LOGINNaya Nogueira
Na manhã seguinte, acordo antes mesmo de o alarme do celular tocar. O sol de São Paulo entra polido e claro pelas frestas da persiana da sala, cortando o ambiente em tiras geométricas de claridade. Antes de qualquer compromisso profissional na Montenegro, minha rotina exige disciplina física rigorosa. Ninguém alcança a excelência, a força e a plasticidade no pole dance de alto rendimento por acaso. A dança vertical exige uma quantidade absurda de força muscular bruta, flexibilidade de articulações, resistência cardiovascular e um domínio corporal cirúrgico. Cada acrobacia no aço exige meses de dor, calos e dedicação silenciosa. Caminho até o closet, troco de roupa e me visto com um conjunto esportivo justo de alta sustentação, composto por top escuro e legging de alta compressão. Prendo meus cabelos longos e escuros em um rabo de cavalo firme, pego minha garrafa de água e desço pelo elevador até a academia privativa localizada no subsolo do edifício. O espaço de treino do condomínio é amplo, moderno, totalmente climatizado e silencioso a esta hora da manhã. O cheiro sutil de ambiente limpo e o brilho dos equipamentos de musculação em aço escovado me trazem de volta para o meu eicho de foco. Coloco meus fones de ouvido, seleciono uma playlist com batidas fortes e ritmadas e dou início ao aquecimento articular. Movimento os ombros, punhos e joelhos com atenção quase religiosa. Em seguida, passo para a área de pesos livres e funcional. Começo com agachamentos pesados no Smith para fortalecer quadríceps, glúteos e adutores, garantindo a estabilidade necessária para as travas de perna no metal. Sigo para os exercícios específicos de dorsais e ombros: remadas curvadas, puxadas altas na polia e elevações laterais. É a musculatura das costas que me sustenta de ponta-cabeça na barra e me permite executar inversões limpas sem oscilar. Cada repetição faz meus músculos queimarem. O suor escorre pelo meu pescoço e peito, mas essa dor física é terapêutica. É o treino pesado da manhã que me dá a base atlética e a resistência necessárias para subir no palco à noite com a leveza e a precisão de quem parece flutuar no ar. Enquanto ajusto as anilhas de carga para a última série de abdominais na prancha declinada, a imagem de Rael Sampaio invade minha mente de forma inevitável. Não como a figura ameaçadora do clube, mas com toda a beleza física e a imponência avassaladora que ele carrega no dia a dia. Relembro o maxilar quadrado perfeitamente desenhado, os ombros largos que parecem preencher qualquer ambiente, as mãos grandes e firmes e aquele olhar azul-escuro que parece ler os pensamentos mais profundos da minha alma. Pergunto-me, por uma fração de segundo, como seria sentir a pressão do corpo dele contra o meu fora dos meus devaneios noturnos. Como seria se ele me olhasse não como a administradora séria e distante, mas como a mulher real, apaixonada e cheia de desejos que se esconde por baixo de todas essas camadas de controle e alfaiataria. Solto a barra de peso com um suspiro pesado que ressoa na academia vazia e passo a toalha de treino pelo rosto suado. — Foco, Naya... Foco no que importa — digo para mim mesma em um sussurro firme, encarando meu reflexo no espelho do treino. Entregar-me a um sentimento que não posso controlar é um risco que meu orgulho e minha prudência não podem aceitar. Rael é um homem inalcançável, focado no trabalho e dono de uma frieza estratégica legendária. Achar que ele poderia me enxergar com outros olhos é uma ilusão infantil que não cabe na vida da Dra. Nogueira. Finalizo o treino com uma sequência intensa e minuciosa de alongamentos no espaldar e mobilidade de quadril, garantindo que minhas articulações permaneçam flexíveis para os movimentos de maior amplitude. Meu corpo responde com precisão, aquecido e fortalecido. Subo de volta para o apartamento sentindo a musculatura cansada, mas com a mente muito mais centrada. Vou direto para o banheiro e ligo o chuveiro em uma temperatura quente e relaxante. Deixo a água abundante cair sobre minha cabeça e ombros, lavando todo o suor do treino e dissipando os últimos resíduos da tensão que acumulando desde a noite anterior. Passo o sabonete aromático pela pele, sinto os músculos relaxarem gradativamente sob o vapor do banho e fecho os olhos por alguns minutos, permitindo que o silêncio me acalme. Saio do banho, enxugo meus cabelos com a toalha e aplico meus cremes de cuidado diário. No closet, visto minha habitual armadura de trabalho: uma calça de alfaiataria preta impecavelmente cortada, uma blusa de seda clara com caimento suave e um blazer estruturado que marca meus ombros com elegância e autoridade. Prendo meus cabelos em um coque baixo e alinhado, faço uma maquiagem leve que realça meus traços sem exagero e calço meus sapatos de salto alto. Caminho até a cozinha e preparo uma xícara de café preto forte sem açúcar. Enquanto tomo pequenos goles encostada na bancada de granito, ligo o tablet corporativo para checar a caixa de e-mails do Grupo Montenegro. Há dezenas de mensagens acumuladas: relatórios de auditoria interna, planilhas de projeção orçamentária, solicitações de assinaturas e confirmações de reuniões de diretoria para o período da tarde. Esse é o meu universo civil, o território onde construí uma reputação sólida com inteligência, dedicação incansável e postura inabalável. Aqui, sou a profissional respeitada que ninguém consegue intimidar. Termino o café, coloco a xícara na pia e organizo meus pertences na bolsa de couro. Pego as chaves do carro, o tablet e a pasta de documentos. Antes de abrir a porta social para sair, paro por um instante diante do espelho do hall de entrada e faço uma última inspeção no meu visual. A Dra. Nogueira está perfeitamente montada, impecável e pronta para encarar mais um dia de exigências no mundo corporativo. Porém, no fundo do meu peito, o coração continua batendo em um ritmo acelerado por um único homem. E a plena certeza de que posso cruzar com Rael Sampaio a qualquer momento nos corredores ou nas salas de reunião da Montenegro faz a minha pele formigar em uma mistura inebriante de ansiedade e desejo.Naya Nogueira O trajeto no SUV de Rael seguiu em um silêncio calmo, acolhedor e profundamente confortável.Observando o fluxo dos carros pela janela enquanto a manhã de segunda-feira ganhava vida em São Paulo, deixei que meu corpo relaxasse contra o banco de couro. A rotina na Montenegro prometia um dia longo de reuniões de conselho e análises de fusão tributária, mas estar ao lado de Rael trazia uma sensação nova de leveza que eu não experimentava há anos.Olhei de relance para ele. Rael mantinha uma das mãos no volante e a outra repousada no console central, perto da minha. Ele vestia uma camisa polo escura bem ajustada ao peito amplo e uma jaqueta de couro que lhe dava um porte marcante e masculino. Não havia nada de formal ou profissional na forma como ele me olhava; era o olhar de um homem completamente apaixonado pela sua mulher.Ele não estava ali cumprindo ordens ou fazendo escolta corporativa. Rael era o meu homem, o meu parceiro. Um homem forte e protetor que fazia questã
Naya Nogueira A sensação de alinhar as coisas com Rael no corredor do Noctua ainda vibrava no meu peito enquanto eu dirigia de volta para o meu apartamento na madrugada de domingo.Eu passei anos acreditando que amar significava perder a voz, ser acuada ou ter a vida controlada por um homem brutal. O trauma do meu passado com o Renan tinha me ensinado a enxergar qualquer aproximação como uma ameaça em potencial. Mas Rael me provava, a cada olhar e a cada gesto, que ele era o oposto do medo.Ele era o meu porto seguro. Um homem bruto, tático e terrivelmente protetor, mas que sabia recuar, pedir desculpas e me respeitar como a mulher forte e independente que sou.Admitir que o amava não me assustava mais. Pelo contrário: trazia uma sensação de alívio e invencibilidade.A segunda-feira começou cedo. Levantei-me disposta, renascida e pronta para encarar a semana de reuniões decisivas no Grupo Montenegro.No banheiro do meu apartamento, preparei minha armadura de executiva sem exageros
Naya Nogueira A noite chega rápida. Recuso o carro da Vortex e assumo a direção do meu próprio veículo a caminho de Pinheiros. Se Rael quer me proteger, ele que faça isso respeitando o meu espaço.Quando entro pela porta de serviço do Noctua, o ambiente do clube está fervilhando. No camarim, ajeito meu figurino ousado e ajusto a máscara de veludo preta sobre o rosto. Encaro meu reflexo no espelho: cabelos pretos soltos em ondas, lábios marcados e um olhar de pura determinação.O momento da apresentação chega. As luzes vermelhas do salão diminuem, o gelo seco começa a espalhar uma névoa baixa pelo chão de madeira e o sistema de som do clube faz o ambiente tremer. A introdução de um blues moderno e pesado, com batidas graves de baixo e notas de guitarra arrastadas, toma conta de cada centímetro do salão.O locutor segura o microfone pesado e sua voz rouca ecoa bem alto pelas caixas de som, cortando o burburinho da plateia:— E agora, senhoras e senhores... preparem os seus corações!
Naya Nogueira Eu estou completamente, absurdamente e inevitavelmente apaixonada por Rael Sampaio.Admitir essa verdade para mim mesma não é mais uma ameaça ou motivo de pavor; é um fato consolidado que transformou meu mundo.Depois de tudo o que vivemos naquela suíte, de como ele me acolheu quando a lembrança do passado me assaltou e do modo como nos entregamos um ao outro, eu soube que não existia mais volta. Pela primeira vez em cinco anos, deixei as minhas defesas mais profundas caírem e permiti que um homem verdadeiro entrasse na minha vida. Rael não é apenas um protetor; ele virou o meu porto seguro, o homem em quem confio de olhos fechados.O problema é que esse mesmo homem é um ex-soldado obsessivo, acostumado a comandar cenários de crise e a ditar regras onde quer que pise.E eu continuo sendo Naya Nogueira. A mulher que construiu a própria carreira com punho de ferro e que não aceita ser tutelada por ninguém neste mundo.A manhã no meu apartamento começou sob o signo dessa
Rael Sampaio Abracei Naya com força, trazendo o corpo macio dela para o meu peito nu e acolhendo-a nos meus braços como o tesouro mais valioso do mundo. Beijei o topo da cabeça dela, sentindo o cheiro de baunilha dos seus cabelos.— Ninguém nunca mais vai encostar um dedo em você, minha linda — murmurei no ouvido dela. — Eu vou te proteger com a minha própria vida. Eu te amo, Naya.Naya afastou o rosto e me encarou com um brilho intenso e faminto nos olhos escuros. A vulnerabilidade do trauma fora substituída por um desejo ardente, represado por cinco anos de isolamento.— Chega de falar do passado, Sampaio — ela sussurrou, ajeitando a alça da lingerie preta e cravando as unhas nos meus ombros. — Eu passei anos me privando de viver. Agora eu quero você. E não quero que você tenha pena de mim.Ergui o corpo dela nos meus braços com facilidade e a levei para o quarto principal da suíte. Acomodei-a no colchão macio da cama king-size e me posicionei entre suas pernas, cobrindo-a com o me
Rael Sampaio O pavor nos olhos de Naya atingiu meu peito com a força de um projétil de grosso calibre.No instante em que vi o corpo dela travar de pânico contra a cama da suíte, meu instinto de combate disparou alertas vermelhos no meu cérebro. As pupilas dilatadas, a respiração presa, as lágrimas escorrendo pelo rosto e as mãos trêmulas me empurrando não eram birra ou timidez. Era a resposta real de um trauma antigo que acabara de ser despertado por um gatilho involuntário.Afastei-me no mesmo segundo. Recuei dois passos lentos, erguendo as mãos abertas para mostrar que ela estava totalmente livre e segura.— Naya? — chamei com a voz baixa, grave e suave, despojando-me de qualquer tom de comando. — Olha para mim, meu amor. Respira. Eu estou aqui. Ninguém vai te machucar.Ela demorou alguns segundos para sair daquele transe aterrorizante. As pupilas foram retornando ao tamanho normal à medida que o olhar dela focou no meu rosto. Naya piscou rápido, enxugou as lágrimas com as costa







