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O SAGUÃO DOS ESPECTROS

مؤلف: Felicity Sampaio
last update تاريخ النشر: 2026-09-16 04:08:17

A poeira metálica e os fragmentos de ferro forjado suspensos no ar rarefeito da montanha começaram a assentar lentamente, revelando a imponência opressiva do saguão principal da Câmara dos Imortais. Pilares colossais de mármore negro sustentavam o teto abobadado, onde afrescos desbotados retratavam séculos de pactos sangrentos e guerras travadas nas sombras. Tochas fixadas nas paredes irradiavam uma chama de tom azulado, projetando sombras longas e distorcidas que pareciam dançar ao ritmo da tensão que sufocava o ambiente.

Nas galerias superiores, envoltos em túnicas de veludo cor de carvão e com os rostos parcialmente ocultos por capuzes profundos, dezenas de membros do Conselho observavam a intrusão. O silêncio que se seguiu à destruição dos portões não era de hesitação; era o silêncio atônito de uma aristocracia milenar que jamais concebera a possibilidade de sua soberania ser violada daquela maneira brutal, muito menos por um renegado acompanhado de uma mera mortal.

Anthony deu mais um passo à frente, cruzando o limiar do santuário com uma postura altiva e dominante. Os olhos prateados faiscavam com a frieza de um predador que conhecia cada fresta daquele castelo de cartas. Ao seu lado, Elena mantinha o passo firme, a mão direita firmemente apoiada na lâmina de titânio, enquanto seus olhos analíticos mapeavam as rotas de fuga e os pontos cegos das galerias acima.

— Anthony de Valmont... — ecoou uma voz ancestral, grave e estrondosa, parecendo brotar das próprias paredes de pedra.

Do topo da escadaria principal que conduzia ao santuário interno, uma figura imponente desceu lentamente. Era Lorde Vane, o mais antigo dos anciãos ainda ativos no Conselho, cujos olhos opacos e feições caducas carregavam o peso de milênios de crueldade institucionalizada. Ele parou no patamar intermediário, fitando o ex-vampiro com uma mistura de escárnio e desdém absoluto.

— Você sobreviveu à transição. Desafiou o ultimato, cruzou oceanos como um rato acuado e teve a insolência de trazer uma humana para o coração sagrado de nossa estirpe — sibilou Vane, erguendo uma mão pálida e ossuda em direção a eles. — Acha mesmo que, por ter abandonado sua natureza imortal, sua morte será menos dolorosa? Você trocou a eternidade pelo direito de apodrecer, Valmont. E arrastou a sua frágil companheira para o mesmo túmulo.

A provocação, contudo, bateu em Anthony como água em rocha sólida.

O ex-conde de Valmont não recuou um centímetro sequer. Em vez disso, um sorriso cortante e absolutamente destemido desenhou-se em seus lábios. Ele soltou um riso curto, um som grave que reverberou com facilidade pelas paredes do saguão, quebrando a aura de terror que o Conselho tentava impor havia séculos.

— Você continua preso aos seus dogmas, Vane — respondeu Anthony, a voz cortante como uma lâmina de aço rústico. — Vocês passam séculos sentados neste buraco escuro, acreditando que o poder emana de títulos vazios e de sangue estagnado. Vocês chamam de fraqueza o que é a nossa maior força. Eu não sou mais um escravo da sua sede. E é exatamente por ser mortal que eu não tenho mais medo de acabar com vocês.

A fúria nos olhos de Lorde Vane estalou como um curto-circuito. Com um gesto brusco da mão, ele deu a ordem silenciosa.

— Executem-nos! Não deixem nenhum vestígio de humanidade ou traição neste santuário! — rugiu o ancião.

Das sombras das galerias superiores, dezenas de executores espectrais saltaram em direção ao saguão, uivando como almas penadas e brandindo lâminas de obsidiana. O espaço de batalha converteu-se instantaneamente em um turbilhão de caos, aço e sombras.

Mas Anthony já estava em movimento. Aproveitando a explosão de velocidade e força ancestral que seus músculos humanos, aprimorados pelo instinto de sobrevivência, ainda guardavam, ele avançou como um bólido contra a primeira onda de atacantes, enquanto Elena, com precisão cirúrgica, sacava seus frascos alquímicos e a lâmina de titânio, pronta para transformar o santuário dos imortais em um campo de cinzas.

Porém, quando o primeiro frasco alquímico de Elena atingiu o chão, erguendo uma cortina de fumaça dourada que queimava as vestes dos executores, o ar do saguão gelou por completo. Do meio das sombras da escadaria, uma salva de palmas lenta e sarcástica ecoou, fazendo os próprios monstros do Conselho pararem o ataque no meio do ar.

— Que espetáculo dramático, minha querida irmãzinha... me dá até orgulho ver o quanto você aprendeu no laboratório! — disse uma voz feminina terrivelmente familiar.

Elena parou no ato, o ar sumindo dos seus pulmões. Das sombras ao lado de Lorde Vane, caminhou uma mulher vestida em trajes de veludo negro, segurando uma adaga incrustada de rubis. Era Alice, a irmã mais velha de Elena que todos acreditavam ter sido morta num trágico assalto dez anos atrás.

— Alice?! — gritou Elena, a voz embargada pelo choque, caindo de joelhos na pedra fria. — Você... você tá viva?! Como assim?! Eu chorei no seu túmulo durante anos! Eu virei cientista pra tentar entender a tragédia que destruiu a nossa família!

— Ah, para de ser ingênua, Elena! — gargalhou Alice, com um olhar frio e sem um pingo de afeição. — Aquele assalto foi uma encenação barata! Eu sempre soube da existência do Conselho. Eu forjei a minha morte pra me juntar a eles e assumir o meu lugar de direito como a líder da ordem dos Inquisidores!

— Você mentiu pra mim a vida toda?! — desabafou Elena, as lágrimas queimando no seu rosto enquanto a dor da traição rasgava o seu peito.

— Eu não só menti, como usei a sua cabecinha genial pra fazer o trabalho sujo! — revelou Alice, com um sorriso venenoso. — A fórmula que você criou pra 'curar' o Anthony não passa de uma armadilha! Ela nunca foi um antídoto, meu amor. O que você injetou nele converteu o sangue do seu Conde no único elixir capaz de dar a mim e ao Lorde Vane o poder de andar sob a luz do sol sem queimar!

Anthony rosnou com uma fúria selvagem, avançando na direção de Alice com a lâmina em rasteira, mas antes que pudesse dar o segundo passo, um tiro certeiro de sniper ecoou do vitral do teto, atingindo o chão a milímetros do seu pé.

Das cordas de rapel que despencaram do teto em meio a cacos de vidro, surgiu Beto, o braço direito de Anthony e seu amigo mais fiel há três séculos, armado até os dentes com munição pesada de prata.

— Beto?! Graças a Deus você chegou! — exclamou Anthony, aliviado por um segundo. — Me ajuda a tirar a Elena daqui!

Mas, para o desespero absoluto de Anthony, Beto não mirou nos monstros. Ele girou o cano do fuzil e apontou diretamente para a cabeça de Anthony, sorrindo com frieza.

— Desculpa aí, meu velho Conde... mas o pagamento da Alice foi irrecusável — debochou Beto, dando uma tragada num cigarro de palha. — Quinhentos anos sendo o seu capanga já deu, né? Agora é a minha vez de ser o rei dessa birosca!

— Você me vendeu, Beto?! — urrou Anthony, o peito arfando de pura indignação enquanto o sangue fervia em suas veias.

— Negócios são negócios, meu amigo! — ironizou Beto. — Peguem os dois! O show do Conselho tá só começando!

Enquanto dezenas de mercenários e monstros cercavam o casal sob os gritos de triunfo de Alice e Lorde Vane, Elena olhou nos olhos de Anthony. No meio da traição da própria irmã e do melhor amigo de séculos, o suspense sufocante tomou conta do santuário de pedra. O destino deles parecia selado, mas a chama do amor e da vingança estava prestes a provocar a maior explosão que aquela câmara gótica já testemunhara.

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