LOGINEthan sempre achando que Marina resolve as coisas... Na verdade eles já estão percebendo que há muito mais para ser resolvido do que eles realmente imaginavam! ;)
O prédio da imigração na Jacob K. Javits Federal Building parecia ter sido projetado para intimidar até mesmo os inocentes. As luzes fluorescentes do salão de espera no oitavo andar emitiam um zumbido contínuo que parecia entrar diretamente pela espinha de Marina.Naquela terça-feira fria de chuva fininha, o ar-condicionado parecia descalibrado, mas as palmas das mãos de Marina estavam suadas. Ela ajeitou pela quinta vez a pasta sanfonada de couro preto sobre o colo. Dentro dela estavam guardados a vida fabricada pelos dois com extratos bancários conjuntos, apólices de seguro de vida cruzadas, contas e registros da viagem e dezenas de fotos no parque, no casamento, sorrindo para a câmera em jantares da família, eventos do Whitmore Group e manhãs de domingo preguiçosas no apartamento.Ao seu lado, Ethan cruzou e descruzou as pernas compridas. Ele usava um terno cinza sob medida, perfeitamente alinhado, mas sem gravata — uma concessão deliberada ao seu estilo costumeiro, pensada para pa
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes. A menção ao contrato trazia de volta as barreiras que ambos tentavam manter erguidas com todas as forças, mas que vinham ruindo a cada jantar improvisado na cozinha, a cada risada compartilhada sobre as idiossincrasias do trabalho e a cada noite em que terminavam adormecendo no mesmo sofá depois de estudar fichas de dados.“Vamos continuar” disse Marina, limpando a garganta para quebrar a tensão repentina. Ela pegou uma pasta azul. “Mais uma sobre a minha vida. Se o agente perguntar qual é a cicatriz pequena que tenho no joelho esquerdo, o que você responde?”Ethan nem piscou.“Queda de bicicleta aos onze anos na casa da sua avó, em Campinas. Você tentou descer uma rua de paralelepípedos sem os freios e não quis contar para o seu pai para não levar bronca.”Marina o encarou, estupefata.“Como você consegue se lembrar de tudo? Essa eu comentei em uma frase rápida logo no início dos nossos estudos.”Ethan deu um sorriso de canto de boca, inc
A luz do fim de tarde em Manhattan banhava a cobertura em tons alaranjados e dourados. Através das janelas de vidro do chão ao teto, os arranha-céus pareciam monumentos gigantescos acesos pela penumbra, mas dentro da enorme sala de estar de Ethan, o clima não tinha nada de contemplativo.Eles dispensaram os empregados assim que chegaram e tiveram que aguentar os protestos da Sra Gable dizendo que estavam atrapalhando o trabalho dela para namorarem, ela foi embora contrariada alegando que a juventude estava perdida.Espalhadas sobre a mesa de centro de mármore e por boa parte do sofá de couro — o mesmo em que Ethan insistia em se largar após o expediente — estavam dezenas de folhas de papel, pastas coloridas, fotos impressas e fichas com anotações à mão. “Próxima pergunta” disse Marina, ajeitando os óculos de leitura na ponta do nariz e mantendo uma caneta empunhada como uma batuta. “Qual é o nome do primeiro cachorro de estimação da minha infância e onde ele foi adotado?”Ethan, que
A linha caiu com um clique seco.O silêncio que se seguiu no escritório parecia pesado demais para o espaço. O viva-voz emitia apenas o tom contínuo de linha aberta, até que Marina estendeu a mão e desligou o aparelho.Ela soltou o ar que nem percebera que estava segurando e apoiou as duas mãos na borda da mesa de mogno."Terça-feira," ela murmurou em português, sem se dar conta. "Meu Deus, Ethan. É terça-feira."Ethan passou a mão pelo cabelo, desarrumando os fios claros em um gesto de pura frustração que guardava apenas para quando estavam sozinhos. Ele puxou a gravata para baixo de vez, soltando o primeiro botão da camisa."Calma," ele disse, mas a voz dele perdera o tom aveludado de controle que usou com a agente. "A gente sabia que essa ligação ia chegar.""Sim, mas esperávamos que demorasse mais. O Dr. Vance disse que o processo em Nova York estava lento!" Marina se virou para ele, os olhos castanhos arregalados de aflição. "Eles disseram 'verificação rigorosa', Ethan. Iss
O telefone no escritório tocou exatamente às nove e quarenta e duas da manhã. Não era o toque comum do ramal interno. Era aquele som metálico e insistente da linha externa direta, que pouquíssimas pessoas tinham. Marina estava com um copo de café em uma das mãos e uma pasta de relatórios na outra, ajustando a posição do tablet sobre a mesa. Fazia exatamente cinco dias que ela e Ethan tinham voltado da curta e milimetricamente calculada lua de mel — tempo suficiente para postarem três fotos perfeitamente dosadas nas redes sociais, receberem as felicitações formais do conselho da Whitmore Group e tentarem, em vão, retomar o ritmo normal de trabalho sem parecer que algo havia mudado drasticamente no meio do caminho. O telefone tocou pela segunda vez. "É da recepção central?" perguntou Ethan, a caneta suspensa no ar. Marina tinha subido com ele naquela manhã para tomarem café juntos na empresa. "Não," ela disse, deixando uma pasta sobre a mesa e franzindo a testa ao olhar para o vi
Às nove e cinquenta e cinco, Marina estava no elevador social a caminho do quadragésimo primeiro andar. Ela segurava a pasta de couro preta com o relatório impresso contra o peito, sentindo o coração acelerar a cada andar que o painel luminoso ultrapassava. Quando as portas se abriram no último andar, o contraste com o setor de marketing era gritante. Ali, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som suave dos passos no carpete espesso. A decoração em madeira escura dava ao lugar um ar quase solene. Carol, a secretária executiva de Ethan, levantou a cabeça quando Marina se aproximou da mesa. “Bom dia, Marina. Ele está te esperando, pode entrar.” “Obrigada, Carol.” Marina caminhou até a grande porta de madeira de lei, deu duas batidas firmes e ouviu um abafado "Entre" do outro lado. Ela girou a maçaneta e entrou. O escritório era amplo, com janelas do chão ao teto que ofereciam uma vista panorâmica avassaladora de Manhattan. Ethan estava de pé atrás da enorme mesa de mogn







