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CAPÍTULO 2

Author: Echo
Naquela noite, Donatello e eu deitamos na cama como sempre fazíamos.

O cheiro pesado de seus charutos e o frescor do hortelã me envolviam. Sua mão áspera e calejada deslizou com precisão sob minha camisola de seda — uma invasão à qual eu nunca soube dizer não.

Em qualquer outra noite, eu teria correspondido ao toque, ansiosa pela intimidade.

Mas naquela noite, pela primeira vez, eu o afastei.

Donatello franziu a testa. — O que houve?

— Não estou me sentindo bem. Vamos só dormir.

Ele não insistiu, apenas resmungou em concordância.

Achei que ficaria por isso mesmo, mas então, no escuro, ele falou:

— Aquela autorização que você me fez assinar hoje. Não tive tempo de ler. Me mostra.

Meu coração martelou nas costelas. Fiquei olhando para ele na penumbra.

— Tem certeza que quer ver?

Ele não entendeu minha tensão. Só franziu a testa de leve e assentiu.

Depois de um longo silêncio, levantei da cama e encontrei o documento.

Quando eu estava prestes a entregar, um toque agudo cortou o silêncio.

Era o telefone privado do Donatello.

Ele olhou para a tela, e o rosto endureceu. Ao fundo, ouvi a voz aflita de um dos seguranças da Angelina.

— Chefe! O ex-marido da senhorita Angelina achou o novo endereço. Tá lá fora, tentando arrombar a porta! Ela tá apavorada...

O semblante de Donatello ficou sombrio. Já estava vestindo o sobretudo preto.

— Tô indo.

Parou na porta, o rosto uma máscara. — Tem uma situação no West Side. Preciso resolver.

Eu sabia exatamente para onde ele ia, mas não desmascarei a mentira dele.

— Tá bem. Se cuida.

Sentei no sofá e fiquei observando os ponteiros do relógio girarem. Não dormi a noite inteira.

O primeiro raio de sol da manhã ardia nos meus olhos.

Peguei o celular e vi uma nova postagem da Angelina nas redes sociais.

A foto mostrava um nascer do sol de tirar o fôlego sobre um lago tranquilo. Reconheci: era a casa particular do Donatello à beira do lago, fora da cidade.

No reflexo da porta de vidro, dava para ver a silhueta alta e imponente de Donatello. Ele segurava uma xícara de café, o olhar claramente fixo na mulher que tirava a foto.

A legenda era curta: "Uma nova vida começa."

Uma dor surda começou no peito e foi se espalhando devagar.

Então, Angelina estava oficialmente livre. Donatello provavelmente faria dela a verdadeira esposa do Don logo. Com todos os obstáculos fora do caminho, o que impediria um chefe da máfia de ficar com a mulher que ama?

Só eu.

Era questão de tempo até ele me pedir o divórcio.

Pelo visto, partir por vontade própria era mesmo o certo.

Larguei o celular e comecei a arrumar as malas.

Deixei para trás todas as joias e vestidos que ele me deu. Não queria nada disso, e duvido que ele quisesse ver Angelina usando minhas sobras. Embalei tudo para doação.

Donatello chegou em casa enquanto eu ainda empacotava.

Franziu a testa ao ver as caixas espalhadas pelo chão. — O que é isso tudo?

— Só umas coisas antigas — expliquei, com a máscara perfeita. — Não faz sentido guardar. Vou doar.

Ele apenas assentiu, sem dar importância, e chamou dois homens para carregarem as caixas.

Se tivesse aberto uma delas, veria que estava jogando fora tudo que um dia foi meu tesouro.

Mas ele nem olhou.

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