MasukPOV: ELOWEEN
O silêncio que se seguiu foi denso o bastante para sufocar. Kaeros me encarava incrédulo, o peito subindo e descendo rápido demais, gotas de suor frio escorrendo pela têmpora, escorrendo por um rosto que, segundos antes, era só pedra.
— Você... — Rosnou por entre as presas, os punhos cerrados tão forte que os nós dos dedos embranqueceram. — Não...
Balançou a cabeça, um sorriso amargo, quase quebrado, torcendo os lábios.
— Você não vai me tomar isto também... — Cuspiu, feroz, avançando.
Cambaleei, os saltos escorregando na escadaria do altar, ele me segurou pelo cotovelo antes que eu caísse, o aperto forte o bastante para queimar.
— Kaeros... — sussurrei, a voz reduzida a um fio. — Eu não sei o que...
— Quieta! — O rugido me atravessou até o osso. — Você não é digna de falar. Não é digna do meu lobo.
O aperto em meu braço aumentou, sem ferir, mas o suficiente para deixar marcas brancas na pele. Seus olhos ardiam, tanto ódio que doía olhar diretamente para eles, e no fundo daquele ódio, algo mais, um lampejo que eu não sabia nomear.
— Não é digna de estar ao meu lado como Luna!
— Me solta! — Puxei o braço, inútil contra a força dele.
— Por que a Deusa faria isso comigo? — Seus olhos desceram até meus lábios, demorados, depois, o nariz se contraiu em desgosto, antes de me soltar bruscamente e enterrar as mãos nos próprios cabelos.
Foi então que sua postura mudou.
Ele não gritou. Não se moveu. Apenas ficou ali, absolutamente imóvel, a respiração pesada sendo a única prova de que algo por dentro dele estava sendo contido no lugar à força. O silêncio que emanava dele era mais aterrador do que qualquer rugido, uma quietude de predador calculando o próximo movimento, cada músculo tenso sob o controle de ferro de quem já matou vezes demais para perder a compostura por acidente.
— Maldita Lua — murmurou, baixo, cada sílaba pesando como uma sentença. Não era um grito de descontrole. Era o som de um homem processando a própria ruína em tempo real, e decidindo, ali mesmo, que não permitiria que ninguém o visse cair.
Estremeci com o gelo naquela voz, mais perigosa contida do que jamais seria gritando. O azul-acinzentado de seus olhos tinha escurecido, quase negro, a linha vertical cortando as íris como uma fenda para o abismo.
Por que ele me odiava assim? O que eu tinha feito além de existir?
— Eu... — Minha voz falhou. Eu estava tremendo, e não conseguia parar. Abaixei os olhos para as próprias mãos, sacudindo sem controle, o coração martelando tão alto que eu tinha certeza de que todo o salão podia ouvir. Ao redor, dezenas de olhos arregalados me julgavam, se deliciando com o que estava acontecendo.
Mas... o que diabos estava havendo ali?
— Não sei do que está falando — forcei as palavras, erguendo o queixo apesar do tremor. — Eu não pedi para me casar. Não pedi para ser arrastada até este altar e...
— Quieta. — Sua voz saiu diferente dessa vez, rachada ao meio, metade homem, metade fera. Cobriu os olhos com a palma da mão enorme, a língua deslizando devagar sobre as presas já projetadas. — É claro que você tinha que ser minha maldição.
Me calei. O ar em volta de Kaeros vibrava, pesado, elétrico, cortante, quase impossível de respirar. Foi então que seus olhos pararam em mim, não no meu rosto, mas na curva do meu ombro esquerdo, onde a queimação antiga marcava minha pele desde a noite do duelo. Ele fixou ali um segundo a mais do que deveria, a respiração presa, algo cruzando aquele olhar que não era mais só ódio.
Então, tão rápido quanto surgiu, desapareceu. Seu maxilar travou de novo, a máscara de frieza absoluta voltando ao lugar como se nunca tivesse vacilado.
— Alfa? — chamou o oficiante, hesitante. — Está tudo bem?
Devagar, seus olhos se abriram por completo. Frios. Cruéis. Definitivos. Ele se recompôs, cada músculo do rosto se realinhando em algo impenetrável, e quando voltou a falar, sua voz trovejou por todo o salão, alta, clara, cada palavra um veredito final:
— Perante as testemunhas... — Seu olhar caiu sobre mim, duro, fundo, definitivo. — Eu, Alfa de conquista, Kaeros Moonreaver, rejeito você, Eloween Everlight, como minha Luna!
O mundo parou.
Por um segundo eu jurei ter ouvido errado.
Ele estava me rejeitando?
Então a dor chegou.
Começou no peito, um aperto tão brutal que me fez cambalear, a mão voando instintivamente para o próprio esterno, como se eu pudesse conter algo que estava se rasgando por dentro. As pernas cederam. Caí de joelhos com um baque seco, curvando o corpo, abraçando o próprio abdômen, e senti, juro que senti, algo dentro de mim sendo arrancado pela raiz, fibra por fibra, em um arranco que não tinha nada de físico e, ainda assim, queimava fundo, cortante, correndo por cada veia.
— Dói... — gemi, sem fôlego, as lágrimas descendo quentes sem controle pelo rosto. Ergui os olhos para ele, que me encarava com o maxilar travado. — Faça parar... por favor... está doendo demais...
Um uivo agonizante subiu do fundo do meu peito e explodiu na minha garganta, desesperado, suplicante, um som que eu nunca soube que era capaz de fazer.
Minha loba estava gritando. Chorando.
Eu não deveria sentir isto. Kaeros não era meu destinado, não podia ser. Eu já tinha conhecido o meu par, e ele me abandonara, covarde demais para vir atrás de mim, covarde demais até para se despedir, minha loba se enterrou tão fundo na minha alma que jurei nunca mais senti-la se mexer daquele jeito. Enterrei o luto junto com ela.
Então por que isto doía como se eu estivesse perdendo tudo de novo?
Meu corpo suava frio, as garras romperam a pele das pontas dos dedos sem aviso, as presas se projetaram parcialmente à mostra. Cravei as unhas no mármore gelado do altar, tentando me ancorar em alguma coisa, respirando com dificuldade, cada inspiração mais pesada que a anterior.
— Não... — sussurrei, a voz partida ao meio. — Isto não pode ser real.
Um murmúrio começou a se erguer entre os convidados, cada vez mais alto, vozes se sobrepondo, dedos apontando. Alguém gritou algo que não consegui entender por cima do zumbido nos meus ouvidos. E então, no meio da multidão, uma mulher encapuzada avançou um passo, os olhos fixos em mim com um choque que não tinha nada a ver com curiosidade.
— Impossível... — a voz dela cortou o murmúrio geral, trêmula. — Essa marca...
Kaeros virou a cabeça na direção dela em um movimento tão brusco que rosnou baixo, um aviso puro. A mulher recuou, engolindo o resto da frase.
Ergui o rosto para ele em meio às lágrimas e ao suor, o ódio subindo pela garganta junto com a dor, junto com uma pergunta nova que eu nem sabia como formular.
— Você não é ele... — As palavras saíram de um lugar que eu não reconhecia, mais fundo que a memória, mais fundo que qualquer razão que eu pudesse nomear, como se algo selvagem e esquecido dentro de mim soubesse de uma verdade que minha mente se recusava a lembrar. — Não é ele!
Minha visão começou a escurecer nas bordas, o peso da rejeição cobrando seu preço final, quando braços fortes me ampararam antes que eu tocasse o chão. Seu cheiro me envolveu por inteiro, madeira queimada e tempestade salgada, um cheiro que eu já odiava e já reconhecia demais. Lutei contra o escurecimento, contra o próprio corpo cedendo, só para ouvir, baixo, quase quebrado, quase só para si mesmo:
— Como você ainda consegue me destruir assim?
POV: KAEROS“Ela mexe com você...” A voz de Reigan surgiu em meio à névoa dos meus pensamentos, baixa e carregada daquela maldita satisfação que sempre surgia quando encontrava uma fraqueza minha. “Não entendo.”Seu focinho apareceu ao meu lado, se aproximando do braço de Eloween para farejá-la.“Por que o sangue dela é tão doce? Por que é tão difícil...”Meu maxilar se contraiu.— Resistir? — ponderei, sem desviar os olhos do rosto de Eloween, amassado contra minha pelagem.Ela dormia profundamente, exausta, o corpo pequeno protegido contra o meu. Seus dedos permaneciam infiltrados entre meus pelos, agarrados com uma força surpreendente, como se até durante o sono temesse que eu a deixasse.— Era forte o que tínhamos... sentíamos...“Era?” Reigan se aproximou ainda mais da superfície da minha mente, surgindo ao meu lado e se sentando sobre as patas traseiras. Seus olhos permaneceram fixos em Eloween, atentos demais, como se também tentasse encontrar uma resposta para aquilo que nos a
POV: ELOWEENAcariciei lentamente sua pelagem, sentindo os fios macios deslizando sob meus dedos. Apoiei a cabeça em seu dorso, deixando o calor me envolver enquanto observava as chamas dançando diante de nós.— Eu não o entendo...Minha confissão saiu em um murmúrio quase perdido.O enorme lobo moveu apenas os olhos, me observando de canto.Engoli em seco.Havia algo naquela criatura que me confundia ainda mais do que o próprio Kaeros.— Por que tratar assim uma inimiga que diz odiar tanto?Minha mão permaneceu sobre sua pelagem, esperando por alguma resposta.Ele permaneceu em silêncio, fitando-me com uma intensidade quase desconcertante, os olhos fixos nos meus como se pudesse enxergar através de cada defesa que eu ainda tentava manter.— Sei que não me suporta... — continuei, incomodada com aquele silêncio
POV: ELOWEENMinha voz ecoou pela caverna.As costelas protestaram imediatamente, uma fisgada brutal atravessando meu corpo. Tremi de forma descontrolada, tentando suportar a dor sem desviar os olhos dele. Mas não consegui impedir.Uma lágrima escapou.Depois outra.Deslizou lentamente pela minha face, se acumulando no queixo antes de cair sobre a pele.Kaeros acompanhou o movimento em silêncio.Seu olhar desceu até a lágrima.Depois voltou para os meus olhos.— Eu não vou ser sua serva de cama também. — Meus lábios tremeram, e seus olhos se semicerraram. Por um breve instante, notei algo vacilar em seu olhar, uma sombra rápida que desapareceu antes que eu pudesse compreender. — Não sou um brinquedo. Não sou uma das suas cadelas da alcateia... não sou a...— Tiffany? — Ele arqueou uma sobrancelha, enqua
POV: ELOWEENVirei lentamente o pescoço, lhe oferecendo mais espaço, embora meu coração gritasse que eu estava brincando com algo que jamais conseguiria controlar.— Acabe de uma vez com o seu ódio... — murmurei, quase sem voz. — Se livre de mim...Ele travou por um momento, tenso.— Não!O rugido explodiu de seu peito, fazendo meu corpo inteiro estremecer. Sua mão fechou-se sobre meu maxilar em um gesto brusco, mas o aperto se suavizou quase imediatamente, como se até em meio àquela fúria ele se recusasse a me machucar.Suas pupilas estavam nubladas, clareadas apenas pelo cintilar tempestuoso do azul-acinzentado.— Sua vida está presa à minha, Ômega. — A voz saiu rouca, carregada de uma possessividade feroz. — Você ficará ao meu lado para ser odiada por mim pelo resto das nossas vidas!— O quê? — Arregalei os olhos.Mas Kaeros esmagou novamente seus lábios contra os meus, sufocando qualquer pergunta antes que pudesse es
POV: ELOWEENAquele beijo… tão familiar e tão único que doía.Kaeros não beijava. Ele punia. Descarregava em minha boca toda a raiva, o ódio, a fome que vinha acumulando, esmagando meus lábios sem piedade, roubando o gosto deles como se fosse dele por direito. Sua língua invadiu fundo, quente, insistente, varrendo cada canto, reivindicando cada gemido antes mesmo de eu conseguir soltá-lo. Roubou meu ar. Não deixou espaço. Não deixou trégua.Rosnou contra minha boca, o som vibrando nos meus dentes. Mordiscou. Sugou. Os dedos se cravaram na minha nuca, infiltraram nos fios e puxaram com força, aprofundando o beijo até o limite do que eu conseguia aguentar.Era bruto. Possessivo. Sem hesitação. Sem suavidade. Apenas domínio puro.E eu me rendi.O toque dele queimava, marcando a pele como se quisesse deixar rastros
POV: ELOWEENErgui ainda mais o queixo, nossos lábios se roçaram em um contato breve e perigoso. Um formigamento percorreu minha boca, fazendo minha respiração falhar. Nossos ritmos se misturavam, contidos e cada vez mais difíceis de controlar, enquanto o calor da pele de Kaeros parecia atravessar o frio que ainda dominava meu corpo.Bastava um movimento. Poucos milímetros.E seus lábios selariam os meus.Droga.Por um breve e insano instante, eu quis aquilo.— Venha... — murmurou.A pressão de seu corpo me fez recuar até o corpo deitar no chão, diante da lareira, enquanto Kaeros apoiava os braços ao lado da minha cabeça. Mesmo tão perto, ele não rompeu aquela distância mínima entre nossas bocas. Seus olhos permaneceram presos aos meus, como se esperasse que eu decidisse se queria atravessar os últimos cent







