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A Centésima Rejeição
A Centésima Rejeição
Autor: Madeirinha

CAPÍTULO 1

Autor: Madeirinha
A agonia da rejeição de August era insuportável. Sob o peso daquela dor, eu apaguei.

Quando despertei, estava no meu quarto.

Ao ouvir a notificação do celular sobre a mesa de cabeceira, estiquei a mão com dificuldade para pegá-lo. O brilho da tela feriu meus olhos. Havia uma nova publicação nas redes sociais de Anna Morgart.

Na foto, August Sterling olhava para Anna com os olhos baixos, e seu olhar era cheio de ternura.

Era exatamente a mesma expressão pela qual eu ansiei durante incontáveis noites sem dormir.

Só que, ao contrário do que eu esperava, aquilo não me feriu. Tudo o que senti foi uma onda de calma vazia.

Recebi o título de Luna no meu aniversário de dezoito anos.

Com a bênção da Deusa da Lua, fui nomeada a companheira destinada de August.

Naquela época, eu considerei esse vínculo um presente da Deusa da Lua, já que meus pais sempre favoreceram Anna.

Achei que, finalmente, poderia ter uma família só minha, um companheiro que realmente se importasse comigo.

Mas, no fim, o coração do meu companheiro também pertencia a Anna.

Na nossa primeira cerimônia de acasalamento, Anna quebrou um copo e cortou a mão.

August a pegou nos braços e correu para a enfermaria sem sequer olhar para mim.

Mesmo quando implorei pela conexão mental para que ele voltasse, ele apenas me atacou com dureza:

— Sophina Morgart! Anna é sua irmã! Como você consegue ser tão egoísta quando ela está sangrando?

O que ele não sabia era que eu estava curvada, sofrendo uma dor excruciante por causa da rejeição silenciosa dele.

Na segunda vez, o ritual também não aconteceu, porque Anna ficou com vontade de comer os doces da lojinha da esquina.

Depois disso, vieram muitos outros episódios parecidos. August sempre se ausentava, atendendo aos pequenos caprichos de Anna.

O sofrimento que ele me impôs matou aos poucos tudo o que eu ainda esperava.

Havia muito tempo, eu já tinha desistido de um amor que nunca foi meu.

Uma dor latejante rasgou minha cabeça, e eu voltei a mergulhar num sono turvo.

No meio da noite, fui arrancada da cama com brutalidade.

Abri os olhos e dei de cara com a fúria ardente de August.

— Sophina! — A mão dele apertava meu pulso com força, e sua voz explodiu no silêncio do quarto. — O bichinho de estimação de Anna morreu. Faz dias que ela quase não consegue comer. E, enquanto isso, você está aqui, dormindo como se não se importasse com nada.

Antes, diante das acusações dele, eu teria desabado, explicando desesperadamente que a rejeição dele estava me machucando. Eu teria implorado por qualquer traço do afeto dele.

Mas August nunca acreditou em mim, e muito menos me deu o menor cuidado.

Eu já estava exausta demais para tudo aquilo, então dei a ele exatamente o que queria.

— Me desculpa.

Minha voz saiu rouca e áspera.

Sob a fraca luz da lua que entrava pela janela, August finalmente observou meu rosto abatido com atenção.

Ele congelou. Quando tornou a falar, sua voz trazia uma preocupação rígida, quase forçada.

— Por que você não me disse que estava passando mal? Descanse direito. Vou buscar um remédio para você.

Fechei os olhos.

No passado, eu teria ficado radiante com aquela demonstração de preocupação. Finalmente, ele tinha me notado.

Mas agora, aquelas palavras vazias não despertaram nada dentro de mim.

Quando acordei de novo, a mesa de cabeceira estava vazia, exatamente como eu esperava.

Não havia água. Não havia remédio.

Sorrindo para mim mesma, arrastei meu corpo pesado para fora da cama e desci as escadas.

No meio do caminho, ouvi a voz suave de August vindo da cozinha.

— Cuidado, está quente. Vai devagar.

Meus passos pararam na mesma hora.

Lá estava August, usando um avental que eu nunca tinha visto nele. Ele estava concentrado em fritar ovos do jeito que Anna gostava.

Sentada à mesa, Anna apoiava o queixo no braço e sorria.

A intimidade entre os dois era algo que eu nunca tinha conhecido.

Minha mente voltou ao tempo em que fomos unidos.

Com olhos frios e indiferentes, August tinha dito:

— Cozinhar não é a minha praia, e eu não tenho a menor intenção de aprender.

Nos cinco anos seguintes, fui eu quem vestiu o avental e cuidou de todas as refeições.

Eu prestava atenção em cada gosto dele e decorava todas as suas preferências.

Mesmo quando o óleo escaldante respingava no dorso da minha mão e me fazia estremecer, eu nunca reclamava da dor.

Na minha cabeça, aquilo não significava nada, contanto que ele saboreasse o que eu fazia.

No fim das contas, August não era incapaz de cozinhar.

Ele só nunca teve vontade de fazer isso por mim.

Enquanto August preparava tudo com carinho para Anna, eu percebi que os últimos cinco anos da minha vida tinham sido uma piada.
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Último capítulo

  • A Centésima Rejeição   CAPÍTULO 8

    Desde então, minha vida ficou simples, mas plena.Durante o dia, eu praticava piano. À noite, compunha. E, sempre que sobrava algum tempo, assistia às aulas na academia de música.Meu progresso rápido rendeu muitos elogios da senhora idosa. Ela vivia dizendo a todo mundo que eu era a aluna mais esforçada e talentosa que já tinha conhecido.Eu apenas sorria.Não se tratava de me forçar além do limite. Eu só tinha encontrado o meu caminho na vida.Seis meses depois, participei de uma pequena competição musical.Naquela noite, a sala de concertos estava lotada.Olhei de relance para um canto e vi uma silhueta familiar.Era August.Mas não era o August que eu conhecia. Nos olhos dele havia culpa e arrependimento, além de um anseio contido que eu mal conseguia compreender.Era exatamente aquele olhar que, um dia, eu sonhei em ver nele.Só que os sentimentos dele chegaram tarde demais.Sem dar a menor atenção ao olhar intenso dele sobre mim, baixei os olhos e continuei tocando.

  • A Centésima Rejeição   CAPÍTULO 7

    A cada detalhe que Anna mencionava, o peito de August se apertava de dor.Nem a menor parcela do favoritismo dele tinha escapado aos olhos de Anna. Ela guardou tudo na memória.E Sophina?August não conseguia parar de pensar em quanto ela devia ter visto e em quanta dor tinha suportado em silêncio.Incapaz de aguentar esse pensamento, August saiu dali às pressas.Ele se sentou sozinho no jardim, enquanto as emoções o devoravam por dentro.Tudo o que queria naquele momento era um cigarro para anestesiar os sentidos. Só que seu isqueiro tinha ficado no quarto.Já fazia algum tempo, então Anna certamente já devia ter ido embora.O que August não esperava era ouvir a voz maliciosa de Anna ecoando no instante em que se aproximou do quarto.— Céus, por que você simplesmente não matou Sophina durante o sequestro? Agora August está obcecado por ela!— O que foi que você disse? — August rosnou.Erguendo o braço, ele agarrou o pescoço de Anna com clara intenção de matá-la.Anna lutou

  • A Centésima Rejeição   CAPÍTULO 6

    Já não bastava August ter sido cego aos próprios sentimentos; ele ainda confundiu o cuidado que tinha por Anna com amor.No instante em que voltou, jurou para si mesmo que faria o que fosse preciso para conquistar o perdão de Sophina.Como nunca tinha duvidado da devoção dela, August tinha certeza de que eu só estava fazendo birra.Assim que percebeu a verdade, ele não perdeu um segundo e correu de volta para a enfermaria.Durante todo o caminho, sua mente foi um turbilhão.Ele pensou em como pedir desculpas, como reparar seus erros e como compensar todo o tempo perdido.Mas, para seu desespero, o que o recebeu não foi Sophina, e sim um quarto vazio.Sem sinal da loba que ele tanto queria ver, August sentiu um buraco se abrir no peito, enquanto o pânico o dominava.Ele saiu correndo do quarto e agarrou uma enfermeira que passava pelo corredor, apertando com tanta força que ela soltou um grito de dor.— Onde está Sophina? — A voz dele tremia. — Ela estava ferida demais para rec

  • A Centésima Rejeição   CAPÍTULO 5

    Ponto de vista em terceira pessoaO avião pousou na Baía de Codar.Com o celular erguido, Anna tirava fotos sem parar e postava sua viagem nas redes sociais com entusiasmo. Ela não parecia nem um pouco traumatizada.August observava o sorriso radiante dela, mas sua mente estava em outro lugar.Nos últimos cinco anos, ele nunca tinha visto um sorriso assim no rosto de Sophina.Não. Isso não era verdade.Ele já tinha visto, sim.Durante o primeiro ano em que estiveram juntos, Sophina sempre sorria para ele.Toda vez que ele chegava em casa, ela o recebia com um sorriso e pegava seu casaco. Depois das longas noites que ele passava trabalhando, sempre havia um copo de leite pronto para ele. A energia alegre dela nunca vacilava, e bastava ele comentar por acaso que queria comer alguma coisa para Sophina correr para a cozinha e passar horas preparando tudo.Naquela época, havia luz nos olhos de Sophina.Em algum momento do caminho, tudo aquilo mudou.August não conseguia identific

  • A Centésima Rejeição   CAPÍTULO 4

    Anna ergueu os olhos, e eles brilhavam com uma curiosidade cautelosa e calculada.— Eu sempre quis um vestido assim. August, posso experimentar um?Ela olhou para August com delicadeza. E, como eu já esperava, August nunca diria não para ela.Tudo aconteceu exatamente como devia acontecer.Anna experimentou um vestido atrás do outro, enquanto August mantinha toda a atenção nela, dando sugestões e, às vezes, ajeitando a cauda do vestido com as próprias mãos.A sala VIP ficou tomada pelas risadas dos dois e pelos elogios dos funcionários. Era como se Anna fosse a verdadeira protagonista desde o começo.E eu fiquei quieta num canto, como uma espectadora do início ao fim.O cansaço pesava sobre mim. Mesmo assim, eu não sentia o menor incômodo ou irritação ao vê-los interagir daquele jeito.Eu só estava entediada, esperando que tudo acabasse logo.Talvez a minha presença finalmente tenha atingido August, porque ele pegou alguns vestidos e veio na minha direção, de forma estranha e

  • A Centésima Rejeição   CAPÍTULO 3

    Antes que August conseguisse entender o que estava sentindo, Anna apareceu chorando, como uma corça assustada.— Me desculpa, Sophina... — Ela se jogou ao lado da minha cama, com a voz embargada pelos soluços. — Se eu soubesse que você era alérgica a leite... A culpa foi toda minha. Eu quase matei você...Anna e eu crescemos na mesma casa.Era até possível que ela realmente não soubesse da minha alergia.Só August acreditaria numa mentira tão ruim.E, como esperado, ele deu um passo à frente e envolveu os ombros de Anna com o braço, cheio de ternura.— Não chore, Anna. Sophina não está brava com você. Não coloque essa culpa sobre si mesma. Além disso, você não fez isso de propósito.Com os olhos ainda úmidos, Anna abriu um sorriso e me abraçou com doçura.— Obrigada, Sophina. Você é a melhor.Então ela se inclinou e sussurrou quase sem som no meu ouvido:— Dê graças à sorte. E daí que você sobreviveu? Você nunca vai se unir a August enquanto eu estiver por perto!Aquilo não

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