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6 – A MORTE DA LOBA

Auteur: Bianca C. Lis
last update Date de publication: 2026-09-09 23:39:04

POV: ELOWEEN

Meus pés tocavam a grama fria da noite, o vento açoitando meus cabelos, carregando um aroma salgado no ar. Um uivo alto, doloroso, angustiado, rompeu a escuridão, ecoando do topo da colina.

— Atheia! — Corri em desespero, erguendo a barra do vestido que grudava nos galhos pelo caminho e rasgava a cada passo. Subi a colina o mais rápido que consegui, a respiração pesada, o peito acelerado. — Atheia... por favor... não chore...

A loba parou de uivar, abaixando o focinho na minha direção. Seus olhos refletiam tons quase cósmicos, celestiais, o azul se mesclando ao verde nas íris.

"Dói tanto..." gemeu, um choramingo baixo. "Eu não suporto mais..."

Correntes surgiram como fumaça negra, envolvendo o corpo dela, a arrastando ao chão, a prendendo como um animal selvagem. A loba branca urrou, feroz, assustada, se debatendo para se soltar, fincando as garras no solo, tentando resistir enquanto era puxada para a beira do precipício.

— Não! — Corri em sua direção, desesperada, saltando, estendendo a mão, tentando alcançar sua pelagem, segurar aquele corpo enorme — mas as correntes já a tinham puxado para dentro do abismo escuro. — Atheia... Não! Não...

Berrei em desespero, em meio às lágrimas que escorriam e pingavam no chão.

— Não me deixe... — implorei, entre soluços, erguendo o rosto para a lua, tão baixa que eu jurava conseguir tocá-la se estendesse os dedos. — Por quê? Por que está permitindo que isto aconteça? Por que a tirou de mim?

Nada. Só o silêncio.

Cerrei os punhos, o ódio pulsando no peito.

— Deusa Lua! — Explodi, caindo de joelhos. — Isto é culpa sua. Você nos abandonou quando mais precisávamos. Nos lançou neste abismo. Nos levou a este destino!

A lua pulsou seu brilho etéreo, mais intenso, o vento se tornando ainda mais forte, quase me derrubando colina abaixo. Fixei os pés no chão, e em meio às lágrimas, à dor, ao ódio, ergui o olhar afiado para o divino e proferi o maior desacato que um lobo pode cometer contra Selene, a Deusa dos Lupinos.

— Eu te odeio. — Rosnei, selando meu destino. — Eu...

Soluçava, mordendo os lábios trêmulos.

— Eu, Eloween Everlight, rejeito a Deusa Lua como minha deidade.

O vento se intensificou, girando em um redemoinho cortante ao redor de todo o meu corpo. Cruzei os braços diante do rosto, fechando os olhos. Eu sabia o que tinha acabado de fazer. Havia negado a mãe dos lobos. E sabia exatamente o preço disso.

— Me leve para junto dela!

A dor me trouxe de volta antes da consciência.

Me sentei com tudo na cama, ofegante, suando frio, tremendo sem controle, as lágrimas escorrendo pelo rosto, pingando sobre minhas mãos cerradas.

— Ela se foi...

O soluço escapou tão alto, tão angustiado, que precisei me abraçar com força só para tentar conter os tremores. O aperto no peito se tornou insuportável, sufocante, um buraco vazio ecoando por dentro. Só restava o frio, sem o calor lupino que sempre esteve ali, mesmo dormindo.

Eu tinha virado uma casca oca. Vazia. Quebrada. Sozinha.

— Minha loba... se foi. Para sempre. — A voz saiu num fio partido.

A culpa era toda dele.

Do maldito Devorador de Lobos. Do maldito Lycan de olhos azul-acinzentados intensos demais.

— Eu te odeio, Kaeros Moonreaver! — rosnei, fincando as unhas na própria pele até romper a carne, um filete de sangue escorrendo. — Você vai pagar por isto.

— Devia ir com calma. Seu corpo já passou por sofrimento demais hoje.

A voz veio de perto da janela, grave, contida. Virei a cabeça, um homem alto, cabelos escuros, olhos cor de âmbar, me observava com os braços cruzados, a postura de quem já estava ali havia algum tempo.

— É surpreendente que já tenha despertado, depois de tudo que passou.

— Quem é você? — perguntei, arisca, o queixo erguido em defesa. — O que faz aqui?

— Zander. — Inclinou a cabeça, quase uma reverência irônica. — Você nos preocupou bastante, sabia?

Um riso amargo escapou de mim antes que eu conseguisse contê-lo.

— Duvido que aquele monstro seja capaz de se preocupar com alguma coisa. — Cuspi as palavras, desprezo puro. — Foi ele quem me reduziu a este estado.

O silêncio se instalou por um instante, antes de seus olhos cintilarem, curiosos.

— Então você sabe o que aconteceu no altar? — A pergunta veio cautelosa, mas havia algo no jeito como Zander me olhava que dizia que ele já tinha a resposta.

Desviei o olhar.

O que, de fato, tinha acontecido?

Kaeros Moonreaver havia me rejeitado diante de toda uma alcateia, me humilhado em um vestido de noiva depois de me reivindicar como prêmio de guerra em um torneio ridículo.

— Não. — Menti.

Eu não daria nome ao que senti naquele altar. Não admitiria, nem para mim mesma, a possibilidade daquele monstro ser...

Não.

Não havia como ele ser meu destinado. Eu já tive um, escolhido de forma errada pela Deusa Lua, em seu péssimo trabalho em me destinar um par já havia destruído minha vida, minha alma, minha loba, uma vez.

— Tem certeza? — Zander insistiu, dando um passo à frente, me analisando com atenção metódica, o olhar afiado de quem estava acostumado a decifrar situações impossíveis. — Não sentiu nada antes da rejeição? Um choque... um pulsar? Um...

— Não! — falei firme, fixando os olhos nos dele, ciente de onde ele queria chegar. — Não senti absolutamente nada.

Zander não riu, mas algo cruzou seu rosto, divertimento contido, talvez.

— É intrigante o quanto vocês dois são parecidos e teimosos.

Franzi o cenho, a cabeça latejando com o esforço de processar aquilo.

— Eu não sou nada comparada àquele monstro! — cuspi, mais feroz, mostrando as presas sem perceber. — Nunca mais insinue isto.

Zander ergueu as mãos em rendição. Me encarou, o silêncio se estendendo por segundos longos demais para ser confortável. Quando finalmente falou, a voz veio baixa, quase um segredo entregue contra a própria vontade.

— Não foi o seu pai quem te manteve prisioneira acorrentada e te jogou como petisco em um torneio de lobos por alianças? — Fez uma pausa breve. — Talvez você se surpreenda e descubra que Kaeros não é o verdadeiro monstro desta história.

Franzir o cenho, antes que pudesse perguntar o que ele queria dizer, a porta se abriu.

Kaeros adentrou abruptamente, passos firmes, os olhos varrendo o quarto até pousar em Zander, o cenho semicerrado em uma pergunta silenciosa, quase ameaçadora.

Zander não se abalou. Assentiu, quase imperceptível, e atravessou o quarto até parar diante de Kaeros, se curvando para sussurrar algo em seu ouvido, palavras baixas demais, rápidas demais, para eu captar por cima do zumbido que ainda martelava nos ouvidos.

Não sei o que foi dito, mas algo mudou no rosto de Kaeros. Só por um instante, os olhos se abrindo além do normal, quase surpresos, antes dele enterrar aquilo atrás de uma máscara fria e ilegível.

Zander se endireitou, lançou um último olhar na minha direção, algo entre pena e curiosidade e saiu sem dizer mais nada, fechando a porta.

Fiquei sozinha com ele. Com o monstro que tinha matado a minha loba!

O encarei com ódio. Kaeros manteve os olhos impassíveis, fixos nos meus, sem se aproximar.

Próximo à porta, me observando em silêncio por tempo longo demais, o olhar deslizando por meu rosto marcado de lágrimas, as narinas se dilatando, farejando o ar, até fixar no ombro onde a queimação ainda latejava sob o curativo, sempre aquele mesmo ponto, sempre aquela mesma atenção e sensação que eu não compreendia.

— O que você fez comi...

— Se troque. — Cortou, seco. — Você vem comigo.

Pisquei, confusa.

— Para onde agora? Outro casamento de fachada? — provoquei, deliberada demais, o desmaio ainda me deixando lenta demais para calcular o perigo de cutucar uma fera daquele porte.

Ele parou junto à porta, a mão na maçaneta, os músculos tensionando de leve, a impaciência vibrando sob a pele. Lançou um olhar por cima do ombro, as íris dilatadas, o azul-acinzentado pulsando com a sombra do lobo à espreita, logo abaixo da superfície.

— Para sua nova vida, Ômega.

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