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Capítulo 2

Author: Guardião do Sol
Naquela noite, eu mal dormi. As lembranças do passado giravam sem parar na minha cabeça, me dilacerando por dentro.

Nos sonhos, revi os rostos sorridentes dos meus pais antes de adotarem Maeve, quando me carregavam nos ombros e me enchiam de carinho. Então a cena mudou, e aqueles sorrisos deram lugar a olhares frios e irritados.

Lembrei de quando éramos filhotes e Maeve despejava no meu prato as verduras que detestava. Ainda assim, era eu quem levava bronca de Ivy, que me acusava de ameaçar minha irmã às escondidas e não deixá-la comer.

Também revivi o dia em que Maeve escorregou e caiu na lagoa. Sem motivo algum, Gerald colocou a culpa em mim e, como castigo, me obrigou a passar o dia inteiro em pé na água gelada.

Eu dormia e acordava a todo instante; as lágrimas encharcavam meu travesseiro em silêncio.

De repente, o som de uma conversa animada me arrancou daquele pesadelo.

Saí do quarto e fiquei paralisada ao ver a sala. Em uma única noite, o lugar se transformou por completo. Todos os móveis que escolhi deram lugar a peças de estilo antigo, com detalhes em renda, do jeito que Maeve gostava.

Ulric segurava Maeve por trás e a mantinha erguida bem alto. Com um porta-retrato nas mãos, ela o pendurou na parede. A foto mostrava uma família de quatro pessoas, todas com sorrisos radiantes.

Ivy saiu da cozinha com um prato de frutas e comentou, encantada:

— Ah, mas olhem só! Ulric é tão carinhoso com Maeve. Os dois parecem companheiros apaixonados.

— Nem me fale. — Gerald comentou com desdém.

— A foto ficou muito melhor sem aquela loba que fecha a cara por qualquer coisinha.

Estavam tão entretidos na conversa que nem perceberam que eu estava bem ali, parada no breu do corredor.

Assim que me aproximei, as risadinhas cessaram. Ivy franziu a testa ao me ver, sem esconder a repulsa.

— Pela Deusa! Por que você fica se esgueirando pela casa sem dar um pio? Não fique aí parada! Não pode vir ajudar? Por que não consegue ser atenciosa como Maeve?

Ulric colocou Maeve no chão e se virou para mim, com uma expressão magoada.

— Então você estava em casa. Isobel, eu fiz alguma coisa errada? Por que você não apareceu numa cerimônia tão importante ontem? Se Maeve não tivesse tomado seu lugar, eu teria passado vergonha como Alfa.

— Pelo visto, devo agradecer a vocês por se juntarem para me dopar. — Retruquei, com um sorriso de deboche.

— O plano de vocês desde o início não era arranjar uma boa desculpa para Maeve assumir meu lugar na cerimônia?

Ulric enrijeceu, e seu olhar vacilou de incredulidade.

— C-como você descobriu?

Ignorei a pergunta e continuei:

— Ulric, se você não me queria como companheira, bastava me dizer. Não sou do tipo que insiste em ficar com quem não me quer. Por que precisou me dar esperanças só para depois me chutar desse jeito?

Tomado pela culpa, Ulric estendeu a mão para mim.

— Não é isso, Isobel. Me escute—

De repente, Maeve se aproximou e agarrou a manga da minha roupa, com os olhos se enchendo de lágrimas.

— Me desculpe, Isobel! A culpa é toda minha! Eu amo tanto Ulric! Juro que nunca quis competir com você! Eu só... só queria colocar um ponto final nesse amor sem futuro.

Inconsolável, ela continuou:

— Não envolva a mamãe e o papai nisso. Ulric também não tem culpa. Se quiser culpar alguém, pode me culpar! Desconte sua raiva em mim. Não vou guardar rancor, mesmo que você me mate!

Ela ficou ali, indefesa, pronta para receber qualquer golpe meu.

— Maeve! — Gritou Ulric, em pânico.

Ele a agarrou pelo braço e a puxou para um abraço, com o coração apertado por vê-la sofrer. Em seguida, virou o rosto bruscamente para mim e gritou, furioso:

— Isobel, até quando vai continuar com isso? Ela é sua irmã! Por que insiste em levá-la ao limite? Se não consegue demonstrar um mínimo de generosidade, vou ter que reconsiderar seriamente se está à altura de ser minha Luna!

Ivy avançou e me empurrou.

— A culpa é toda sua! Você sempre foi mesquinha, desde pequena, e não suporta Maeve! Se soubesse que ela gostava de Ulric, já a teria matado, perversa do jeito que é!

Pega de surpresa, cambaleei para trás e caí contra a quina do armário, fazendo meus ferimentos se abrirem e sangrarem outra vez.

Mesmo assim, ninguém sequer olhou para mim. Toda a atenção estava voltada para Maeve.

Ulric enxugava as lágrimas dela com carinho, enquanto Ivy e Gerald a amparavam, um de cada lado, dando tapinhas em suas costas para acalmá-la. De vez em quando, ainda me lançavam olhares como se eu fosse uma inimiga que não merecia perdão.

Com o coração partido, cerrei os dentes e os confrontei:

— Eu sou mesquinha? Me digam uma coisa que Maeve não tirou de mim. Ela roubou meus doces, meus brinquedos, minhas roupas e até meu companheiro! Por que eu preciso ceder sempre que ela quer alguma coisa? Eu sou filha de vocês. Por que não conseguem me dar nem um pouco de amor?

Um estalo cortou o ar quando um tapa forte atingiu minha bochecha.

Foi então que Gerald apontou o dedo para mim.

— Cale a boca! Agora está nos acusando? Maeve está chorando de tão magoada, e você continua distorcendo os fatos. Só vai parar quando ela morrer?

Minha bochecha ardia e estava dormente, enquanto um zumbido agudo ecoava nos meus ouvidos. Limpei o sangue dos lábios e soltei uma risada de deboche.

Me enganei ao esperar que eles cedessem e me enxergassem. A vida inteira, sempre que surgia um conflito entre nós, Ivy e Gerald ficavam do lado de Maeve sem questionar nada.

Foi pura ilusão pensar que falar do meu sofrimento pesaria na consciência deles. Uma ingenuidade ridícula da minha parte.

— Está bem. Já que sou um estorvo tão grande, vou embora.
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