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Capítulo 3

Author: Serein M
Desviei o rosto de seu toque de um solavanco.

Chloe deu uma risada leve. Não estava brava. Apoiou-se no seu carro esportivo, me observando de cima a baixo. Seus olhos percorreram desde o meu gorro barato até os tênis encharcados.

— Não é à toa que o Kil diz que você é sem graça. Parece lixo mesmo.

Apertei os punhos congelados.

— Por que diz que ele é seu? — A voz que saiu da minha garganta estava rouca, ferida. Nem parecia minha.

Chloe parou por um segundo. Depois, jogou a cabeça para trás e gargalhou.

Riu tanto que o casaco de pele escorregou de seu ombro, deixando à mostra as marcas escuras na sua clavícula.

— Por quê? — Enxugou do canto do olho uma lágrima de tanto rir. — Ah, querida. Você que me diga. Por que acha que ele é seu?

Deu uma tragada num cigarro fino. — Ele é Killian Moretti. O Don da família Moretti. Uma das Cinco Famílias de Nova York.

Meus ouvidos começaram a zumbir.

— Três anos atrás, uma família rival mandou seis pistoleiros atrás dele. A noiva de verdade morreu numa explosão de carro. — Chloe soprou uma anel de fumaça bem na minha cara. — Ele precisava de um disfarce.

— Um disfarce civil perfeito. Uma órfã ingênua e sem graça, sem passado, sem status e nenhuma conexão. Uma "esposa simplória" que os inimigos dele jamais olhariam duas vezes.

Deu um passo mais perto. O perfume dela revirou o meu estômago.

— Sabe por que ele escolheu você? — sussurrou. — Porque você não tem ninguém. Porque mora na periferia. Porque se ajoelharia de gratidão só por se casar com um mecânico falido.

— Você é um escudo humano, Aria. Comprada e paga com um anel de prata de cinquenta dólares.

Fiquei paralisada. A neve caía mais forte, cobrindo os meus sapatos.

Senti como se minha alma estivesse sendo arrancada do peito, pedaço por pedaço.

Três anos.

Passei fome para economizar. Pedalei sob nevasca até os dedos sangrarem para pagar o aluguel.

E no fim, eu só estava financiando o joguinho de faz de conta de um Don bilionário.

— O Kil me disse que você até tenta comprar uma casa. — Chloe fez um beiço de pena fingida. — Um apartamentozinho no Brooklyn? Ai, meu Deus, é tão patético que até sinto pena de você.

De repente, estendeu a mão e arrancou o meu gorro barato da cabeça.

— O que é isso? Lixo de dez dólares? — Jogou-o numa vala de neve suja.

Tocou um grampo de diamante reluzente no cabelo perfeito dela. — Sabe quanto custou esse grampo da Harry Winston? Quatrocentos e oitenta mil dólares. O Kil comprou pra mim semana passada só porque eu disse que estava tendo um dia ruim com o cabelo.

Mordi a parte de dentro da bochecha até sentir o gosto de ferro na boca.

— Chega. — Levantei a cabeça de repente e empurrei o dedo dela para longe do meu rosto. — Pare de ficar se gabando! Isso é entre ele e eu. Você não tem o direito de julgar!

— Ai! — Chloe gritou.

Eu mal a toquei, mas ela se jogou para trás de propósito.

Os degraus atrás dela estavam escorregadios de gelo.

A testa dela bateu com força na quina afiada de uma coluna romana. O sangue jorrou na hora.

Minhas pernas congeladas me traíram. Caí com tudo na neve.

Galhos secos e espinhos cravaram nas minhas palmas.

Minhas mãos ficaram cobertas de sangue. A dor era ofuscante.

— Chloe!

Os portões de ferro trabalhados se escancararam.

Killian saiu correndo, com uma dezena de homens de terno preto logo atrás.

Os olhos dele primeiro pousaram em Chloe, no meio de uma poça de sangue.

Depois virou o rosto bruscamente para mim, sentada na neve, tremendo dos pés à cabeça.

Suas pupilas contraíram. Pânico cru e uma dor dilacerante passaram rápido pelo seu olhar.

Por puro instinto, ele deu um passo na minha direção.

— Kil… me ajude… — Chloe soluçou fraco. O sangue escorria em seus olhos. — Você vai me deixar morrer… como deixou o meu irmão morrer?

Essa frase fez Killian parar no ato.

Sua mandíbula travou com força. Os olhos ficaram vermelhos. Por fim, virou-se e pegou Chloe ensanguentada no colo.

Olhou para mim. A voz dele estava incrivelmente rouca.

Havia nos seus olhos um olhar desesperado, suplicante, que eu não conseguia entender.

— Aria, me escuta. Volte para casa agora mesmo! Está muito frio aqui fora. — Disse tudo muito depressa. — Devo a vida ao irmão da Chloe. Não posso deixá-la morrer! Preciso levá-la ao hospital da família agora!

— Me espere em casa. Seja boazinha. Explico tudo à noite. Toda a verdade, está bem?

Nem sequer teve tempo para um segundo olhar. Correu para o Rolls-Royce com Chloe, sem olhar para trás.

Os motores rugiram. A comitiva partiu a toda velocidade, levantando água gelada que bateu no meu rosto.

Os guardas também foram embora. Fiquei completamente sozinha do lado de fora dos portões daquela propriedade imensa.

Olhei para as minhas palmas feridas e cobertas de sangue.

De repente, uma risada amarga escapou dos meus lábios. Não consegui segurar.

Voltar para qual casa? Para aquele apartamento miserável onde você me viu fazer papel de boba, passar fome para juntar centavos para você?

Explicar? Explicar como assistiu eu viver na miséria por três anos? Como ficou de camarote, testando a minha devoção barata e sem valor?

Com uma febre que parecia queimar por dentro, caminhei pela neve por um tempo muito, muito longo.

Até que os faróis de um ônibus interestadual cortaram a escuridão.

Gastei todo o dinheiro que tinha na carteira, mais o cartão de débito com todo o dinheiro dos meus bicos. Três mil, duzentos e setenta e quatro dólares no total.

O dinheiro que eu ia usar para comprar joelheiras para o Killian. Para pagar as contas. Para o nosso tal "futuro".

Comprei uma passagem para a Costa Oeste e embarquei naquele ônibus Greyhound rumo ao outro lado do país.

Guarde suas explicações, Killian.

Jamais, jamais perdoarei uma mentira calculada.

Adeus para sempre.

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