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Capítulo 2

Autor: Aquino
last update Data de publicação: 2026-10-07 21:04:59

Rael Sampaio

A Noctua não é o tipo de lugar que frequento por prazer. Para a maioria dos homens nesta sala mergulhada em sombras, este clube é um refúgio. Um escape da realidade estéril de seus escritórios e de seus casamentos de fachada.

Para mim, é apenas um cenário repleto de  incertas de risco. Um ambiente que desmonto em segundos com meu olhar clínico.

Como proprietário e estrategista-chefe da Vortex Security, meu cérebro não desliga. É um vício de profissão ou herança dos anos em que atuei em campo aberto, onde a menor distração significava uma cova rasa.

Eu entro em um recinto e já mapeio todas as rotas de fuga, a falta de preparo dos seguranças da casa e os pontos cego das câmeras. Observar é o que me mantém vivo.

E é por causa dessa hipervigilância que percebo a entrada da nova atração no momento em que a luz central se acende.

O som do sistema de áudio ecoa alto pelo salão, seguido pela voz grave do locutor:

— Senhores e senhoras... com vocês, a nossa rainha mascarada... Rubi!

O público vibra. Mas o que me chama a atenção não é o apelo óbvio do figurino ou a reação dos homens na primeira fila.

É o controle.

Conheço profundamente a linguagem corporal de quem está no comando total. A maioria das mulheres neste circuito dança para ser consumida pelos olhos alheios. Buscar aprovação na cobiça alheia.

Ela não. Ela domina a barra de aço como quem impõe um cerco silencioso ao redor de si mesma. Cada movimento transmite a mesma mensagem: olhem, mas não se aproximem.

A luz do palco gira, iluminando o rosto dela em um ângulo revelador. A máscara de veludo preta, a altivez natural e a firmeza cirúrgica com que executa um Back Hook Spin.

O mundo ao meu redor parece desacelerar. O som do baixo vira um zumbido distante.

O reconhecimento me atinge com a força de um disparo no peito.

Eu sei exatamente quem ela é sob aquela máscara.

Naya Nogueira.

A amiga da Dandara. A executiva compenetrada que vi dezenas de vezes nos encontros sociais. A mulher que passa horas focada em estratégias e planilhas na Montenegro, mantendo sempre uma distância polida e intransponível de todos.

E agora ela está ali, em um palco sob luzes vermelhas. Mascarada, exposta e protegida pela persona da Rubi.

Minha mandíbula trava. Um calor incômodo sobe pela minha nuca.

Ela não é uma desconhecida cujas curvas avalio com desprendimento. É alguém do meu círculo de convivência. Alguém que conhece a força do meu nome e da minha empresa.

Porra, Naya. O que você tem na cabeça?

O pior não é a quebra de expectativa. O pior é perceber que não consigo desviar os olhos dela nem por um segundo.

Ela está ainda mais atraente do que eu me lembrava. E aquela roupa, que revela muito mais do que deveria, só torna impossível ignorá-la. Desde sempre, ela teve o maldito talento de chamar minha atenção sem sequer tentar.

É linda. De uma beleza incomum, quase hipnotizante. Os olhos levemente puxados dão ao rosto um traço exótico; os cabelos longos e negros caem pelas costas, contrastando com a pele morena. Há alguma coisa nela que transmite perigo.

Um perigo ambulante.

E, no meio de tantos homens, ela ainda consegue ser a única pessoa que meus olhos procuram. Recosto-me na cabine mais ao fundo, mantendo a postura de um cliente indiferente. Por fora, pareço tranquilo.

Por dentro, meus olhos estão cravados nela como um radar, acompanhando cada movimento seu.

Ela sobe no pole com um Climb firme que exige força real. Nenhum vestígio da fragilidade ou da polidez dos jantares formais. Ali, ela é pura técnica, foco e intenção.

Conheço a versão diurna: a Naya que mede cada palavra e toma vinho em goles calculados. Mas a mulher naquele palco é a versão crua, sem filtro. Infinitamente mais perigosa para si mesma e terrivelmente atraente.

Eu deveria me levantar, pagar a conta e sair pela porta da frente. Preservar a privacidade dela por honra e respeito. Seria o movimento correto.

Mas não me mexo da cadeira.

Naya não está apenas apresentando um show. Ela opera em um perímetro de segurança, usando o palco como uma fortaleza. Notam-se os ombros prontos para reagir a qualquer invasão de espaço. É o estado de prontidão de quem não se entrega totalmente ao ambiente.

Isso desperta em mim uma curiosidade que beira a obsessão. A discrepância entre a executiva contida e a mulher que domina aquele aço.

Ela executa uma inversão perfeita, descendo lentamente pela barra. E é exatamente nesse instante que seus olhos travam na minha direção.

Um alvo fixado com precisão.

Ela me viu.

Nossos olhares se cruzam na penumbra do salão. O ar entre o fundo do clube e o centro do palco fica denso, carregado de uma eletricidade perigosa.

Naya percebeu minha presença. E, em vez de recuar ou demonstrar pavor, ela escolhe me testar.

Sustentando o contato visual do alto da barra, ela engata movimentos ainda mais fluidos e desafiadores. É um duelo privado. Uma guerra de nervos silenciosa no meio do barulho do salão.

Ela não sabe se tenho certeza absoluta de quem está por trás daquele veludo. E esse segredo pesa no meu bolso como uma arma destravada.

Eu jamais a exporia. A máscara é seu equipamento de proteção individual; permite que solte seus impulsos sem comprometer sua vida pessoal. E na Vortex, respeitamos camadas de segurança bem construídas.

A música atinge os acordes finais. Ela encerra a sequência rente à barra, com a respiração acelerada, sem piscar ou quebrar o contato visual por um único segundo.

Assim que a iluminação diminui, ela dá meia-volta e se retira para os bastidores antes mesmo dos aplausos tomarem o salão.

Permaneço imóvel na cabine, acompanhando o rastro que ela deixou na escuridão do palco.

A atmosfera do clube mudou completamente. Agora existe um vínculo real e perigoso entre a mesa do fundo e aquela dançarina.

Ajusto o paletó, recosto-me no estofado e respiro fundo.

Naya Nogueira não tem ideia de onde acabou de pisar.

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