Mag-log inPor cinco anos, a artista plástica Helena viveu aprisionada em um afeto unilateral por Gabriel, seu melhor amigo virtual. Em madrugadas marcadas por mensagens ambíguas, Gabriel massageava seu próprio ego elogiando a beleza e os traços de Helena, mas recuava sob o escudo da "amizade" sempre que ela pedia reciprocidade. Cansada da conveniência e de ser tratada como mera opção, Helena toma uma decisão libertadora: corta o contato com Gabriel para se reconectar consigo mesma e com sua arte. A virada em sua vida ganha cores vibrantes quando suas telas chamam a atenção de Julian, um renomado curador de arte. Ao contrário da volatilidade do passado, Julian oferece a Helena um amor maduro, transparente e sem reservas. No entanto, o destino revela uma ironia assustadora: Julian é o irmão mais velho de Gabriel — o homem que a usou por anos como troféu invisível perante a família. Enquanto o relacionamento de Helena e Julian se consolida em uma entrega profunda e autêntica, a dor de ter perdido Helena faz com que Gabriel entre em desespero, incapaz de aceitar a felicidade do casal. Determinado a arruinar essa união, Gabriel junta forças com Valéria, ex-namorada ambiciosa de Julian. Em uma aliança calculada motivada por egos feridos e rejeição, os dois arquitetam uma chantagem para destruir a reputação artística de Helena e o prestígio da galeria de Julian. Encurralada entre fantasmas do passado e ameaças ao seu futuro, Helena precisará provar que não é mais a garota vulnerável de outrora, usando sua força e dignidade para defender a própria arte e o amor real que finalmente conquistou.
view moreA luz azul do celular iluminava o quarto escuro de Helena. No relógio do canto da tela, os números cravavam três da manhã. O silêncio da casa era absoluto, quebrado apenas pelo som ritmado dos seus próprios dedos batendo no teclado e pelo zumbido distante do ventilador de teto.
Helena ajustou o cobertor sobre os ombros e encarou a foto de perfil no aplicativo. Gabriel. Cinco anos. Cinco longos anos em que ele fora a primeira pessoa para quem ela mandava mensagem ao acordar e a última com quem falava antes de pegar no sono. Uma amizade construída em chamadas de voz intermináveis, piadas internas que ninguém mais entendia e um carinho que, para Helena, havia transbordado as margens do afeto fraternal há muito tempo. A tela acendeu com uma nova notificação. — Ainda acordada? — enviou Gabriel. — Minha mente não desliga hoje... — Helena respondeu, ajeitando o travesseiro para apoiar o queixo. — E você? Não tinha uma reunião cedo? — Tinha, mas perdi o sono. Tava aqui vendo umas fotos antigas da gente da época que jogávamos juntos toda noite. Que saudade dessa época, Le. O coração de Helena deu aquele salto involuntário de sempre. Ela sorriu para a tela, sentindo um calor no peito que a fazia esquecer a hora, o cansaço e a rotina do dia seguinte. — Eu também sinto falta. A gente era inseparável. — Você é incrível, sabia? — a resposta dele veio rápida. — Acho que nunca tive ninguém na vida que me entendesse tão bem quanto você. Você é disparada a minha melhor amiga. A palavra amiga ecoou na mente de Helena como um balde de água fria. Ela encarou o texto por alguns segundos, engolindo a saliva seca. Não era a primeira vez que ele usava o termo, mas quanto mais o tempo passava, mais aquela palavra parecia uma barreira invisível e intransponível. — Eu tento ser... — ela digitou, apagou, e reescreveu: — Você também é muito especial pra mim, Biel. — Olha essa foto que tirei hoje antes de sair — ele enviou uma imagem. Era uma selfie simples: ele vestia uma jaqueta escura, a barba por fazer, o cabelo levemente bagunçado caindo sobre a testa, com aquele olhar reservado que ele sempre fazia. Helena prendeu a respiração. Gabriel era indiscutivelmente atraente. Traços marcantes, uma aura de mistério que atraía olhares por onde passava, mas que parecia se desarmar apenas quando conversava com ela. — Ficou ótima! Muito bonito, como sempre — respondeu ela, tentando soar casual. — Sério? Eu não gosto muito de tirar foto, você sabe. Mas me deu vontade de te mandar. Manda uma sua de agora também? Quero ver você. Helena hesitou. Tocou o próprio rosto, sentiu os cabelos desajeitados do travesseiro, mas foi até o espelho do quarto. Ajeitou a blusa vermelha de algodão, passou a mão nos cabelos escuros que caíam em ondas suaves pelos ombros e tirou uma foto. Seu rosto exibia traços delicados, os lábios desenhados e um olhar suave, quase tímido. Enviou. A resposta dele não demorou cinco segundos. — Nossa, Le... Você é linda demais. De verdade. Seus traços, seus lábios... você é totalmente o meu tipo de mulher. O peito de Helena acelerou. A esperança, aquela chama teimosa que ela tentava apagar todos os dias, reacendeu com força total. — Seu tipo? — ela perguntou, prendendo o fôlego diante da tela. — Com certeza. Você é muito atraente, perfeita. — Então por que a gente nunca tentou algo a mais, Biel? Por que a gente continua só nisso? — A pergunta saiu antes que ela pudesse conter a coragem que a madrugada trazia. Houve uma pausa longa. O indicador "digitando..." apareceu e desapareceu três vezes no topo da conversa. Minutos angustiantes se passaram até que o balãozinho de texto finalmente surgiu. — Ah, Le... Você sabe como é. Tem a distância, nossa rotina... E além do mais, você é perfeita demais pra ser só um romance passageiro. Eu não quero estragar a nossa amizade. Você é bonita demais pra ser só minha namorada e depois a gente se perder. Prefiro te ter pra sempre como minha melhor amiga.Mais tarde naquela noite, o apartamento de Julian estava novamente em silêncio. No entanto, não era um silêncio de tensão, mas de vitória. Julian preparara uma taça de vinho para Helena e a entregou enquanto ela observava a cidade da varanda. Ele a abraçou por trás, apoiando o queixo em seu ombro. — Você foi brilhante hoje — murmurou ele. — Nem por um segundo você duvidou de mim ou cedeu ao jogo deles. Helena virou o rosto, encarando-o com um olhar cheio de amor e convicção. — No passado, eu teria me escondido. Teria achado que o problema era comigo. Mas com você, Julian, eu aprendi que quando o afeto é de verdade, as sombras dos outros não têm poder para nos atingir. O Gabriel tentou usá-la como uma vingança, mas tudo o que ele conseguiu foi provar mais uma vez o quanto a imaturidade dele o deixa sozinho. Julian sorriu, selando os lábios dela com um beijo profundo, lento e repleto de paixão. — Ele perdeu você para sempre, Helena. E eu ganhei a minha vida inteira ao seu lado. H
O sucesso da exposição de Helena em São Paulo continuava a render frutos, mas no círculo de arte de Julian, as tempestades não costumavam avisar quando estavam chegando. Em uma noite de coquetel na galeria, o ambiente estava lotado de colecionadores e críticos. Helena conversava com um casal sobre suas escolhas de paleta de cores quando o murmúrio da entrada chamou sua atenção. Uma mulher caminhava em direção ao centro do salão. Usava um vestido preto de corte impecável, postura altiva e um sorriso calculado. Era Valéria, uma renomada restauradora de arte com quem Julian havia mantido um relacionamento intenso e conturbado anos atrás — uma história que terminara justamente porque Valéria colocara a ambição e o ego acima da confiança do casal. — Julian... quanto tempo — disse Valéria, aproximando-se com passos calmos. A voz era aveludada, carregada de uma intimidade ensaiada. Julian, que estava ao lado de Helena, enrijeceu a postura no mesmo instante. O olhar dele tornou-se frio.
O vento frio da madrugada começava a soprar mais forte sobre a varanda, fazendo as folhas das plantas balançarem suavemente. Julian notou o leve arrepio que percorreu os ombros de Helena e a puxou para mais perto, embrulhando-os ainda mais no edredom encorpado.— Está esfriando aqui fora — disse ele, a voz baixa e aveludada, ressoando contra o peito onde ela apoiava a cabeça. — Que tal irmos para dentro?Helena levantou o olhar devagar. Sob a iluminação fraca das luzes da cidade, os olhos dela brilhavam com uma serenidade profunda. Ela deu um sorriso calmo, tocando a linha do maxilar dele com a ponta dos dedos.— Só se você prometer não me deixar dormir agora — respondeu ela, em tom de provocação suave. — Minha mente finalmente desacelerou, Julian. Pela primeira vez em muito tempo, não estou pensando no passado, nem no amanhã. Só quero aproveitar cada segundo de hoje... com você.Julian sorriu, um olhar denso e repleto de intenção encontrando o dela. Ele se inclinou e selou os lábios
Seis meses após a exposição, a carreira de Helena havia decolado. Suas obras não apenas decoravam a galeria de Julian, mas começavam a ser requisitadas por colecionadores. Numa terça-feira à tarde, Julian estava em uma videochamada de negócios em seu escritório quando a tela do telefone particular tocou. O código de área era internacional. Ele atendeu no viva-voz enquanto assinava alguns documentos. — Julian? É o Gabriel — a voz do outro lado da linha parecia inquieta, sem o habitual ar de superioridade. — Oi, Gabriel. Aconteceu alguma coisa com nossos pais? — perguntou Julian, mantendo o tom profissional e neutro. — Não, não... Eles estão bem. É que... bom, eu vi o catálogo da nova exposição internacional que você organizou e enviou para o grupo da família. Eu vi o nome da artista principal. Helena. Julian fez uma pausa, encostando-se na cadeira de couro. — Sim. É a Helena. — Cara... é a minha Helena? A garota do Brasil com quem eu falava? — Gabriel riu, uma risada nervosa. —






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