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Capítulo 3

Author: Lotus
Ao retornar à mansão, os sons inconfundíveis de intimidade ecoavam do quarto principal. As risadas maliciosas da mulher se misturavam à respiração pesada do Luciano, entrecortadas por gemidos baixos e falsas súplicas.

Subi as escadas sem hesitar, caminhei direto para o meu quarto e peguei o passaporte e os cartões bancários que já havia deixado separados, aproveitando para vestir roupas limpas.

Quando desci as escadas com a minha bolsa, dei de cara com o Luciano saindo do quarto principal, com os braços em volta da Felícia.

— Nossa, Iara, você já voltou? — Perguntou Felícia, fingindo surpresa. — Por que está de saída tão rápido?

Luciano franziu a testa, cravando os olhos na minha bagagem.

— Para onde você vai? — Questionou ele.

— Vou embora daqui. — Respondi, caminhando a passos firmes em direção à porta da frente.

— Pare aí mesmo! — Ele me puxou pelo braço com brutalidade. — A sua mãe sabe que você...

— Ela morreu. — Cortei a fala dele, com a voz desprovida de qualquer emoção. — Ela deu o último suspiro ontem à noite, bem na hora em que você me trancou naquele porão.

Felícia soltou uma risada estridente.

— Meu Deus! Agora as pessoas rogam praga para a própria mãe só para fazer um drama?

O olhar do Luciano escureceu.

— Iara, você...

— Me solta! — Exigi, puxando o meu braço para me livrar do aperto dele.

— Senhor Luciano, não fique irritado. — Felícia deu um passo na minha direção, rindo com um tom de deboche. — Iara, se a sua mãe morreu mesmo, foi um alívio, não acha? Uma velha doente que só vivia de sugar o dinheiro do senhor Luciano e que criou uma filha capaz de usar os truques mais sujos para ir parar na cama dele... Ela já devia ter morrido há muito tempo!

— Cala a boca! — Virei o rosto de supetão, fuzilando a garota com o olhar. — Você não tem o direito de falar da minha mãe!

— E por que eu não teria? — Gritou Felícia, apontando o dedo quase no meu nariz. — Uma vagabunda velha que dopa o senhor Luciano para colocar a filha na cama dele só podia criar uma vadiazinha que se faz de coitada para arrancar dinheiro...

O estalo de um tapa ecoou pelo ambiente. Felícia levou a mão ao rosto, com os olhos tão arregalados que pareciam saltar das órbitas. O choque inicial logo deu lugar a um ódio distorcido.

— Ah! — Berrou ela. — Como você ousa bater em mim, sua desgraçada!

Dei um passo para trás e puxei o meu braço com força. O solavanco fez com que Felícia perdesse o equilíbrio, torcesse o pé e caísse em direção a um armário de madeira maciça. O braço delicado dela raspou com violência contra a quina do móvel, rasgando a pele na mesma hora. O sangue espirrou, manchando o tapete e o papel de parede.

— Socorro! Que dor! O meu braço! — Choramingou ela, caída no chão e segurando o ferimento enquanto se fazia de frágil.

— Iara! — Luciano a protegeu com o próprio corpo de imediato, me encarando com fúria. — Você faz as coisas mais nojentas e agora não aguenta ouvir umas verdades?

Encarei o rosto dele com frieza.

— Eu não empurrei essa garota.

Luciano ignorou as minhas palavras. A razão dele havia sido engolida pela raiva. Ele se virou para o mordomo e para os empregados que correram até ali por causa do barulho e esbravejou:

— Queimem tudo o que estiver no quarto dela! Se ela quer ir embora, que suma daqui, mas não vai levar absolutamente nada que pertença à família Frota!

Fiquei parada observando em silêncio enquanto as chamas devoravam a nossa última foto juntos. O meu coração foi tomado por uma sensação de alívio e liberdade. Dez anos da minha juventude haviam virado cinzas.

— Peça desculpas agora! — Ordenou Luciano, apertando o meu queixo. No entanto, ele paralisou assim que viu a expressão nos meus olhos.

Dei um tapa na mão dele para me soltar e virei as costas, caminhando para a saída.

— Iara! Se você passar por essa porta, não ouse voltar! — Rugiu ele atrás de mim.

Apertei a passagem de avião na minha mão e não olhei para trás.

Três dias depois, Luciano voltou do hospital trazendo Felícia, que agora usava um gesso grosso no braço. Assim que pisou em casa, ele percebeu que havia algo errado.

Em dias normais, não importava a hora que ele chegasse, as luzes da cozinha se acenderiam e um chá quente para curar a ressaca apareceria ao seu lado. Agora, porém, o silêncio era absoluto. Apenas alguns empregados espiavam pelos cantos antes de se esconderem de novo.

— Senhor Luciano, por que não senta um pouco? — Sugeriu Felícia, encostando-se nele com uma voz manhosa. — Deve estar cansado. Eu faço uma massagem...

— Luiz! — Interrompeu Luciano, impaciente. — Onde está a Iara? Mande ela descer agora!

O mordomo se aproximou a passos rápidos, mantendo o tom de voz neutro.

— Senhor Luciano, ela não está em casa.

— Não está? — As sobrancelhas dele se juntaram com força. — Ela fugiu mesmo? Ligue para ela e mande voltar agora mesmo!

— Não consigo contato. — A voz do Luiz ficou ainda mais baixa. — O celular da senhora Iara... Ela deixou na mesa do escritório antes de ir embora anteontem.

Ele fez uma pausa antes de acrescentar:

— Ela também deixou um acordo de divórcio assinado.

O olhar do Luciano escureceu na mesma hora. Ele subiu as escadas correndo, escancarou a porta com um chute e encontrou o escritório vazio. A única coisa que restava era a escrivaninha. O celular antigo repousava ao lado dos papéis do divórcio, que exibiam a assinatura clara de Iara Soares.

— Olha só, ela criou coragem! — Murmurou ele, forçando um sorriso frio, embora uma raiva inexplicável queimasse no seu peito.

Para descontar a frustração, ele chutou a gaveta da escrivaninha com violência. O impacto foi tão forte que a fechadura cedeu e a gaveta se abriu num estrondo. Lá dentro, havia apenas um diário antigo. O primeiro instinto dele foi jogar o caderno no lixo, mas, ao bater o olho na caligrafia, acabou folheando as páginas.

20 de maio de 2010. Dia ensolarado.

É tão estranho. Ele sempre foi o aluno perfeito que odiava brigas, mas quando vieram mexer comigo, ele deu um soco no garoto. Quando perguntei o motivo, ele disse que era porque os meus girassóis eram bonitos. Eu dei a pintura de presente para ele, mas a tinta acabou sujando a manga da camisa dele... e mesmo assim, ele sorriu.

12 de março de 2015. Dia nublado.

Nós estamos juntos! Mesmo ele dizendo que só aceitou isso para agradar a família, eu estou muito feliz.

15 de março de 2015. Chuva fina.

Três dias depois do casamento, ele continua frio. Eu sei que ele não consegue esquecer a história da Viviana... mas eu acredito que, com sinceridade e esforço, eu posso derreter esse gelo aos poucos.

3 de setembro de 2020. Tempestade.

O estômago dele atacou de novo. Ele proibiu os empregados de entrarem no escritório, mas eu deixei um prato de sopa quente na porta, escondida. Ele tomou uma colherada e me chamou de oferecida.

10 de setembro de 2021.

Ele trouxe a terceira "Viviana" para casa e mandou eu ensinar a garota a servi-lo. Eu ensinei. Ele ficou satisfeito e disse que eu sabia o meu lugar.

25 de dezembro de 2022. Chuva de verão.

Natal. Ele bebeu demais e me abraçou chamando o nome da Viviana. Fingi que não ouvi e preparei um chá para ele melhorar. Ele vomitou na minha roupa inteira e eu fiquei limpando a sujeira até de madrugada. A minha mãe tossiu sangue de novo hoje. As contas do hospital... Luciano, por quanto tempo mais eu vou aguentar?

8 de outubro de 2025. Dia nublado.

Já faz dez anos. A tosse com sangue da minha mãe piorou muito, e o médico disse que a situação é crítica. O Luciano trouxe mais uma "Viviana" para casa hoje, a mais parecida de todas. Só preciso aguentar mais um pouco. O dinheiro que guardei já está quase no fim. Quando eu tirar a minha mãe daqui, tudo vai ficar bem.

A última página tinha a data de três dias atrás.

10 de outubro de 2025.

Que não nos vejamos nunca mais nesta vida. Que os nossos caminhos jamais voltem a se cruzar.

— Isso é impossível... — A garganta do Luciano se fechou, e ele sentiu o gosto do pânico pela primeira vez. Ele bateu a capa do diário com força e gritou. — Preparem o carro! Vamos para o Hospital Santa Maria! Eu duvido que ela tenha coragem de abandonar a própria mãe!

Luiz surgiu na porta segurando um documento que havia acabado de chegar do hospital.

— Senhor Luciano... a mãe da senhora Iara faleceu de verdade! — Disse o mordomo, com voz trêmula.

— O quê?

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