LOGINElizabeth
O que ficou em mim.
— Olha, Mel… aqui está perfeito!
Falei com um sorriso orgulhoso, apontando para a prateleira no canto da sala. Os discos e CDs estavam organizados com cuidado, exatamente como eu sempre imaginei. Um pequeno refúgio dentro do meu novo apartamento. Meu apartamento.
— Ficou a sua cara — Mel respondeu, se aproximando para observar. — Retrô, aconchegante e cheia de personalidade. Igualzinho a você.
Cruzei os braços, satisfeita. Aquele cantinho representava muito mais do que decoração. Representava conquista. Esforço. Sacrifício.
— Conquistado com muito esforço… e com as economias dos meus pais — falei, a voz suavizando. — Vou trabalhar duro para compensá-los. Tudo o que fizeram por mim.
Depois da conclusão da faculdade e das especializações, decidi que era hora de sair de casa. Meus pais continuaram no mesmo bairro, um lugar mais tranquilo, menos movimentado, do jeito que eles gostam. Eu precisava dar o meu próprio passo. Precisava provar, principalmente para mim mesma, que conseguiria.
Formei-me em Psicologia. Sempre gostei de ouvir, compreender, acolher. Mas também sempre tive uma queda por massoterapia. O toque, o cuidado, a conexão silenciosa entre corpo e mente. Consegui um emprego numa clínica bem movimentada, onde atuo nas duas áreas. Psicologia e massoterapia, lado a lado. O salário é bom. Um alívio. Uma mão na roda para esse começo.
— Você conseguiu, Liz — Mel disse, sentando no sofá. — Olha tudo isso. Novo apartamento, emprego bom… orgulho define.
Sorri, mas por dentro algo sempre apertava.
Hoje, começo um novo capítulo.
Sim, a vida é feita de capítulos. Literalmente um livro.
Dez anos depois da partida do Alex, o meu coração ainda dói. Dói de um jeito mais silencioso, mais contido, mas dói. Aprendi a viver com essa dor. Ela virou companhia. Não incomoda o tempo todo, mas nunca vai embora.
Me senti abandonada.
E foi difícil seguir.
Difícil lidar com a ausência, com a lacuna que ele deixou, com todas as perguntas sem resposta. Mas eu sobrevivi. Estudei. Me formei. Cresci. E agora… agora continuo seguindo.
Não sei se ainda o perdoei completamente. É estranho admitir isso após tanto tempo. Éramos crianças. Adolescentes tentando entender o mundo. Mas eu sofri demais para simplesmente dizer que está tudo bem.
Mel surgiu novamente na sala, pulando quase de animação.
— Amiga! — disse alto. — Vamos sair para beber hoje à noite?
Revirei os olhos, rindo.
— Mel…
— Amanhã eu volto para casa — ela continuou, rindo também. — Não vou ficar morando aqui com você, infelizmente. Já faz uma semana que trabalhamos duro arrumando esse AP. A gente merece comemorar!
Suspirei, sentindo o peso da semana inteira cair sobre os ombros.
— Que tal… — falei devagar — ao invés de sair, pedirmos uma pizza e assistir a um filme?
Ela me olhou com falsa reprovação.
— Você está cansada mesmo, né?
— Juro que estou só o pó — respondi, jogando-me no sofá. — Foi muito esforço a semana toda.
Mel riu e levantou as mãos em rendição.
— Combinado, então. Pizza, filme e pijama.
Sorri. Às vezes, era exatamente disso que eu precisava. Simplicidade. Segurança. Silêncio.
Enquanto a noite começava a cair do lado de fora, olhei em volta do meu novo lar e pensei que talvez — só talvez — esse fosse o começo de algo diferente.
Eu não sabia ainda, mas alguns capítulos não terminam.
Eles apenas esperam o momento certo para continuar.
Na manhã seguinte, a luz entrava suave pelas cortinas do quarto. Segunda-feira. Dia de começar oficialmente a nova rotina. Enquanto eu me arrumava, Mel estava sentada na beira da cama, me observando com aquele olhar avaliador que só melhor amiga tem.
Vesti o jaleco branco com cuidado, ajeitei o cabelo e conferi no espelho se tudo estava em ordem.
— Amiga… — Mel começou, cruzando os braços e arqueando a sobrancelha — você está linda nesse jaleco branco.
Sorri de canto, sem dar muita atenção.
— Mas, veja só… — ela continuou, levantando-se e andando ao meu redor como se estivesse me analisando. — Uma pequena dessa, com curvas maravilhosas, um bundão desse, cabelos longos até a curvatura do bumbum, olhos negros maravilhosos. E esses lábios carnudos?
Virei-me rapidamente, sentindo o rosto esquentar.
— Melissa! — reclamei, rindo sem graça.
Ela abriu um sorriso malicioso.
— Meu amor, logo, logo um médico cai na sua rede.
— Ah, Mel, para… — respondi, envergonhada. — Não tenho cabeça para essas coisas.
Ela fez uma careta exagerada.
— Liz, você vai morrer virgem? — disse sem pudor algum. — Minha querida, você já tem vinte e cinco anos. A vida não espera. Você sabe disso, né?
Revirei os olhos, tentando encerrar o assunto.
— A gente está atrasada — falei, pegando a bolsa. — O táxi já está esperando.
Ela riu alto.
— Tá bom, dona séria. Mas depois não diga que eu não avisei.
Descemos juntas. Minutos depois, Mel se despedia com um abraço apertado, prometendo voltar em breve. E, pela primeira vez desde a mudança, fiquei sozinha de verdade.
A clínica ficava numa rua movimentada. Moderna, clara, elegante. Cumprimentei a recepcionista, segui para a minha sala, coloquei a bolsa na poltrona ao meu lado e respirei fundo.
O meu primeiro atendimento foi com uma senhora ansiosa, mãos trêmulas, olhar cansado. Sentei-me à frente dela, escutei com atenção, sem pressa. Deixei que falasse. Sempre deixo.
Enquanto ela desabafava, percebi o quanto eu realmente estava no lugar certo. Ouvir, acolher, compreender… era ali que a minha sensibilidade fazia sentido. Mais tarde, no atendimento de massoterapia, as minhas mãos trabalhavam com cuidado, respeitando cada limite, cada tensão do corpo que carregava histórias invisíveis.
Eu entregava-me ao trabalho.
Era meu refúgio.
Entre um atendimento e outro, fui até a copa beber água. Apoiei as mãos na pia. Foi quando, sem aviso, um pensamento atravessou-me.
Alexander.
O nome surgiu do nada, como sempre acontecia. Um rosto. Um sorriso antigo. Uma noite de chuva. O meu peito apertou, mesmo após tanto tempo.
Balancei a cabeça, tentando afastar aquilo.
— Foco, Elizabeth — murmurei para mim mesma.
Voltei para a sala, ajeitei o jaleco e segui com o dia. Mas, por mais que eu tentasse, havia algo no ar. Uma sensação estranha, quase um pressentimento, como se o passado tivesse se movido… ainda que eu não soubesse.
E segui trabalhando, sem imaginar que alguns capítulos, quando começam a se mexer, não pedem permissão.
O último atendimento da tarde foi diferente.
A recepcionista bateu levemente à porta antes de anunciar:
— Elizabeth, o seu próximo paciente já chegou.
Assenti e respirei fundo antes de chamá-lo. Quando a porta se abriu, vi um senhor de aparência simples, cabelos grisalhos bem cuidados, postura ereta apesar do olhar cansado. Ele entrou devagar, como se carregasse mais peso do que o corpo demonstrava.
— Pode se sentar, por favor — falei com suavidade.
Ele obedeceu, apoiando as mãos sobre os joelhos.
— Meu nome é Augusto — disse. — Não sei muito bem por onde começar.
Sorri de leve.
— Não precisa saber. Comece como conseguir.
Ele suspirou profundamente, como quem se prepara para atravessar algo antigo.
— Perdi o amor da minha vida quando era jovem — disse de uma vez, sem rodeios. — Não porque ela morreu… mas porque o tempo nos separou.
O meu coração deu um pequeno salto, silencioso.
— Às vezes, isso dói mais — respondi com cuidado.
Ele assentiu.
— Eu precisei ir embora. Trabalho. Responsabilidades. Promessas de um futuro melhor. Disse a mim mesmo que voltaria. Que era só uma fase. — Sorriu triste. — Nunca voltei.
Fiquei em silêncio, permitindo que ele continuasse.
— Casei. Tive filhos. Construí uma vida inteira. — Ele me olhou nos olhos. — Mas nunca consegui amar da mesma forma. Nunca fui injusto com a minha esposa… mas também nunca fui completo.
Senti a garganta apertar.
— E agora? — perguntei, com a voz firme apesar do turbilhão interno.
— Agora? Infelizmente ela faleceu. Há poucos dias, para ser mais preciso — disse ele, baixinho. — E eu descobri que algumas despedidas nunca acontecem de verdade. Elas ficam pendentes… esperando.
Aquela palavra atravessou-me como um golpe. Pendentes.
— O que o trouxe até aqui hoje, Augusto? — perguntei, respirando fundo.
— O arrependimento — respondeu sem hesitar. — Não por ter ido embora. Mas por nunca dizer tudo o que sentia quando ainda havia tempo.
As minhas mãos ficaram frias.
— Às vezes — falei com cuidado — a vida não nos dá escolhas claras. Mas sempre nos deixa sentimentos verdadeiros.
Ele sorriu, agradecido.
— Se eu pudesse voltar no tempo, teria lutado mais — disse. — Nem que fosse para perder… mas consciente de que tentei.
O silêncio que se seguiu era denso, respeitoso.
— O senhor ainda pode se perdoar — falei, mesmo sabendo o quanto aquelas palavras eram difíceis. — Honrar esse amor vivendo com verdade agora.
Ele levantou-se devagar ao final da sessão.
— Obrigado, Doutora— disse. — Não sei por quê, mas senti que você me entendeu de um jeito diferente.
Forcei um sorriso.
— Algumas histórias… a gente reconhece sem precisar viver tudo igual.
Quando ele saiu, permaneci sentada por alguns minutos, olhando para o nada.
Era como se eu tivesse escutado a minha própria história contada com outras palavras. A distância. A espera. O amor que não morreu, apenas ficou suspenso no tempo.
Alex surgiu de novo nos meus pensamentos, sem pedir licença.
Será que ele também carregava arrependimentos?
Será que, como Augusto, pensava no que não foi dito?
Fechei os olhos por um instante.
Talvez algumas histórias de amor não existam para terminar.
Existem para ensinar.
E, naquele momento, senti que algo dentro de mim estava sendo lentamente despertado.
ElizabethO Horror continuouEu continuava agarrada a Hector, incapaz de me afastar. O medo ainda me dominava, e, embora tentasse assentir, confiar em sua promessa de que aquele homem jamais voltaria a tocar em mim, minha garganta estava tão apertada que não consegui pronunciar uma única palavra.Eu queria acreditar nele. Queria ter a certeza de que tudo havia terminado, de que aquele pesadelo finalmente chegara ao fim.Mas o pavor persistia. Meu corpo continuava tenso, os músculos doloridos e as pernas tão enfraquecidas que eu mal conseguia me sustentar. A cada tentativa de respirar fundo, as lembranças daqueles momentos retornavam, provocando novos tremores.Apertei o terno de Hector entre os dedos e permaneci junto dele, buscando uma segurança que minha mente ainda não conseguia aceitar por completo.Foi então que ouvi a voz do agressor.Meu corpo reagiu imediatamente. Enrijeci nos braços de Hector, e o pouco de tranquilidade que começava a recuperar desapareceu. Não precisei me vi
ElizabethAssédio - O HorrorMeu medo crescia a cada segundo, misturando-se à repulsa que aquele homem me provocava. Eu só queria me afastar, sair daquele corredor e voltar para perto das pessoas, onde não precisaria suportar sua presença tão próxima. Contudo, forcei-me a controlar a respiração e reuni a pouca firmeza que ainda conseguia encontrar dentro de mim.— Estou acompanhada. Com licença — murmurei, tentando manter a voz firme enquanto dava um passo para o lado, na esperança de me esquivar dele sem provocar uma reação ainda pior.Virei-me para sair.Não consegui dar sequer dois passos. Os dedos dele se fecharam ao redor do meu antebraço com tanta força que senti uma pontada de dor.— Calma, princesa. — ele sussurrou, me forçando a girar brutalmente. Tentei puxar o braço, primeiro com cuidado, na esperança de que ele entendesse o recado e me soltasse.Ele apertou ainda mais.— Me solte — ordenei, agora sem esconder a irritação.O homem soltou uma risada baixa e me obrigou a gir
ElizabethAssédioA noite estava belíssima. O complexo industrial, que horas antes havia sido palco de uma inauguração grandiosa, continuava envolvido por uma atmosfera de celebração, embora o brilho inicial do evento começasse, pouco a pouco, a ceder espaço ao cansaço da madrugada.As luzes estrategicamente posicionadas sobre as estruturas metálicas do galpão projetavam reflexos dourados sobre o piso impecável, enquanto o murmúrio das conversas se misturava ao som discreto da música ambiente. O aroma de champanhe, uísque, bebidas sofisticadas e perfumes caros ainda pairava no ar, contrastando com o cheiro característico de metal, máquinas novas e materiais industriais que parecia impregnado nas paredes daquele lugar.Tudo estava acontecendo exatamente como Alex havia sonhado.Naquela noite, ele não estava apenas inaugurando suas fábricas. Estava dando vida a um sonho que, durante muito tempo, existira apenas em sua mente, alimentado por noites intermináveis de trabalho, decisões dif
ElizabethO que deveria permanecer sob sigilo, o mundo inteiro soubeAlexander havia sido simplesmente maravilhoso.Enquanto ele discursava diante de todos aqueles convidados, eu mal conseguia disfarçar o orgulho que sentia. Havia algo profundamente fascinante na maneira como ele se portava sobre aquele palco: a postura firme, a voz segura, a escolha precisa das palavras e a serenidade de quem sabia exatamente o que estava fazendo. Alex não precisava elevar o tom para conquistar a atenção de ninguém. Sua presença, por si só, era suficiente para fazer com que todos se voltassem para ele.Eu o observava com o coração transbordando de amor, admirando não apenas o empresário extraordinário que todos enxergavam, mas também o homem que conhecia quando as luzes se apagavam, quando os aplausos cessavam e quando não havia ninguém por perto para testemunhar suas atitudes.Era esse homem que me encantava.O homem que carregava uma força imensa sem precisar usá-la para diminuir ninguém. Que havia
AlexanderA Inauguração - Aquele que se tornou amigoEle estava com os braços cruzados diante do peito, observando tudo com uma expressão que parecia empenhada em preservar a habitual segurança. Hector sempre tivera aquela maneira particular de se portar, como se poucas coisas fossem capazes de surpreendê-lo e menos ainda pudessem fazê-lo perder o controle da situação. No entanto, o discreto sorriso que se desenhava no canto de sua boca denunciava que, por trás daquela postura séria, ele estava se divertindo com tudo aquilo.Quando nossos olhares se encontraram, ele ergueu ligeiramente as sobrancelhas e inclinou a cabeça, num gesto tão sutil quanto expressivo. Não precisei de palavras para compreender a pergunta silenciosa que me dirigia: eu pretendia prolongar aquela cerimônia por mais uma hora ou finalmente estava prestes a encerrar aquela sequência de homenagens?Sorri, incapaz de esconder o divertimento.Hector tinha esse efeito sobre mim. Mesmo em ocasiões importantes, quando tud
AlexanderA inauguração - Pessoas QueridasO aplauso irrompeu pelo ambiente antes mesmo que eu terminasse de pronunciar o nome do meu pai. O som das palmas se espalhou pelo espaço amplo, misturando-se às vozes dos convidados e reverberando contra a estrutura imponente do complexo industrial. Por um breve instante, permaneci observando-o, atento à maneira como receberia aquela homenagem.Meu pai ficou imóvel por alguns segundos. Havia algo de profundamente comovente naquela pausa, como se ele precisasse de um momento para assimilar a dimensão do que estava acontecendo. Então, recompôs a postura, ajeitou discretamente a lapela do paletó e ergueu o queixo, tentando preservar a habitual compostura diante de todos aqueles olhares.Mas eu o conhecia bem demais para não perceber o que aquele gesto contido escondia.Sob a expressão séria e o semblante de um homem acostumado a enfrentar desafios sem demonstrar fraqueza, havia uma emoção que ele dificilmente permitiria transparecer por completo







