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HORIZONTE DESCONHECIDO

last update publish date: 2026-09-16 04:14:32

O eco seco do impacto de Lorde Vane contra o piso de mármore do saguão dissipou-se lentamente, substituído por um silêncio sepulcral que parecia congelar o próprio ar nas abóbadas da Câmara dos Imortais. O patriarca do Conselho jazia entre os escombros do trono e as runas estilhaçadas de seu colar, a respiração convertendo-se em um estertor fraco e irregular enquanto a aura de poder milenar que o envolvia se desfazia em fumaça cinzenta.

Nas galerias superiores, os poucos membros sobreviventes do Conselho encolheram-se nas sombras, paralisados pelo choque e pela certeza absoluta de que o império construído sobre séculos de sangue e tirania havia ruído em questão de minutos.

Anthony permaneceu no topo da escadaria principal, com a respiração funda e ritmada inflando o peito. A adrenalina da batalha começava a dar lugar a uma clareza serena. Ele olhou para as próprias mãos — mãos humanas, marcadas pelo tempo, quentes de vida e banhadas pela suada vitória. Ele não precisava mais da lâmina de titânio ou da força bruta dos deuses caídos para impor respeito; ele era dono de seu próprio destino.

— Acabou, Vane — disse Anthony, a voz grave ecoando com uma tranquilidade cortante que dispensava gritos ou ameaças.

Do chão, erguendo o olhar opaco e derrotado em direção ao ex-conde, o patriarca tentou articular um sussurro, mas apenas sangue tingiu seus lábios pálidos.

— Você... não pode destruir o que somos... — balbuciou Vane, antes que a própria essência de sua imortalidade colapsasse de vez, consumida pelo peso das eras e pela quebra definitiva do pacto que sustentava a seita. Em um último suspiro, o corpo do ancião desfez-se em pó cinzento, misturando-se à poeira do piso secular.

Abaixo, Elena subiu os degraus da escadaria com passos firmes, parando ao lado de Anthony. Ela guardou a lâmina de titânio no coldre, erguendo o rosto para contemplar o vasto salão que agora pertencia inteiramente ao passado. Não havia mais inimigos para combater, nem ordens para desafiar. O santuário dos imortais estava desmantelado em sua própria base.

— E agora, conde? — perguntou Elena, um sorriso suave e vitorioso iluminando seus traços cansados, enquanto ela enlaçava a mão na de Anthony, sentindo o calor firme e recíproco daquele toque. — O castelo está em ruínas e o Conselho não existe mais. Para onde vamos?

Anthony olhou para a vasta extensão de montanhas alpinas visíveis através das fendas dos vitrais quebrados, onde a luz dourada do sol da manhã começava a dissipar a névoa fria. Ele virou-se para a mulher que desafiara a morte e a eternidade para salvá-lo, envolvendo-a pela cintura em um abraço profundo e definitivo.

— Para qualquer lugar, meu amor — respondeu Anthony, colando os lábios nos dela em um beijo que celebrava o início de uma vida genuína. — Pela primeira vez em quinhentos anos, o amanhã nos pertence.

De mãos dadas, deixando para trás as cinzas de um império milenar e o peso de uma imortalidade vazia, o ex-vampiro e a alquimista caminharam juntos para fora da fortaleza, rumo ao sol que nascia sobre o mundo dos mortais.

Porém, a ilusão de paz durou exatamente o tempo necessário para que cruzassem a porta principal do castelo.

Uma salva de palmas lenta e sarcástica ecoou do pátio congelado. Das sombras dos pinheiros nevados, surgiram dezenas de veículos pretos com os faróis acesos, cercando a saída e cegando o casal com luzes potentes.

Caminhando calmamente no centro do cerco, vestindo um sobretudo de pele caríssimo e segurando um copo de uísque com gelo, estava Guto, o ex-noivo de Elena que todos acreditavam ter morrido num naufrágio trágico há cinco anos.

— Guto?! — engasgou Elena, empalidecendo e levando a mão ao peito. — Meu Deus... você tá vivo?! Como assim, Guto?! Eu quase enlouqueci de dor quando você sumiu no oceano!

— Vivinho da silva, minha flor! — debochou Guto, dando um gole demorado no uísque e rindo com puro desprezo. — Achou mesmo que eu ia morrer num barquinho qualquer? O naufrágio foi uma encenação barata! Eu precisei sumir para assumir o comando da verdadeira corporação que controla o Conselho por trás dos panos!

— Você... você armou isso tudo?! — vociferou Anthony, colocando o corpo na frente de Elena, o olhar prateado faiscando com uma fúria perigosa.

— Claro que armei, meu querido Conde! — revelou Guto, dando passos lentos na direção deles. — Acha que foi coincidência a Elena ter encontrado a fórmula da cura exatamente no ano em que conheceu você? A minha equipe te guiou até o laboratório dela! A vacina que a Elena desenvolveu sob a minha supervisão oculta nunca foi pra te dar humanidade... foi pra transformar o seu sangue na maior mercadoria biocientífica do século!

— Mercadoria?! — gritou Elena, com lágrimas de fúria e decepção rasgando suas bochechas. — Você me usou?! Você usou o meu amor e a minha inteligência pra construir essa monstruosidade?!

— E você achou que eu te amava, Elena? — gargalhou Guto, debochando sem um pingo de remorso. — Eu só precisei da sua mente genial pra fazer o trabalho pesado!

Para tornar a cena ainda mais estarrecedora, da porta do carona do carro principal saiu Lorena, a irmã caçula e xodó de Elena, que todos achavam estar estudando num internato na Suíça. Ela trazia uma pasta executiva sob o braço e um sorriso frio e venenoso no rosto.

— Lorena?! Você também?! — desabafou Elena, sentindo o mundo ruir sob seus pés. — Minha irmã... você tá junta com esse canalha?!

— Ah, para de choro, Elena! — desdenhou Lorena, ajeitando os óculos escuros com frieza. — Você sempre foi a queridinha da família, a 'gênia da biologia'. Enquanto você brincava de cientista, eu e o Guto fechamos o contrato de venda da sua fórmula com os governos da Europa por dois bilhões de dólares!

— Suas cobras nojentas! — urrou Anthony, avançando dois passos em direção a Guto com os punhos fechados.

— Nem mais um passo, Conde! — gritou uma voz masculina vinda das sombras dos veículos.

Das fileiras de mercenários armados, caminhou Dante, o braço direito e amigo de infância de Anthony, carregando um fuzil de precisão apontado diretamente para a cabeça de Elena.

— Dante?! Até você me traiu, seu desgraçado?! — rosnou Anthony, o coração sangrando diante da traição daquele que considerava um irmão.

— Pô, Anthony... quinhentos anos sendo seu sombra já deu, né? — riu Dante com escárnio. — O Guto me ofereceu a imortalidade sem a fraqueza do sol e dez por cento das ações da empresa! O seu tempo de Conde acabou, cara!

Guto estalou os dedos, e dez mercenários avançaram com redes elétricas de contenção.

— O seu sangue purificado agora pertence à nossa empresa, Anthony! — ordenou Guto, com o olhar brilhando de ganância. — Injetem o paralisante nele e joguem a Elena no helicóptero! A nossa era de império só tá começando!

Com a neve do pátio tingida pelo suspense sufocante e pelo choque de traições inacreditáveis, Elena olhou para Anthony em meio às lágrimas. O final da luta contra o Conselho era apenas a primeira página de um capítulo muito mais sombrio, perigoso e repleto de reviravoltas.

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