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O PREÇO DA ETERNIDADE DESTRUÍDA

last update publish date: 2026-09-16 04:11:28

O silêncio que se seguiu ao arremesso da lâmina de obsidiana durou apenas um instante, mas foi pesado o suficiente para congelar a respiração de qualquer criatura que ainda estivesse nas galerias superiores. A lâmina vibrava levemente cravada na pedra ao lado do trono de Lorde Vane, um lembrete físico e insultuoso de que a autoridade absoluta do Conselho havia sido violada no próprio santuário.

Lorde Vane ergueu-se do trono de pedra com um movimento trêmulo, a aura de imponência milenar completamente desfeita pela fúria cega. As rugas profundas em seu rosto pálido pareciam sulcos de puro veneno, e seus olhos opacos fixaram-se diretamente em Anthony com um ódio que transcendia a lógica.

— Você acha que uma demonstração de força bruta pode apagar os séculos que cimentaram este império, Valmont? — a voz do ancião ecoou pelas abóbadas do saguão, reboando como o estrondo de um templo em ruínas. — Você pode ter rasgado a pele e o sangue da imortalidade, mas a sua alma ainda pertence a este lugar. Nós criamos você. E nós vamos reduzi-lo a nada.

Antes que Anthony pudesse retrucar, Vane ergueu as duas mãos abertas em direção ao teto abobadado. Uma onda de energia escura e sufocante irrompeu de suas palmas, fazendo as chamas azuladas das tochas se extinguirem instantaneamente. O saguão mergulhou em uma penumbra densa, e o próprio ar pareceu solidificar-se como chumbo, esmagando o peito e dificultando cada movimento.

— Cuidado, Anthony! É uma magia de colapso ancestral! — gritou Elena, cujos olhos se esforçavam para enxergar através da densa névoa ectoplasmática que começava a brotar do chão de mármore. Com um movimento rápido, ela sacou dois frascos de solução alquímica pura, preparando-se para lançá-los contra a fonte do feitiço.

Mas a pressão invisível era avassaladora. Os joelhos de Anthony ameaçaram ceder por um segundo sob o peso daquela carga mágica colossal, projetada para esmagar qualquer resquício de energia vital. Contudo, em vez de sucumbir ao desespero, o ex-vampiro sentiu o sangue humano bombear com uma fúria incandescente por suas veias. A mortalidade não o havia enfraquecido; pelo contrário, cada batida daquele coração humano trazia a urgência e o calor que a eternidade gélida e vazia jamais pudera lhe dar.

— Eles dependem da escuridão e do medo para reinar, Elena! — rugiu Anthony, a voz grave cortando a pressão do ar com uma autoridade implacável.

Com um grito de guerra que sacudiu os pilares de sustentação do castelo, Anthony canalizou toda a força de seus músculos e a memória implacável de quinhentos anos de caçada. Ele avançou em disparada pela escadaria principal, ignorando a força esmagadora do feitiço. Cada degrau vencido era uma vitória da carne contra o dogma, da vida contra a estagnação milenar.

Vane arregalou os olhos ao ver o ex-conde romper a barreira mágica como se ela fosse de vidro frágil, subindo os degraus com uma velocidade sobre-humana que desafiava a própria lógica da transição alquímica.

— Isso é para fechar o ciclo, Vane — sibilou Anthony, alcançando o patamar superior em um piscar de olhos e fechando os punhos com uma força letal.

Antes que o ancião pudesse canalizar um novo contra-ataque, o punho de Anthony atingiu o peito do patriarca com a precisão de um meteoro. O impacto estilhaçou o colar de runas ancestrais que sustentava o poder do Conselho, ecoando um som seco de ossos e magia colapsando. Lorde Vane foi lançado para trás, despencando da escadaria e caindo pesadamente no piso de mármore do saguão, enquanto o restante do Conselho assistia, em absoluto pavor, ao fim de sua era dourada.

Porém, quando o corpo enfraquecido do ancião colidiu contra o mármore, o teto abobadado do santuário não desabou em ruínas. Em vez disso, o eco gargalhado de uma risada fria e terrivelmente articulada começou a ecoar de todos os cantos da sala. Das sombras projetadas pelos pilares caídos, surgiram três figuras vestidas com jalecos cirúrgicos pretos e detalhes em ouro.

À frente do grupo, tirando calmamente os óculos de grau e limpando as lentes num lenço de seda, estava o Dr. Henrique — o viúvo da mãe de Elena, o homem que assumira a custódia da garota após a misteriosa morte da família.

— Pobre Lorde Vane... sempre tão dramático, tão apegado a feitiços e velharias místicas — debochou o Dr. Henrique, pisando sem a menor cerimônia sobre o peito do ancião agonizante. — Você realmente achou que o Conselho mandava em alguma coisa neste século? A magia de vocês acabou no momento em que a ciência tomou o controle.

— Henrique?! — engasgou Elena, sentindo o mundo girar enquanto a lâmina de titânio tremia em sua mão. — Você... você morreu num acidente de laboratório em São Paulo! Eu assinei os papéis do seu velório!

— Velório de caixão fechado, minha querida enteada — respondeu Henrique, com um sorriso de puro desprezo e orgulho sociopata. — O fogo do laboratório fui eu quem ateou. Eu precisava sumir para estruturar o verdadeiro negócio. Enquanto você achava que estava usando o dinheiro da herança para pesquisar uma cura romântica para o seu vampirinho de estimação, você na verdade estava trabalhando para a minha corporação biocientífica!

— A corporação?! — explodiu Anthony, descendo as escadas a passos largos e posicionando-se à frente de Elena, com o peito arfando e os punhos manchados de poeira mágica. — O que você fez com ela, seu desgraçado?

— Eu dei a ela um propósito comercial, meu caro Conde! — revelou Henrique, apontando para o teto.

Lá em cima, nos vitrais quebrados, dezenas de drones táticos de última geração surgiram, mirando canhões de plasma e seringas pneumáticas diretamente para a cabeça do casal.

— A fórmula que a Elena criou com tanta dedicação não cura a maldição do vampirismo — explicou Henrique, dando dois passos na direção deles com uma tranquilidade assustadora. — Ela estabilizou as mutações celulares no seu sangue, Anthony. O seu sangue humano agora carrega o código genético da eterna juventude sem nenhuma das fraquezas biológicas dos vampiros: sem alergia ao sol, sem necessidade de matar para beber sangue e sem vulnerabilidade à prata!

— Você... você me usou para criar uma mercadoria?! — gritou Elena, as lágrimas de decepção e raiva incontida queimando em suas bochechas.

— Eu usei o seu intelecto brilhante, Elena! E você me entregou a galinha dos ovos de ouro de bandeja! — riu o médico, fazendo um sinal com a mão.

Das sombras laterais do saguão, surgiram dois coadjuvantes que paralisaram completamente o casal. De um lado, segurando uma maleta de titânio contendo ampolas de contenção, estava Beatriz, a melhor amiga e assistente pessoal de Elena no laboratório. Do outro lado, vestindo uniforme militar com a insígnia da corporação, estava Marcos, o irmão mais novo de Anthony, dado como morto há mais de dois séculos.

— Beatriz?! Marcos?! — murmurou Elena, a voz sumindo na garganta.

— Sinto muito, Leninha... mas quinhentos mil euros na minha conta suíça valem muito mais do que a nossa amizade de faculdade — debochou Beatriz, sem demonstrar um pingo de vergonha ou remorso. — Eu passei cada detalhe da sua fórmula para o Dr. Henrique desde o primeiro dia.

— E você, Marcos?! — vociferou Anthony, o olhar prateado faiscando com uma fúria capaz de incendiar o santuário. — Eu passei duzentos anos caçando os responsáveis pela sua execução! Eu destruí vilarejos inteiros buscando vingança pelo seu nome!

— E você foi um otário durante duzentos anos, meu irmão — cuspiu Marcos, rindo com escárnio e apontando uma metralhadora tática diretamente para o peito de Anthony. — Eu nunca fui executado! Eu vendi a minha lealdade para a corporação porque cansei de viver nas sombras como um monstro nojento! Hoje, com o seu sangue purificado, eu serei o primeiro de uma nova raça de humanos imortais!

— Vocês não vão tocar nele! — bradou Elena, dando um passo à frente e arremessando o último frasco de composto volátil diretamente nos pés de Henrique.

A explosão química criou uma névoa densa e corrosiva que cegou os sensores dos drones e fez os mercenários recuarem tossindo em agonia. Em meio ao caos de fumaça e tiros de plasma, Anthony agarrou Elena pela cintura e saltou através da janela lateral do templo, despencando para as galerias inferiores do castelo.

A queda nos corredores de pedra foi brutal, mas o instinto de sobrevivência e a adrenalina do amor falaram mais alto. Erguendo-se dos destroços de madeira e pedra, Elena e Anthony olharam para o corredor escuro que levava às catacumbas secretas do santuário.

— Eles têm a tecnologia, têm as armas e têm o controle do mercado — disse Elena, ajustando o coldre com a mão trêmula, mas com o olhar queimando de determinação absoluta. — Mas eu sou a criadora da fórmula. E eu sei exatamente como destruir o que eu construí.

— Vamos até o fim, Elena — prometeu Anthony, puxando-a para um beijo apaixonado e feroz no meio da escuridão. — Se eles querem o meu sangue para dominar o mundo, vão ter que beber direto da lâmina da nossa vingança.

Juntos, eles desapareceram no labirinto de pedra das catacumbas, prontos para travar a batalha final contra a corporação, os traidores da família e os últimos vestígios do Conselho.

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