Compartilhar

A Dançarina e o Segurança
A Dançarina e o Segurança
Autor: Aquino

Capítulo 1

Autor: Aquino
last update Data de publicação: 2026-10-07 21:03:53

Naya Nogueira

A máscara de veludo cobrindo metade do meu rosto não é por charme nem fantasia de palco. É proteção pura. É a linha bem desenhada que separa a mulher centrada que engole a seco o dia a dia corporativo daquela que finalmente respira quando a noite cai.

De dia, me chamam de Dra. Nogueira. Sou a executiva fria e analítica do grupo Montenegro. Passo dez, doze horas pulando de reunião chata, lidando com relatórios gigantes, pressão por metas e prazos que parecem sufocar meu peito. Naquela rotina de concreto e vidro, o salto alto serve só como armadura para me impor no meio de homens que odeiam ser contrariados.

Mas aqui, sob a iluminação baixa e avermelhada do Noctua, o salto ganha outro sentido. Serve para me libertar.

Tem gente que vem para um clube fechado como este só para ostentar. Querem ser vistos, pagam caro em garrafas de bebida para inflar o ego e gostam de exibir relógios de grife no balcão. O dinheiro fácil e o desejo se misturam rápido nesse ambiente.

Eu não. 

Estou aqui porque amo a dança e amo a sensação de deixar minha rotina de lado por alguns minutos. A máscara me protege do julgamento de quem me conhece lá fora, e o palco é o único lugar onde o falatório da minha cabeça cala a boca.

As luzes do salão caem quase por completo. Fica só um foco vermelho cravado no centro do palco. O som grave do sistema de áudio estremece o chão antes da voz do locutor ecoar pelos alto-falantes:

— Senhoras e senhores... com vocês, Rubi, a dançarina Mascarada!

O público responde com aplausos e burburinhos ansiosos.

Ajusto a postura, respiro fundo e piso na madeira polida. O blues moderno começa a tocar, e a batida pesada do baixo faz meu peito vibrar. O ar do salão é intenso, cheio de cheiro de perfume caro, fumaça discreta de charuto e aquela audácia masculina previsível de quem acha que compra qualquer coisa com um cheque em branco.

Não estou ali por eles. Nunca estive. Estou ali por mim, pela descarga de adrenalina e pela dança. Perto da barra de aço, a executiva da Montenegro deixa de existir. Ali sou só a Rubi, a dançarina mascarada.

Seguro o metal gelado da barra. É um contato firme, conhecido. Dou um impulso limpo e subo, travando a pele das coxas contra o aço. O atrito machuca um pouco, mas é essa dor rápida que me faz prestar atenção no agora e esquecer o resto do mundo.

Giro o corpo em um movimento contínuo, jogando o tronco para trás e deixando meu cabelo solto balançar. Sei o efeito disso no salão; ouço quando alguns homens na primeira fileira prendem o ar. Eles adoram achar que estão no controle só porque estão olhando. Mas o controle aqui é todo meu. Eu decido a hora de subir, o momento de girar e a força de cada travada na barra.

Ou pelo menos era o que eu achava, até meu olhar cruzar o salão.

No canto mais escuro do clube, na mesa VIP do fundo, meu peito trava. O ar some da minha garganta com tanta força que preciso fazer um esforço físico absurdo para não perder o aperto do braço e cair de mau jeito. Meu estômago despenca.

Não é um cliente qualquer tentando aparecer. Não é um executivo bêbado jogando nota no palco.

É Rael Sampaio.

Um arrepio gelado desce pela minha espinha e meu coração dispara no ato. 

O que ele está fazendo aqui? 

De todas as noites do ano, de todos os lugares de São Paulo, por que ele tinha que aparecer logo neste clube?

Ele está sentado com a mesma postura imponente de sempre. Costas largas apoiadas no sofá escuro, terno ajustado ao corpo, exalando aquela autoridade natural que sempre me irritou profundamente. Rael não está rindo com os amigos. Não está bebendo rápido. Nem sequer se inclina para a frente como os caras desesperados da primeira fila.

Ele só está me olhando.

Aqueles olhos azuis e atentos estão cravados em mim. Rael não assiste à apresentação como quem busca distração; ele me estuda. Analisa cada movimento meu na barra, cada troca de peso, como se estivesse procurando uma falha para entender quem eu sou.

O pânico tenta tomar conta, mas me agarro à proteção do veludo. A máscara cobre boa parte do meu rosto e a roupa da Rubi não lembra em nada as camisas sociais e os blazers fechados que uso no escritório. Mas a dúvida b**e forte: e se ele me reconhecer?

Rael me conhece até demais. Fomos apresentados pela Dandara, minha melhor amiga, e desde o primeiro aperto de mão existe um clima esquisito entre a gente. Uma tensão pesada e incômoda que nenhum dos dois jamais assumiu.

Foram meses de trocas de olhares por cima de copos em jantares casuais. Dezenas de farpas e piadas irônicas em encontros de amigos. Nenhum dos dois deu o braço a torcer. Ele é orgulhoso e observador demais. E eu levantei muros altos demais para deixar qualquer um se aproximar sem resistência.

A gente se mede em silêncio há tempos. E ver Rael Sampaio ali, no meu espaço mais reservado, faz minha cabeça ferver de raiva e nervosismo.

A razão me manda encerrar a coreografia agora, descer sem chamar atenção, me trancar no camarim e ir embora pelos fundos. Mas eu nunca consegui agir de forma totalmente racional quando Rael está por perto.

Olhando para ele lá do alto, vendo aquela calma que parece deboche, a raiva fala mais alto. Odeio a facilidade com que ele abala minha concentração. Odeio a certeza que ele carrega no olhar, como se nada no mundo fosse capaz de pegá-lo de surpresa.

Pois ele vai ver.

Se isso entre a gente sempre foi um jogo velado de provocações, eu me recuso a jogar na defesa dentro do meu próprio terreno.

Sem perder o ritmo da música, encaro Rael de cima. Não desvio o olhar. Em vez de diminuir os movimentos, uso a própria dança para bater de frente.

Engato uma inversão na barra e fico de cabeça para baixo. Desço devagar pelo metal, com a coluna curvada, mantendo meus olhos cravados nos dele a cada centímetro. A distância entre o palco e o fundo do clube continua ali, mas a sensação é de que o ar entre nós dois travou.

Lá de cima, vejo o momento exato em que a postura dele muda. A expressão fria dele dá uma trincada imperceptível para o resto do salão, mas claríssima para mim. O peito dele se expande em uma respiração mais funda e a mão grande que estava solta no sofá se fecha com força.

Ele entendeu o recado. Viu que a provocação foi direta e percebeu que eu não vou me esconder.

A música chega nas últimas notas. Finalizo a sequência perto da base da barra, com a respiração curta e o peito subindo e descendo rápido, sem soltar o olhar dele. Rael sustenta o contato até o último segundo.

Não dou a ele o gosto de me ver hesitar. Assim que as luzes começam a apagar para a próxima atração, me viro e saio do palco antes que os aplausos ganhem força na escuridão.

Passo pela cortina de veludo e me tranco no camarim.

Giro a chave na fechadura, encosto as costas na madeira e solto o ar que passei minutos prendendo. O silêncio do cômodo, iluminado pelas lâmpadas amarelas ao redor do espelho, parece o único refúgio seguro no meio desse caos.

Vou até a bancada e me sento. Com as mãos trêmulas e a pele quente de suor, desato o nó da máscara e a tiro do rosto. Olho meu reflexo no espelho: bochechas coradas pelo esforço, teste suada e olhos inquietos.

— O que você acabou de fazer, Naya? — murmuro para mim mesma, cobrindo o rosto com as mãos.

Passei meses mantendo a postura perto dele em qualquer evento. Fiz de tudo para parecer neutra e distante. Bastou ver Rael Sampaio no canto de um clube para jogar o juízo fora e usar a dança como desafio.

Preciso sair daqui agora. Tiro o figurino da Rubi na pressa, limpo o excesso de maquiagem do rosto e me visto com minhas roupas normais: calça jeans escura, camiseta preta e jaqueta de couro. Solto o cabelo, arrumo os fios com os dedos e escondo a máscara no fundo da mochila.

Saio pela porta de serviço, que dá direto num beco lateral. O ar da noite paulistana está gelado. Começou uma garoa fina que deixa o asfalto escuro e brilhando com os reflexos dos letreiros da rua.

Cruzo os braços para tentar espantar o frio enquanto espero o carro que chamei no celular. O cheiro de chuva recente toma conta da rua, mas minha cabeça continua presa naquele olhar azuis que me encarou da penumbra.

Rael Sampaio não é o tipo de homem que deixa uma provocação passar em branco. E se ele desconfiou, por um segundo que seja, de quem estava atrás daquela máscara, as coisas no meu trabalho e na minha vida estão prestes a sair do controle.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • A Dançarina e o Segurança    Capítulo 20

    Naya Nogueira Acordar nos braços de Rael é uma experiência que redefiniu o meu conceito de paz.Abro os olhos devagar quando a luz suave da manhã de terça-feira começa a filtrar pelas frestas da cortina do meu quarto. O peso do braço musculoso dele ao redor da minha cintura é uma presença firme, quente e incrivelmente acolhedora. Encostada ao peito largo de Rael, escuto o ritmo calmo da respiração dele e sinto o aroma amadeirado da sua pele misturado ao meu perfume.Depois de tudo o que vivemos na noite anterior — o jantar romântico, as conversas sem reservas e a entrega apaixonada e avassaladora na minha cama —, não restam dúvidas no meu peito. Eu estou completamente e perdidamente apaixonada por esse homem. E o mais bonito é saber que o amor e a proteção dele são recíprocos, reais e sem jogos.Viro meu corpo com cuidado dentro do abraço dele para não acordá-lo. Observo a feição relaxada do seu rosto: a barba desenhada, os traços marcantes e a serenidade que ele só demonstra quan

  • A Dançarina e o Segurança    Capítulo 19

    Rael Sampaio Segurei Naya pelas coxas e a ergui do chão com facilidade. Ela cruzou as pernas compridas ao redor da minha cintura, soltando um riso abafado de surpresa antes de me puxar para mais um beijo profundo enquanto eu a carregava em direção ao quarto principal.O quarto estava iluminado apenas pela luz suave do abajur. Acomodei o corpo de Naya no centro do colchão da cama king-size e me posicionei entre suas pernas, cobrindo seu corpo sem colocar peso desnecessário.Fui retirando as roupas dela com um cuidado quase sagrado, mas impregnado de um desejo brutal. Tirei a regata de seda, desabotoei a calça e a liberei de cada peça até que ela ficasse inteiramente nua sob o meu olhar. A visão daquele corpo moreno, com curvas perfeitas e a pele macia reluzindo na penumbra, fez meu sangue ferver.Desfiz-me das minhas roupas com pressa e voltei a me encaixar entre as coxas dela.— Você é a mulher mais gostosa e perfeita deste mundo, Naya — declarei, encarando-a bem no fundo dos olhos

  • A Dançarina e o Segurança    Capítulo 18

    Rael Sampaio Engatei a marcha do SUV e saí devagar pelo subsolo do prédio da Montenegro, ganhando a avenida movimentada.Ver Naya acomodada no banco do passageiro ao meu lado, relaxada após um dia exaustivo de trabalho e sorrindo para mim com aquele olhar de entrega, fazia qualquer peso do meu dia desaparecer. Ela havia deixado a armadura de executiva inabalável no escritório para ser apenas a minha mulher — a minha parceira.Estendi minha mão direita sobre o console central e envolvi os dedos macios de Naya nos meus. Ela apertou meus dedos de volta com um movimento carinhoso, encostando a cabeça no apoio do banco para me observar enquanto o trânsito da Faria Lima fluía.— Para onde o meu namorado está me levando? — ela perguntou com a voz aveludada, um leve sorriso de canto nos lábios.— Para um lugar tranquilo nos Jardins — respondi, levando a mão dela até a minha boca para deixar um beijo demorado no dorso dos seus dedos. — Um restaurante reservado, com iluminação baixa e comida

  • A Dançarina e o Segurança    Capítulo 17

    Naya Nogueira O trajeto no SUV de Rael seguiu em um silêncio calmo, acolhedor e profundamente confortável.Observando o fluxo dos carros pela janela enquanto a manhã de segunda-feira ganhava vida em São Paulo, deixei que meu corpo relaxasse contra o banco de couro. A rotina na Montenegro prometia um dia longo de reuniões de conselho e análises de fusão tributária, mas estar ao lado de Rael trazia uma sensação nova de leveza que eu não experimentava há anos.Olhei de relance para ele. Rael mantinha uma das mãos no volante e a outra repousada no console central, perto da minha. Ele vestia uma camisa polo escura bem ajustada ao peito amplo e uma jaqueta de couro que lhe dava um porte marcante e masculino. Não havia nada de formal ou profissional na forma como ele me olhava; era o olhar de um homem completamente apaixonado pela sua mulher.Ele não estava ali cumprindo ordens ou fazendo escolta corporativa. Rael era o meu homem, o meu parceiro. Um homem forte e protetor que fazia questã

  • A Dançarina e o Segurança    Capítulo 16

    Naya Nogueira A sensação de alinhar as coisas com Rael no corredor do Noctua ainda vibrava no meu peito enquanto eu dirigia de volta para o meu apartamento na madrugada de domingo.Eu passei anos acreditando que amar significava perder a voz, ser acuada ou ter a vida controlada por um homem brutal. O trauma do meu passado com o Renan tinha me ensinado a enxergar qualquer aproximação como uma ameaça em potencial. Mas Rael me provava, a cada olhar e a cada gesto, que ele era o oposto do medo.Ele era o meu porto seguro. Um homem bruto, tático e terrivelmente protetor, mas que sabia recuar, pedir desculpas e me respeitar como a mulher forte e independente que sou.Admitir que o amava não me assustava mais. Pelo contrário: trazia uma sensação de alívio e invencibilidade.A segunda-feira começou cedo. Levantei-me disposta, renascida e pronta para encarar a semana de reuniões decisivas no Grupo Montenegro.No banheiro do meu apartamento, preparei minha armadura de executiva sem exageros

  • A Dançarina e o Segurança    Capítulo 15

    Naya Nogueira A noite chega rápida. Recuso o carro da Vortex e assumo a direção do meu próprio veículo a caminho de Pinheiros. Se Rael quer me proteger, ele que faça isso respeitando o meu espaço.Quando entro pela porta de serviço do Noctua, o ambiente do clube está fervilhando. No camarim, ajeito meu figurino ousado e ajusto a máscara de veludo preta sobre o rosto. Encaro meu reflexo no espelho: cabelos pretos soltos em ondas, lábios marcados e um olhar de pura determinação.O momento da apresentação chega. As luzes vermelhas do salão diminuem, o gelo seco começa a espalhar uma névoa baixa pelo chão de madeira e o sistema de som do clube faz o ambiente tremer. A introdução de um blues moderno e pesado, com batidas graves de baixo e notas de guitarra arrastadas, toma conta de cada centímetro do salão.O locutor segura o microfone pesado e sua voz rouca ecoa bem alto pelas caixas de som, cortando o burburinho da plateia:— E agora, senhoras e senhores... preparem os seus corações!

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status