LOGINKyra
Acordei com um leve farfalhar de lençóis e o som distante de passos na madeira dos corredores. Levei um segundo para lembrar onde estava. Julie ainda dormia ao meu lado, com os cílios repousados nas bochechas e a boquinha levemente entreaberta. A respiração dela era leve… controlada. Um alívio tomou conta de mim. Nada de crises. Nenhum sinal de desconforto, estava tudo em paz. Me mexi com cuidado, tentando sair da cama sem acordá-la — mas quando ergui os olhos, vi a silhueta parada na porta. Então congelei. A camisa branca, os braços cruzados, o olhar cravado em mim. Inexpressivo. Frio e o bservador. Levantei num impulso contido, ajeitando o vestido amarrotado e tentando encontrar as palavras certas. Enquanto eu sentia meu peito subir e descer de ansiedade. — Senhor Blackthorne, me desculpe. Eu... — limpei a garganta, desviando os olhos — Eu acabei ficando, ela pediu uma história e... dormiu no meio. Eu não tive a intenção de invadir a privacidade dela. Ele ergueu uma das sobrancelhas, lentamente e me encarou sem ação. — Você acha que invadiu? — Sim... quero dizer, eu sei que não deveria. Não fazia parte das instruções. Me desculpe, era para ser apenas uma história, mas eu acabei dormindo com ela. Ele entrou no quarto, parando ao lado da cama, e olhou para a filha por alguns segundos. Depois, se voltou a mim. — Ela teve uma noite tranquila. Já fazia bastante tempo que ela não dormia tanto assim. Não era uma pergunta. Era uma constatação. Assenti, com cautela. — Sem crises, sem pesadelos — ele continuou, a voz baixa como seda fria. — Isso não acontece há... meses. Você está conseguindo. Espero que não vá embora. Engoli em seco. — Então... não está bravo por causa disso? Eu pen... — Você quebrou uma regra — ele interrompeu, olhando direto nos meus olhos. — Mas não vou te punir por isso. Não parece tamanha audácia. Minha respiração prendeu no peito. Ele deu um passo a mais. Perto o suficiente para eu sentir o perfume dele. Sutil, caro, envolvente. E tão perigoso quanto sua presença. — Você desobedeceu... com doçura. E isso é raro, senhorita Lystem. Gostei da parte que me desafiou, tem sorte que me pegou de bom humor. Um calor estranho se espalhou pelas minhas bochechas. Como se aquilo tivesse sido romântico, sendo que jamais seria. — Eu só quis cuidar dela, como uma criança deve ser cuidada, Blackthorne. Ela ainda é um bebê. Quer colo, carinho e historinhas para dormir. Desculpe, mas será que você entende? — E cuidou. Melhor do que eu esperava. Melhor do que eu permiti. Mas isso é bom, quando se trata de Julie. E... eu não entendo, Kyra. Eu não sei lidar com crianças e não sei cuidar da minha própria filha. — Nunca é tarde para aprender algo novo. Liam deu a volta por mim como um lobo que circula a presa — sem tocar, mas invadindo o espaço de forma invisível. — Talvez você não entenda ainda o que significa obedecer nessa casa. Nem o peso de uma exceção. Mas... — ele parou atrás de mim, tão perto que sua respiração tocou minha nuca —... você começa a aprender rápido, Kyra. Parece que já passou por tudo isso antes. E sabe o melhor? Sua disponibilidade. Fechei os olhos por um segundo. Uma parte de mim queria recuar. Outra... queria saber até onde aquilo ia. Ele se afastou então, com a mesma calma com que havia se aproximado. — A partir de hoje, você cuida dela até às oito da noite. Ou até depois que ela dormir. Depois disso, é comigo. — Com... você? — Mesmo sem querer, deixei um riso escapar. Ele se virou para a porta, sem olhar para trás. — Você me entendeu perfeitamente. — Eu não sou uma puta, Blackthorne. Não aceitei trabalhar aqui para aceitar seus caprichos. Não pense que você sabe sobre meu passado, porque nem eu mesma sei. Não queira usar nada contra mim. Porque estará perdendo seu tempo. Levantei e bati meu corpo contra seu peito. O cheio de uísque misturado ao perfume dele, me deixou sem ação e eu respirei fundo, sentando novamente. Liam Ela respondia com lágrimas nos olhos, como se aquilo a incomodasse. Mas, se incomoda é porque tem motivos e um passado que eu vou descobrir o mais rápido possível. Ela não entendia que despertou a porta do meu desejo desde que cruzou aquela porta. Ela tenta ser sexy, mas falha miseravelmente. Enquanto Julie, está se sentindo bem assim... — E eu não acho a senhorita uma puta. Exijo que me perdoe se entendeu desta forma. — Ela não me encarava, não mais. — Eu posso beber alguma coisa da sua mansão? Além de água e chá? — Sorri, mas uma risada sem graça, assim como ela estava. Eu deveria beber mais, assim teria coragem para fazer algo mais com ela. Me odeio por lembrar de Eva ao vê-la. Seus olhos negros e cabelos castanhos são as únicas coisas que diferenciam, mas o rosto... parecem gêmeas. Que merda. Ela poderia parecer com qualquer pessoa, manos com a mulher que eu mais amei na minha vida. — Pode ficar a vontade depois que minha filha dormir, Kyra. Pode beber, usar a piscina ou a jacuzzi. Sinta-se a vontade, sempre quando quiser. — Agradeço, mas me conformo com um copo de uísque. — Como quiser. — Liberei o espaço para ela passar e a deixei ir... Antes de subir para o meu quarto, olhei através da janela e ali estava ela. No jardim, agarrada a um sobretudo, com um copo de uísque em mãos, como se aquilo fosse possível esquentar sua pele. Antes de deitar, olhei meus e-mails por uma última vez e lá estava a maldita mensagem: "Olá, Liam. Não vamos prolongar o assunto. Eu e o avô de Julie, já demos entrada no processo pela guarda da nossa neta. Se abaixar a guarda será melhor. Você sabe disso. Você não tem tempo para a menina e vive nessa bolha depressiva que chama de vida e trabalho. Aceite e tudo será melhor para ela. Zinna" A maldita avó da Julie não cansa. Talvez eu deva mostrar a ela que não se mexe com filhas que tem pais por ela. Abrir o e-mail e lhe respondi, com a mais pura educação que ela mereceria: "Zinna, espero do fundo do meu coração que você e seu esposo vão se foder. E quer saber? Eu cansei de tentar ser gentil com vocês. Caso volte a falar sobre esse assunto, eu prometo acabar com a vida de vocês dois. Assim como estão desejando em silêncio. E por uma última vez eu vou repetir: Julie jamais irá com vocês, porque o que vocês fizeram com a vida da mãe dela, é pecado para serem pagos além de suas mortes. Seus desgraçados. Filhos da puta. Fiquem longe da minha filha, ou eu mesmo vou acabar com essa merda que vocês chama de vida. Liam Blackthorne" Todos carregam algum tipo de dor que corrói a gente por dentro. Mas, quando olho para Kyra, o mundo parece anular tudo que aconteceu. O rosto dela sempre me lembra o caos e ao mesmo tempo, eu vejo a cura diante meus olhos. Eu devo estar ficando louco, ou obcecado demais. Talvez seja apenas o afeito da bebida, que passará mais rápido do que eu espero.O Casamento Kyra Eu não imaginei que Liam fosse ser tão prestativo e rápido. Ele pensou em literalmente tudo. Eu não me preocupei com nada, além dos experimentos do vestidos, das provas do buffet e das músicas escolhidas, além dos arranjos que ficariam na entrada principal. Eu não queria que fosse nada grande demais, mas Liam fazia questão de mostrar para todos o quanto ele estava feliz. Quem sou eu para impedir a felicidade do meu amado! O maquiador estava dando os últimos retoques no blush — eu não quis nada extravagante, mas insistem que hoje é o meu dia. O dia mais importante e inesquecível da minha vida. Estava ansiosa, uma parte de mim queria casar logo e sair dali correndo. A outra parte queria que o mundo soubesse que Liam Blackthorne vai ser meu esposo, para todo o sempre. Queria gritar que eu o amo, mas a única coisa que eu conseguia sentir era nervosismo. Minhas mãos suando sem parar, minha mente dizendo que eu estou esquecendo de algum
Kyra Despertei ainda sentindo meu corpo cansado. A cabeça doendo enquanto eu tentava levantar ou processar alguma coisa. — Bom dia, tia Kyra. Você tá bem? Julie estava sentada na poltrona ao lado da cama, com seu coelhinho no colo e as mãos inquietas. — Ela estava esperando para fazer o desjejum com você. Se recusou a ir comigo, infelizmente. — Liam estava concentrado no notebook. — Bom dia meu amor.— Que horas são? Eu dormi tanto assim? — Quase dez, mas eu não estou com tanta fome. Meu pai me deu torradas com mel, então eu posso esperar. — Eu vou me arrumar e a gente desce, tudo bem? — Ela assentiu e saiu correndo para a varanda.Liam estava focado demais na planilha que estava revisando. — Alguma coisa urgente? — Me aproximei dele sutilmente, sem invadir seu espaço. — Acho que vamos ter que voltar hoje mesmo. Surgiu algumas pendências na empresa e eu tenho que estar presente dentro de 48 horas. — Estava nítido a irritação em seu olhar. — Me desculpa, eu prometo que vamos v
Liam Kyra acordou cedo, abriu as cortinas e me evitou pela manhã. Descemos juntos para o café da manhã. No almoço, ela saiu com Julie para explorar a praia, eu fiquei apenas observando de longe o quanto elas duas se completam. — É uma bela vista, não é? — A senhora ao meu lado perguntou, até então eu não havia notado sua presença ali. — É sua esposa e sua filha? — Minha noiva e minha filha — respondi ainda preso na paisagem que eu nunca imaginei ver a olho nu. — É realmente uma bela vista. — E o que está esperando para casar com ela? — A pergunta me tocou a fundo, mesmo eu nunca tendo parado para pensar nisso. — Sua filha gosta dela e pelo que seus olhos dizem, você também a admira, além de amá-la também, suponho.Antes que a conversa se tornasse longa, Olívia apareceu, mais uma vez. Tudo calculado, como sempre. — Vocês já se conhecem? — Ela perguntou, colocando as mãos nos ombros da senhora que sorria para mim. — Acabamos de nos conhecer e estávamos falando o quando essa vista
Liam Kyra e Julie decidiram que queriam ir para uma ilha e aqui estamos nós três, em Mykonos, na Grécia. Nós nos hospedamos no Myconian Villa Collection, em Elia Beach. A médica da Julie veio conosco, não posso arriscar a vida da minha filha enquanto estamos vivendo. Por precaução, e como já são amigas, decidi convidá-la e pagar bem mais do que o de costume em dias normais. Kyra estava à vontade, ao menos é o que ela deixa transparecer. Em alguns momentos a vejo com o olhar distante, como se buscasse por algo que deixou no passado. E dessa vez, a mesma coisa estava se repetindo. Ela olhava o mar através da janela, respirava leve e pensativa. — Então… já decidiu por onde começar? — Sabe, Liam, eu estava pensando em como as coisas podem mudar de uma hora para a outra. Há alguns meses atrás eu tinha certeza que eu iria morrer sem nenhuma piedade. Mas eu te conheci, você me apresentou Julie e… — ela não completou a frase e as palavras ficaram pairando no ar. — E tudo isso só acont
Alguns dias depois Kyra Os dias felizes estavam contados. Os advogados de Liam estavam no andar debaixo, com papéis nas mãos e conversando sobre algo inaudível — mas eu sei exatamente sobre o que era: Marcos. Julie estava arrumando a mochila que iríamos levar para a viagem, enquanto eu… eu estava com o coração aflito com tudo que aconteceu. — Kyra? Eles já foram embora. — Liam estava parado em frente a porta, com os braços cruzados e uma expressão irritada. — Eu… — quis dizer alguma mas nada saia. — Liam, não era pras coisas tá acontecendo desse jeito. Você só agiu daquela forma por minha causa. Eu não quero que leve a culpa por algo que eu trouxe pra sua vida. Olhei para a janela, tentando reunir forças para resolver o que eu pudesse. — Nada disso é culpa sua. Ele sempre foi um erro que veio junto com a irmã. Digamos que você foi essencial para o que eu queria. Acredite, nada disso é culpa sua. Eu nunca deixaria alguém tocar na pessoa que eu amo e você é essa pessoa. — Eu sei
Liam Decidi que não iria mais insistir naquele assunto, mesmo algo dentro de mim gritando para arrancar uma resposta dela. — Tá legal. Me desculpa, às vezes eu sou mesmo uma idiota e não percebo as coisas boas que tenho ao meu redor. — Sua tocou a minha e eu senti meu corpo reagir no mesmo instante. — Eu quero muito tá com você, eu só não quero ser um fardo. — Você nunca foi um fardo, sabe disso. Parei o carro ainda longe de casa, Julie me olhou sonolenta mas não perguntou nada. — Eu quero te dizer que eu… que eu acho muito injusto você querer ir para longe de onde eu possa te ver todos os dias ao acordar. Sabe que eu… — Liam, você não vai me ver acordar todos os dias, assim como eu também não vou sumir do dia pra noite. Afinal, do que está com tanto medo? — Seu olhar me deixava confuso, principalmente quando ela fixava seus olhos nos meus em um momento tão íntimo como esse. — Não vou sumir da sua vida nem que agora você quisesse isso, tá? Kyra me faz perceber que eu semp







