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CAPÍTULO 6

Author: Echo
Na noite em que voltamos do cruzeiro, risquei mais um dia do calendário.

Faltavam três dias.

Comecei a me desligar da vida dele de vez.

Quando Donatello trabalhava até tarde, parei de levar o leite quente. Apenas fechava a porta do quarto e fingia estar dormindo.

Passei a repassar os casos chatos da Família para outros advogados. Minha desculpa era perfeita: "Não estou me sentindo bem. Não quero atrasar os negócios do Chefe."

Até deixei de cuidar do jardim de rosas nos fundos, aquele que cultivei com minhas próprias mãos por três anos. Quando o jardineiro perguntou se eu queria podar os novos brotos, só balancei a cabeça.

— Deixa crescer.

Ele percebeu que havia algo errado.

Tarde da noite, me pegou no corredor enquanto saía do escritório.

— Avril, o que está acontecendo com você? — perguntou, a testa franzida.

Mantive o olhar baixo. — Meu ombro ainda não sarou. O médico disse que preciso descansar mais.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Chegou a estender a mão para o meu ombro, mas desistiu no meio do caminho.

— Então descanse.

Na manhã seguinte, ele falou: — Nosso terceiro aniversário é amanhã. Quero te levar para Las Vegas. Tem um leilão. O que você quiser, compro pra você.

Balancei a cabeça. — Meu ombro dói. Não aguento voo longo.

Ele não desistiu. — Suíça, então. A villa nas montanhas—

— Frio demais.

Vendo a confusão no rosto dele, e com medo que percebesse tudo, sugeri algo eu mesma.

— Vamos só... naquele restaurante perto da universidade. Onde a gente se conheceu.

Donatello ficou surpreso. Provavelmente nunca imaginou que eu pediria algo tão simples.

Mas assentiu. — Ok. O que você quiser.

Assim que ele saiu, olhei para o calendário sobre minha mesa.

Amanhã, nosso terceiro aniversário. Dez anos desde que me apaixonei por ele.

Na caixa do dia seguinte, escrevi a lápis uma única palavra: Ir embora.

Dez anos. Voltar ao começo parecia um fim justo.

Antes de dormir, me encostei no batente da porta e perguntei, meio brincando:

— Você não vai me dar bolo dessa vez, né?

Ele levantou os olhos dos papéis e, pela primeira vez em muito tempo, sorriu de verdade.

— Não.

Em silêncio, contei as outras vezes na cabeça. Ele se atrasou para a habilitação do nosso casamento porque levava Angelina ao aeroporto. Ele faltou à minha apendicectomia porque estava com Angelina na consulta com a terapeuta dela.. Ele faltou ao meu aniversário porque o ex dela causou confusão. Parei de contar no número onze. Não adiantava mais.

Na noite seguinte, passei um pouco de maquiagem e peguei um vestido creme antigo do fundo do armário — o mesmo que usava na faculdade. Coloquei uma câmera pequena na bolsa e desci.

Donatello me esperava ao lado do carro, impecável no terno. Os olhos dele demoraram em mim por um instante.

— Você tá linda.

Sorri. — Obrigada.

No caminho até o restaurante, pela primeira vez em muito tempo, realmente conversamos. Contei que lembrava da primeira vez que o vi, trabalhando meio período naquele restaurante, e de como ele me salvou de um cliente bêbado.

Ele ergueu a sobrancelha e sorriu. — Lembro. Você usava esse vestido.

Meu coração deu um salto, mas só assenti.

Pela janela, as luzes da cidade se acendiam, criando uma felicidade breve e irreal.

Quando estávamos chegando ao restaurante, o telefone dele tocou.

Ele ignorou, desligando na hora. — Hoje nada vai nos interromper — disse firme.

Mas tocou de novo. E outra vez. Por fim, ele atendeu, e o rosto fechou.

Eu já sabia. Só uma pessoa conseguia deixar aquele olhar nele.

Ele desligou e virou para mim, o pedido de desculpa já estampado.

— Avril, surgiu um problema na Família. Preciso ir. Agora.

Assuntos da Família. Que desculpa útil.

Olhei para ele e perguntei, baixinho: — Não pode esperar uma hora? Só uma hora.

— Não — respondeu, sem hesitar. — Isso é importante. Da próxima vez, reservo o restaurante inteiro pra você.

Não tentei impedir.

Desci do carro e fiquei na calçada, vendo os faróis sumirem na rua.

Ele estava indo atrás de outra mulher.

O vento da noite puxou a barra do meu vestido.

No fundo do peito, disse a última coisa que restava pra ele.

Donatello, não existe próxima vez.

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