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7 – O DEVORADOR DE LOBOS

last update Data de publicação: 2026-09-09 23:39:22

POV: ELOWEEN

— Eu não vou a lugar nenhum com você. — Ergui o queixo, desafiadora, apertando mais firme o lençol contra o corpo.

Um rosnado profundo, em aviso, vibrou no em peito largo, sob a camisa preta de linho que emoldurava músculos tensos e rígidos. O cheiro dele era predatório, viciante. A mão apertou mais firme a maçaneta.

— Ômega, você não está em posição de me desafiar. — Estalou a língua, deixando o olhar vagar sutilmente pelo meu corpo, bufando impaciente. — Vista-se e venha, ou eu te arrasto pelos pés alcateia afora.

Arregalei os olhos, o corpo vacilando por um instante com o arrepio frio.

— Isso é uma ameaça? — Engoli em seco.

— Um aviso. — Declarou, impaciente. — Não me faça repetir.

Kaeros saiu do quarto a passos pesados, mas eu ainda sentia sua presença sufocante, à espreita, me aguardando do outro lado da porta. Cerrei os punhos, mordendo a parte interna da boca, e olhei para a cadeira ao lado, onde havia roupas dobradas com cuidado.

— Como desejar, Vossa Alteza. — Torci o nariz, contrariada, e me troquei às pressas. Prendi os fios dourados em um rabo de cavalo desgrenhado, deixando à mostra meus olhos incomuns: Um verde intenso, um azul profundo como o mar.

Meu pai sempre me obrigara a escondê-los com lentes quando saíamos.

Para ele, eram "feios demais". Uma "deformação horrível de se ver". Um mau presságio. Uma falha que preferia esconder do mundo.

Suspirei, dando uma última olhada no espelho, esfregando as mãos, nervosa.

— Hora de conhecer minha nova vida... e o que ela me reserva.

Saí para o corredor a tempo de vê-lo sussurrando algo com outro homem, que apenas me olhou, surpreso por um breve momento, e desviou o olhar rápido, se afastando. Kaeros pousou os olhos azul-acinzentados sobre mim, fixos, as pupilas sutilmente dilatadas, se demorando ali mais tempo do que o necessário antes de desviar o olhar e avançar. Não disse nada. Não precisava. Eu sabia que era para segui-lo.

— Para onde estamos indo? — insisti, a voz mais alta.

Nada. Nenhuma resposta.

Respirei fundo, impaciente.

— Por que me manteve viva? — Ele continuava atravessando o corredor enorme sem se dar ao trabalho de responder ou sequer me encarar. — O que planeja fazer comigo?

O silêncio se mantinha.

A impaciência queimou. Corri até sua frente e parei bem no meio do corredor, o forçando a parar. Precisei erguer o queixo o máximo que consegui para alcançar aqueles olhos. Ele rosnou, contido. As íris cintilavam num cinza profundo cortado por fios de azul, como relâmpago preso numa tempestade.

Estremeci. Não de medo. De algo pior.

— O que você fez comigo no altar? — forcei a voz.

Seus olhos semicerraram, uma única sobrancelha se arqueando, interrogativa.

— Que tipo de feitiço usou em mim?

— Feitiço? — A voz dele saiu baixa, rouca, quase intrigada.

— Não sou tola, Alfa. — Continuei com uma audácia sem noção do perigo, dando mais um passo à frente, encarando-o de perto. — No casamento forçado. Como conseguiu fazer aquilo?

Kaeros inclinou a cabeça de lado, uma sobrancelha se erguendo, interrogatória.

— Aquilo o quê, pequena Ômega? — rosnou, impassivo.

Soltei um riso nasal, sem ânimo, debochado.

— Acha que sou estúpida a ponto de me manipular com facilidade? — Respirei fundo, mesmo tremendo por dentro diante do tamanho, da presença, do olhar dele. — Senti o cheiro daquela mulher encapuzada. Você tem uma Peeira sob seus domínios. Como conseguiu encontrar uma e convencê-la a te ajudar?

Peeiras. Seres extraordinários, ligados por sangue à própria Deusa Lua. Dadas como extintas depois da Guerra dos Clãs, quando os licantropos originais as caçaram até o fim, por medo do que elas representavam: uma ameaça ao próprio poder deles.

Diz a lenda que o elo delas com os lobos ia além do comum: elas comandavam a natureza lupina. Vagavam pelos sonhos como fantasmas, roubavam segredos, plantavam ideias na mente alheia, dobravam a própria realidade até fazer alguém acreditar em qualquer mentira.

Poderosas. Sagradas. Protegidas pela deidade, diziam.

Mas a Lua não as protegeu no Solstício, quando o sangue delas foi derramado sem piedade sob a própria luz Dela.

Algo atravessou o seu olhar, dilatando as pupilas, quase surpreso.

— Você sentiu o aroma da essência dela?

Não demonstrei o tremor que percorreu cada fibra do meu corpo. Ajustei a postura. Engoli o medo.

— Não se faça de tolo, Lycan. — Sabia que estava passando dos limites, desafiando demais, mas eu já não tinha mais nada a perder. — Por que desperdiçar o raro poder de uma Peeira só para manipular um elo comigo?

Seu maxilar se tensionou, quase imperceptível.

— Foi por poder? — Minha voz vacilou, a dor me atravessando. — Usou a magia dela para manipular o elo entre nós, só para poder me rejeitar... só para matar a minha loba? Foi um golpe cruel demais, até mesmo para um monstro como você!

Kaeros se inclinou para frente, o corpo enorme cobrindo facilmente o meu, a sombra me engolindo por inteira.

— Deveria tomar cuidado com o que insinua. — As presas se projetaram parcialmente, em aviso. — Pequena Ômega.

Passou por mim, esbarrando no meu corpo, quase me derrubando, os passos se tornando mais pesados, furiosos.

— Você realmente faz jus à sua fama! — gritei, o fazendo travar no lugar e cerrar os punhos. — Devorador de Lobos!

O ar ficou denso.

Em um piscar, ele já tinha se virado. A mão grande agarrou a frente da minha camisa e me prendeu contra o pilar de pedra. O impacto tirou o ar dos meus pulmões. Seu rosto desceu até o meu, os lábios quase tocando os meus, o cheiro de madeira queimada e tempestade salgada invadindo tudo.

Choques elétricos explodiram pela minha pele, formigando. Vi o reflexo do lobo dele nas íris intensas.

— Tem uma língua afiada demais para o seu próprio bem, princesa. — Rosnou, a voz baixa e perigosa, cada palavra roçando minha boca. — Não me faça estragar essa casca bonita.

Seus olhos agora eram só tempestade, cinza e azul misturados, ferozes, famintos de algo que não era só raiva.

O polegar dele deslizou devagar pela lateral do meu pescoço, pressionando o ponto onde o pulso batia descontrolado.

— Continue me testando, Ômega... e eu vou te mostrar exatamente por que me chamam de Devorador!

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