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Capítulo 3

Author: Eternity
Quando amanheceu, a enxaqueca já tinha cedido, mas meu corpo ainda parecia vazio, sem forças.

Lucian não voltou para casa durante toda a noite. Às seis da manhã, recebi uma mensagem dele.

[A equipe de manutenção não apareceu. Deixei que ela passasse a noite em uma das casas seguras da família. Já voltei ao hotel para cuidar da contabilidade das docas. Não se esqueça de comer.]

Fiquei encarando aquelas palavras.

Uma casa segura da família.

As casas seguras dos Bellandi não eram hotéis, e também não eram lugares que Lucian oferecia como um simples favor. Eram os refúgios mais secretos da família, reservados apenas àqueles que o Don decidia proteger pessoalmente.

Eu não acreditava que os dois tivessem dormido juntos. Lucian tinha limites que jamais ultrapassaria.

Ainda assim, olhar para aquelas palavras doía.

Naquela tarde, fui ao Hotel Bellandi. Ava pegou meu carro emprestado na noite anterior e disse que o deixaria no hotel para mim. Ela também pediu que eu levasse alguns contratos que Lucian esqueceu na cobertura.

Quando abri a porta de vidro fosco do escritório no último andar, fui recebida pelo silêncio.

Lucian estava alguns andares abaixo, em uma reunião no cassino. Mia permanecia sentada à mesa da assistente, organizando uma pilha de registros contábeis das fichas do cassino.

No instante em que me viu, ela se levantou.

— Srta. Vale, o que está fazendo aqui? Já está se sentindo melhor?

Seu sorriso era radiante, e seu olhar parecia límpido, como se nada de estranho tivesse acontecido.

Mia usava uma saia de lã cinza e um cachecol preto de cashmere ao redor do pescoço.

Eu conhecia aquele cachecol.

Lucian o usava durante todos os invernos, pois ele tinha pertencido ao pai antes da morte do antigo Don. Todos na família sabiam que ninguém tocava nos objetos pessoais de Lucian sem que ele desse permissão.

Mia acompanhou a direção dos meus olhos e acariciou a borda do cachecol com as pontas dos dedos.

— Por favor, não entenda mal, Srta. Vale. Ontem à noite foi um caos, e meu casaco ficou encharcado. O Sr. Bellandi disse que o salão do cassino estava muito frio, então me emprestou o cachecol. Vou mandá-lo para a lavanderia depois.

Ela sorriu.

— Ele é um homem tão bom. Não se parece nem um pouco com o monstro que todos dizem que ele é.

Aproximei-me e coloquei os contratos sobre a mesa dela.

— É mesmo?

Meu olhar passou por Mia e pousou no espaço ao lado do monitor. Ali havia uma ampulheta de cristal veneziano. O vidro era transparente, e uma areia azul muito fina deslizava pelo centro estreito em um fluxo lento e brilhante.

Eu comprei um par durante uma viagem de trabalho a Veneza. Uma das ampulhetas ficava sobre a escrivaninha do meu quarto. A outra foi para o escritório de Lucian.

Eu disse a ele que esperava que, sempre que olhasse para a ampulheta, se lembrasse de reservar um pouco de seu tempo para mim.

Agora, ela estava sobre a mesa de Mia.

Percebendo a direção do meu olhar, Mia deu um leve toque no cristal.

— Ah, isto? O Sr. Bellandi percebeu que eu estava me perdendo nos horários das reuniões esta manhã, então me deu a ampulheta. Ela é linda. A senhora tem muito bom gosto, Srta. Vale.

Mia não estava tentando me provocar. Não havia sequer maldade em sua voz, e era justamente isso que tornava tudo ainda pior. Suas palavras eram como uma faca cega sendo arrastada lentamente contra meu peito.

Não respondi. Apenas empurrei a porta do escritório de Lucian.

O cômodo estava vazio.

Sobre a mesa, no lugar onde antes ficava a ampulheta, restava apenas uma marca circular quase apagada.

Dez minutos depois, Lucian voltou da reunião. Assim que me viu sentada no sofá, ficou imóvel.

— Por que você veio até aqui? Eu disse para descansar em casa.

Ele se aproximou e, por hábito, estendeu a mão para tocar minha testa.

Virei o rosto para o outro lado.

A mão dele enrijeceu no ar antes de baixar lentamente.

— Ainda está com raiva?

Lucian soltou um suspiro e se sentou na poltrona ao meu lado.

— O que aconteceu ontem foi uma situação excepcional. A caldeira do prédio dela estourou, e as Docas do Sul estavam um caos. Eu não podia deixá-la sozinha no meio da rua.

Ergui os olhos para ele.

— Você disse que ninguém além de mim podia tocar naquele cachecol.

Lucian franziu a testa. O pedido de desculpas que havia em seus olhos deu lugar à impaciência.

— Elena, não faça parecer que aconteceu alguma coisa indecente. O casaco dela estava molhado. O que esperava que eu fizesse? Que a deixasse passar o expediente inteiro congelando?

— E a ampulheta? Foi apenas mais um favorzinho sem importância? — Interrompi.

Pela primeira vez, algo estranho passou por seus olhos. No instante seguinte, desapareceu, substituído pela mesma serenidade convicta de quem tinha certeza de estar certo.

— Ela só estava parada sobre a minha mesa. Mia precisa controlar minha agenda do lado de fora, então a ampulheta é mais útil ali. Se você gosta tanto dela, mando trazer uma caixa inteira de Veneza. Você nunca foi tão mesquinha, Elena.

O olhar dele esfriou.

— Fazer uma cena na frente dos funcionários por causa de um cachecol e uma ampulheta... isso realmente vale a pena, a ponto de perder sua dignidade?

Olhei para os números sobre sua cabeça.

[89 dias, 12 horas e 5 minutos.]

De cento e vinte dias para menos de noventa.

Quando um relacionamento já estava condenado à morte no coração da outra pessoa, até respirar podia se transformar em um crime.

Levantei-me e peguei minha bolsa.

— Você tem razão. Não vale a pena.

Durante muito tempo, tive medo de que a contagem regressiva chegasse a zero.

Mas, naquele momento, deixei de sentir medo.

Porque finalmente entendi que esperar alguém ir embora era mais patético do que partir primeiro.

Quando as portas do elevador se fecharam, enviei uma mensagem para Rosalind, minha advogada.

[Acabou entre mim e Lucian. Tire meu nome de todas as contas dos Bellandi e de todos os acordos particulares. O mais rápido possível.]
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