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Capítulo 2

Author: Lotus
O porão era um lugar úmido e dominado por um frio cortante. Encostei o meu corpo contra a porta de ferro gelada, tremendo de forma incontrolável por causa do pavor que me consumia.

— Me tirem daqui, por favor! A minha mãe não vai resistir! — Gritei com todo o ar que restava nos meus pulmões, esmurrando o metal até que as minhas mãos ficassem esfoladas e cobertas de sangue.

Sem forças, escorreguei pela porta até cair sentada no chão, chorando com desespero. A bateria do meu celular havia acabado de vez, mas a voz do médico avisando que aquela seria a nossa despedida continuava ecoando na minha cabeça.

Eu tinha feito uma promessa à minha mãe de que, assim que juntasse dinheiro suficiente, deixaria o Luciano para trás e a levaria para um lugar quente e tranquilo, onde ela pudesse se recuperar em paz.

Por que tudo isso tinha que acontecer logo hoje? Por que ele não me deu uma única chance de provar que eu estava falando a verdade?

Em meio à escuridão absoluta, as lembranças me atingiram como uma avalanche. Voltei à sala de artes do ensino médio, onde eu pintava as pétalas de um girassol usando um tom de azul profundo. Os meus colegas de turma riam de mim, chamando-me de daltônica, e o único que parou para observar foi o Luciano.

— Esse é um girassol que floresce sob a luz do luar? Você também gosta de ler sobre vampiros e romances impossíveis? — Perguntou ele na época, tocando a tinta azul com a ponta dos dedos antes de virar o rosto para me encarar. A luz do sol iluminava o seu sorriso quando ele completou. — É uma beleza solitária, bem parecida com a garota que a pintou.

Aquele instante de encanto foi apenas o prefácio do meu pesadelo de dez anos.

Depois, veio a lembrança do jantar de gala da família Frota. Acordei na cama dele, com o corpo inteiro coberto de hematomas, enquanto ele apertava o meu pescoço e sorria com desprezo.

— Vocês duas são nojentas! Como tiveram a coragem de colocar drogas na minha bebida? — Rosnou ele.

Só muito tempo depois eu descobri que a taça batizada havia sido entregue à minha mãe por pessoas da própria família Frota. Eles precisavam de uma nora submissa que servisse como marionete, e eu, que o seguia como uma sombra desde a época da escola, era a candidata perfeita para o papel.

Continuei encolhida no chão frio, deixando que as memórias girassem na minha mente. Não sabia quanto tempo havia se passado, talvez apenas uma hora, talvez a madrugada inteira. O som da fechadura destrancando quebrou o silêncio quando o dia já estava claro lá fora. Luciano parou na porta, com a luz do corredor contornando a sua silhueta.

— Já terminou o seu showzinho? — Perguntou ele, impaciente.

Felícia estava agarrada ao braço dele, rindo com uma doçura fabricada.

— Não fique irritado, senhor Luciano. Tem gente que adora se fazer de vítima. — Comentou a garota.

— Não aconteceu nada no hospital. — Continuou ele, com um tom carregado de deboche. — O Luiz me avisou que não recebeu nenhuma daquelas ligações histéricas de madrugada.

Ergui a cabeça de supetão. A ausência de ligações era a pior notícia que eu poderia receber.

Ao contrário de todas as outras vezes em que fui trancada ali, não me levantei encolhida para limpar a bagunça, nem comecei a pedir desculpas de forma humilhante. Apenas abaixei a mão que protegia o meu rosto da claridade, deixando que os meus olhos se acostumassem com a luz até focar na figura parada na porta.

Os nossos olhares se cruzaram.

O meu vestido de gala estava coberto de poeira e manchas de bebida, sem guardar qualquer semelhança com a roupa de luxo que um dia foi. As lágrimas haviam secado no meu rosto, e os meus olhos transmitiam a mesma calma de um lago morto.

As sobrancelhas dele se juntaram em uma expressão de aborrecimento.

— O que você está esperando para sair daí? Vai ficar parada com essa cara de idiota até quando? — Esbravejou ele.

Apoiei as mãos na parede e fiz um esforço enorme para erguer o meu corpo rígido, sentindo milhares de agulhas invisíveis espetando as minhas pernas dormentes. Passei por ele sem diminuir o passo e exigi com a voz rouca:

— Me dê a chave.

Ele agarrou o meu braço com força.

— Que loucura é essa agora?

— A chave do carro. — Repeti, sem me virar para olhá-lo. — Me entrega logo. Eu preciso ir ao hospital.

Atrás dele, Felícia resmungou em um tom baixo:

— Senhor Luciano, ela continua sendo tão mimada...

— Deixe ela ir. — Retrucou Luciano, soltando o meu braço com um sorriso frio. — Pedro, vá atrás dela.

O motorista dirigiu em alta velocidade. Assim que o carro parou, empurrei a porta e corri tropeçando pelos corredores até alcançar a ala da UTI. Quando a enfermeira me viu, os olhos dela se encheram de lágrimas.

— Senhora Iara, que bom que você chegou... A sua mãe resistiu durante quase toda a madrugada e, nos últimos momentos, ficou chamando o seu nome com a mão esticada em direção à porta. — Relatou a mulher, com a voz embargada.

Os meus dentes batiam uns contra os outros, e a minha voz parecia ter sido arrancada do fundo da minha alma.

— Me leve até ela, por favor.

A luz branca do necrotério dava ao ambiente um aspecto fantasmagórico. Quando o lençol foi afastado, o rosto pálido da minha mãe surgiu diante de mim. Há apenas dois dias, nós estávamos assistindo a vídeos de pousadas na praia, e ela sorria dizendo que prepararia a minha sopa favorita assim que recebesse alta.

Agora, os seus olhos estavam fechados, os lábios apresentavam um tom arroxeado e a sua testa continuava franzida, provando que ela havia partido preocupada comigo.

— Qual foi a hora do óbito? — Perguntei, ouvindo o tremor na minha própria voz.

— Foi às quatro e vinte e três da manhã. — Respondeu a enfermeira em um sussurro. — Tentamos ligar dezenas de vezes para a sua casa...

Era bem no momento em que eu estava trancada no porão, chorando até perder a voz. Deslizei os dedos com muita delicadeza para desfazer a ruga de preocupação na testa da minha mãe, curvei o corpo e beijei a sua pele gelada.

— Mãe... me espera só mais um pouco. Vamos ser livres muito em breve. — Sussurrei.

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