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16 - O Labirinto

last update Data de publicação: 2026-01-31 22:08:57

O cheiro do Departamento de Música à noite era uma mistura de poeira antiga, verniz de violoncelo e o fantasma de todas as melodias que já haviam sido tocadas ali. Era um cheiro que eu conhecia melhor do que o perfume da minha própria mãe. Mas, naquela madrugada, o corredor que antes era meu santuário parecia a garganta de um monstro. As luzes de emergência emitiam um brilho amarelado e doentio, projetando sombras longas que dançavam nas portas das cabines como figuras acusadoras.

Theo segu
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  • A Canção do Amor    20 - A Frequência do Destino

    Paraty, Rio de Janeiro. Dez anos depois. O som das ondas batendo suavemente no cais de pedra da cidade velha era o único metrônomo de que eu precisava agora. O ar aqui era diferente — denso, com cheiro de mar e de flores de primavera que teimavam em nascer entre as frestas das calçadas coloniais. Eu caminhava devagar, sentindo o peso familiar e reconfortante da sacola de lona no meu ombro. Dentro dela, não havia mais documentos secretos ou microfilmes. Apenas pão fresco, algumas frutas e um caderno de partituras novo.Eu já não usava mais o cardigã cinza. No seu lugar, um vestido de algodão leve, de um azul que lembrava o mar calmo. Minha postura não era mais a de quem pedia desculpas por existir; eu ocupava o meu espaço com uma calma que levei uma década para construir. Para os moradores da vila, eu era apenas a "professora Clara", a mulher reservada que dava aulas de piano para as crianças da comunidade e que vivia em um sítio escondido entre as montanhas e o oceano.Subi a tril

  • A Canção do Amor    19 - O Silêncio das Dunas

    O navio de suprimentos cortava as águas do Atlântico como uma lâmina cega, gemendo sob o peso do seu próprio abandono. Theo e eu estávamos na cabine de comando, iluminados apenas pelo brilho verde e fantasmagórico dos radares. Ele manobrava o leme com as mãos trêmulas; a força que ele usara para quebrar o vidro do tanque na ilha parecia ter sido a última reserva de energia do seu corpo.— Estamos perto, Clara. O GPS indica que o litoral do Rio Grande do Norte está a menos de dez milhas — ele disse, a voz soando como se tivesse sido lixada por dentro.Olhei para o pequeno monitor de vigilância. O alvo vermelho intermitente sobre o nosso navio ainda estava lá. Quem quer que estivesse nos rastreando, não tinha pressa. Era a calma de um predador que sabe que a presa não tem para onde correr.— Theo, o alvo… ele parou de piscar — notei, sentindo um frio súbito.No segundo seguinte, o motor do navio tossiu uma fumaça negra e morreu. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas

  • A Canção do Amor    18 - A Sinfonia do Caos

    A escuridão não era total. Era uma névoa cinzenta e pulsante, onde cada pensamento meu parecia ecoar contra as paredes da minha própria mente antes de se perder. O dispositivo na minha têmpora emitia um zumbido constante, uma frequência que tentava reorganizar as minhas memórias, transformando o meu amor por Theo em ruído e as ordens de Horácio em melodia pura.Abri os olhos com dificuldade. Eu não estava mais no quarto luxuoso. Estava num auditório circular, no subsolo da ilha. O teto era uma cúpula de vidro que mostrava a base da piscina oceânica, onde cardumes de peixes passavam, alheios ao horror abaixo deles. Eu estava presa a uma cadeira de metal frio, bem no centro de uma plataforma elevada. À minha frente, um piano de cauda negro brilhava sob os holofotes.— Clara? — A voz era um sussurro, mas não vinha de Theo.Virei a cabeça milímetro por milímetro. Sentada num banco lateral, com as mãos atadas, estava Beatriz. Mas não era a Beatriz altiva e fria que eu conhecia. Ela est

  • A Canção do Amor    17 - Harmonia

    O sol que batia contra as paredes de vidro daquele quarto não parecia real. Era uma luz branca, cirúrgica, que não aquecia a pele, mas parecia atravessar os poros para expor cada segredo guardado. Eu estava parada na varanda, sentindo o cheiro da maresia se misturar ao perfume doce demais das flores exóticas que brotavam entre as fendas do mármore. Olhei para baixo, para o pátio onde centenas de jovens caminhavam em um transe coreografado, e senti um calafrio que nem o calor do meio-dia conseguia dissipar.— Clara? — A voz de Theo veio de trás de mim, carregada de um sono pesado e confuso.Virei-me e o vi sentado na beirada da cama imensa. Ele parecia um deus caído. O cabelo loiro estava bagunçado e os olhos azuis, antes tão focados, agora pareciam perdidos em uma névoa. Ele esfregou o rosto com as mãos grandes, as mesmas mãos que tinham me segurado no escuro das cabines, e soltou um suspiro que quebrou meu coração.— Onde… onde a gente está? — ele perguntou, a voz rouca.— No lug

  • A Canção do Amor    16 - O Labirinto

    O cheiro do Departamento de Música à noite era uma mistura de poeira antiga, verniz de violoncelo e o fantasma de todas as melodias que já haviam sido tocadas ali. Era um cheiro que eu conhecia melhor do que o perfume da minha própria mãe. Mas, naquela madrugada, o corredor que antes era meu santuário parecia a garganta de um monstro. As luzes de emergência emitiam um brilho amarelado e doentio, projetando sombras longas que dançavam nas portas das cabines como figuras acusadoras.Theo segurava minha mão com tanta força que eu sentia o pulso dele batendo contra a palma da minha mão. Ele ainda estava pálido, a experiência na clínica e o frio dos Alpes haviam deixado vincos novos ao redor de seus olhos azuis, mas ele caminhava com uma determinação que me assustava. Ele não era mais o garoto que se escondia debaixo d'água; ele era o homem que tinha voltado da morte para reivindicar o seu lugar.— Clara, tem algo errado — ele sussurrou, parando de repente na frente da Cabine 3. — O si

  • A Canção do Amor    15 - O Ressonante Retorn

    O barulho das hélices do helicóptero era um rugido constante que preenchia todo o vazio da minha cabeça. Eu estava sentada no chão da aeronave, apertada contra a maca de Theo, sentindo a vibração do motor subir pelas minhas pernas. O ar lá dentro cheirava a metal, oxigênio medicinal e ao frio persistente que parecia ter se transformado em uma camada permanente sobre a minha pele.Theo estava coberto por mantas térmicas prateadas que refletiam a luz fria da manhã. Ele estava com uma máscara de oxigênio, e seus olhos estavam fechados, mas sua mão ainda buscava a minha. Eu a segurava com tanta força que meus dedos doíam. Eu tinha medo de que, se eu soltasse por um segundo, ele voltaria para aquele túmulo de cristal sob a piscina.Olhei pela janela pequena e vi o vulto preto na neve sumindo. O homem do sobretudo. Ele tinha deixado algo para trás.— Arnaldo — chamei, minha voz mal saindo por causa da garganta seca. O advogado estava sentado à nossa frente, falando ao rádio com uma expr

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