém, quando dezenas de nós foram queimadas e caçadas como feras, aprendemos que a sobrevivência dependia da união. Havia outros covens espalhados por terras distantes, verdadeiras irmandades que se ajudavam em segredo. Nós nos tratávamos como irmãs de sangue. Mas a verdade crua, que poucas queriam admitir, é que a ambição e a inveja nunca sumiram do nosso meio.A magia de corrupção que vimos na floresta não conseguiria se fixar na







