LOGINO sopro cortante dos Alpes rasgava a carne como lâminas invisíveis, açoitando sem piedade os cabelos e as vestes encharcadas de suor de Anthony e Elena enquanto eles se esforsavam com os últimos degraus de pedra que levavam à lendária entrada da Câmara dos Imortais. O fortaleza — um colosso macabro de arquitetura gótica cravado no coração da rocha austríaca — parecia uma bocarra de pedra prestes a triturar qualquer insolente com a ousadia de desafiar aquela dinastia milenar.
À medida que avançavam, as colossais portadas de ferro batido, cravejadas de entalhes de demônios e brasões manchados de sangue antigo, erguiam-se como uma muralha invencível. Não havia sentinelas humanas na guarita; o perímetro daquele santuário era blindado por espectros sem alma e feitiços milenares que só reagiam ao toque de linhagens nobres de vampiros. Anthony estancou a poucos passos do portal, erguendo o rosto com a soberba gélida de quem já fora um lorde. Ele soltou os dedos de Elena por um segundo, espalmando as mãos no ar para sentir a vibração da energia arcana que protegia o lugar. Seus sentidos apurados percebiam o fedor de mofo envelhecido, o cheiro de sangue rançoso subindo dos calabouços subterrâneos e a podridão moral de uma elite que se julgava dona do mundo. — Eles já sentiram a nossa presença — rosnou Anthony, a voz grave retumbando contra a rocha fria. Ele encarou Elena, cujos olhos castanhos queimavam com uma fúria inabalável sob o céu cinzento das montanhas. — Os feitiços dos portões já avisaram a cúpula. Cada vampiro ancestral naquele calabouço nojento sabe que um renegado se aproxima... acompanhado da humana corajosa que teve a audácia de destruir as regras da eternidade. Elena deu um passo firme à frente, ajeitando a cinta tática onde escondia o adaga de titânio e as ampolas de substâncias alquímicas que ela mesma desenvolvera — compostos altamente explosivos projetados para anular a cura milagrosa da raça vampiresca. — Que tremam na base, Anthony — debochou Elena, com um sorriso de pura provocação nos lábios. — Eles passaram séculos mandando na vida e na morte escondidos no escuro. Chegou a hora de sentirem a fúria de quem não tem medo de sangrar porque escolheu viver de verdade do seu lado. Sem titubear perante aquele castelo de tiranos, Anthony deu três passos largos até o portal de ferro. Sem pedir licença e sem usar chaves, ele fechou o punho e concentrou toda a força brutal de seus músculos — alimentados por séculos de instinto assassino — para desferir um único e avassalador impacto. Com um estrondo de ensurdecer que fez as montanhas tremerem, o soco de Anthony esmagou o centro do portão. O ferro maciço entortou, estalou e cedeu com violência, arrancando as dobradiças antigas da rocha e desabando para dentro do pátio com uma explosão de faíscas e poeira. A fumaça se dissipou devagar, revelando a penumbra do salão nobre do santuário. No interior, cobertos por mantos escuros e iluminados por tochas de chamas azuladas, dezenas de aristocratas do Conselho já se amontoavam nas sacadas superiores, perplexos e espumando de raiva com a audácia do traidor. Anthony olhou de lado para Elena, estendendo-lhe a mão com um sorriso diabólico e provocador. — Seja bem-vinda ao acerto de contas, meu amor — murmurou o ex-vampiro, puxando-a para o seu lado enquanto atravessavam os destroços para cobrar uma dívida de quinhentos anos. Porém, a entrada triunfal durou poucos segundos. Um estrondo metálico fez o chão chacoalhar e uma enorme grade de prata e titânio despencou do teto, separando Anthony de Elena e trancando o ex-conde numa jaula eletrificada. — Anthony! — gritou Elena, esmurrando a grade enquanto fagulhas elétricas queimavam suas mãos. Das sombras do segundo andar, o som de aplausos debochados ecoou pelo salão. Caminhando calmamente até a balaustrada de mármore, surgiu a Dra. Renata, a respeitada mentora de Elena que todos acreditavam ter sido decapitada pelos executores do Conselho há cinco anos em São Paulo. Ela usava um vestido vermelho-sangue e segurava o controle remoto da jaula. — Dra. Renata?! — engasgou Elena, paralisada e sentindo o estômago embrulhar. — A senhora... a senhora tá viva?! Eu chorei no seu túmulo! Eu passei anos jurando vingar a sua morte! — Deixa de ser ingênua, garota! — riu Renata, com um tom de puro desprezo. — Aquela decapitação foi só uma encenação barata com um corpo de um indigente qualquer! Eu precisei sumir do mapa para negociar diretamente com o Conselho! O seu 'antídoto' para o vampirismo nunca foi pra salvar ninguém, sua tola! — Do que você tá falando, sua cobra?! — rosnou Anthony, agarrando as barras de prata enquanto a pele de suas mãos começava a fumegar e queimar com a eletricidade. — A fórmula que a Elena criou sob os meus palpites disfarçados purificou o seu sangue ancestral, Anthony! — revelou Renata, com o olhar brilhando de ganância. — Ela transformou você no doador perfeito! Agora, o seu sangue é a cura definitiva que vai permitir que nós, os escolhidos do Conselho, possamos andar sob o sol sem virar cinzas! Para tornar o pesadelo ainda mais inacreditável, uma porta lateral da galeria se abriu. De lá saiu Igor, o noivo de Elena que desaparecera misteriosamente no Mar do Caribe três anos antes e que ela acreditava ter sido devorado por tubarões. Ele vestia um terno alinhado e segurava um fuzil de precisão, sorrindo com deboche para a ex-noiva. — Igor?! Você também?! — berrou Elena, as lágrimas de decepção e ódio queimando em seus olhos. — O meu noivo... a minha mentora... vocês se juntaram pra desgraçar a minha vida?! — Ô, Elena, para de drama! — ironizou Igor, dando uma tragada num charuto grosso. — O negócio era o dinheiro! O Conselho me pagou cinquenta milhões de dólares pra te namorar, te vigiar e garantir que você focasse a sua vida inteira na pesquisa dessa vacina! Você achou mesmo que um cara como eu se apaixonaria por uma nerd de laboratório que só fala de biologia moleculare? — Seus vermes! Eu vou arrancar a cabeça de vocês com as minhas próprias mãos! — urrou Anthony, jogando todo o peso do seu corpo contra as barras energizadas da gaiola. — Cala a boca, vampirinho falido! — interrompeu a Dra. Renata, apertando um botão no painel. — Injetem o sedativo na garota e preparem o Conde para a drenagem total de sangue! Hoje à noite, nós seremos os novos deuses deste mundo! Com o alarme do santuário tocando e dezenas de mercenários armados cercando Elena por todos os lados, o desespero e o suspense atingiram o auge no salão de pedra. Entre a traição do amor do passado e a falsidade de quem a ensinou a trabalhar, Elena percebeu que teria de lutar com cada gota de força para salvar a vida do homem que realmente amava.O eco dos sapatos de Anthony no piso de mármore não tinha pressa nenhuma. Não precisava ter. Quando se vive há mais tempo do que a própria história se dá ao trabalho de lembrar, o tempo deixa de ser uma corrida e vira só uma prisão com paredes invisíveis.Ele deu um gole devagar no copo de cristal, olhando através dos vitrais altos da mansão. Lá fora, a névoa da madrugada engolia a cidade. Para os humanos lá embaixo, Anthony de Valmont era só um boato, uma história de terror sussurrada em noites frias. Mas ali dentro, sozinho no escuro, ele sabia exatamente o que era: um cara vestindo um terno impecável, mas morto por dentro há séculos.— Que piada… — murmurou ele para a sala vazia, a voz rouca quebrando o silêncio pesado. — A eternidade é um erro de cálculo do caralho.Ele já tinha feito de tudo nessa vida. Viu impérios caírem, governantes virarem poeira, colecionou artes raras, seduziu as mentes mais brilhantes e viajou o mundo inteiro. E para quê? No fim das contas, a sede sempre v
A pesada porta de carvalho maciço cedeu lentamente, revelando não um mero mortal imprudente ou um servo da noite em busca de refúgio, mas sim uma figura que parecia desafiar a própria lógica daquela mansão isolada. Sob a luz fria e prateada da lua, delineava-se a silhueta de uma mulher cujos olhos carregavam uma intensidade magnética e desafiadora, completamente imunes ao pavor que a presença de um predador milenar costumava inspirar. Ela não ostentava armas visíveis, nem tampouco o tremor característico daqu aqueles que pisavam em territórios proibidos; trazia consigo apenas uma aura de perigosa serenidade e uma maleta de couro envelhecido que exalava o odor inconfundível de pergaminhos antigos e ervas raras. Anthony permaneceu imóvel por um instante, avaliando o intruso com a precisão fria de quem já vira impérios ruírem e corações pararem, surpreendendo-se ao perceber que aquela intrusão despertava em suas entorpecidas fibras uma curiosidade há muito esquecida. — Vejo que os rumor
CAPÍTULO EXTRAORDINÁRIOA PENUMBRA DA CRIPTA subterrânea não era apenas um refúgio contra o mundo dos vivos; era um mausoléu erguido para a eternidade. Sobre a imensa mesa de carvalho negro, o calor difuso de dezenas de velas de cera de abelha tremeluzia contra as lombadas de couro de livros seculares. As chamas projetavam sombras longas e inquietas pelas paredes de pedra úmida — sombras que pareciam dançar conforme a respiração ritmada e serena de Elena.Anthony de Valmont mantinha-se inclinado sobre a mesa, a silhueta aristocrática envolta em seu casaco de veludo escuro. Seus olhos prateados, destituídos do brilho humano há mais de quinhentos anos, fixavam-se nos componentes alquímicos que a mulher organizava com uma precisão cirúrgica e fascinante. O cheiro denso de enxofre, alecrim seco e uma essência metálica inexplicável impregnava o ar, sufocando por completo o odor habitual de poeira, mofo e decadência que caracterizava a biblioteca secular da família Valmont.— Não se trata a
A penumbra da cripta subterrânea não era apenas um refúgio contra o mundo dos vivos; era um mausoléu erguido para guardar séculos de segredos. O corpo de Anthony de Valmont transformara-se em um campo de batalha invisível, no qual eras inteiras de trevas e biologia sobrenatural colidiram em uma violenta e silenciosa combustão molecular. A cada segundo, o veneno ancestral cravado em sua carne resistia com fúria à nova ordem imposta pelo tônico alquímico, fazendo com que suas veias parecessem carregar brasa viva em vez de sangue.Apoiado com as duas mãos trêmulas sobre o piso gélido da biblioteca subterrânea, o outrora imortal respirava com extrema dificuldade. Os músculos de suas costas mantinham-se curvados e rígidos sob o casaco de veludo escuro, enquanto o suor frio acumulava-se em sua testa pálida. Ele fechou os olhos com força, cerrando os dentes aristocráticos para conter os gritos de agonia que ameaçavam rasgar sua garganta. Havia um orgulho secular em cada linha do seu rosto; e
O som no peito de Anthony de Valmont já não era uma simples lembrança do passado. Era um martelo pesado, violento, esmurrando as paredes da sua própria caixa torácica. Thum-thum. Thum-thum. A cada pancada daquele coração ressuscitado, uma onda de calor denso e avermelhado se espalhava por seus membros, queimando os últimos vestígios do frio de gelo que o acompanhara por mais de quinhentos anos.Pela primeira vez em séculos, ele levou a mão trêmula ao peito. A pele sob a camisa de linho fino não parecia mais mármore esculpido no escuro. Ela estava quente. Transpirava. Guardava um pulso real, desesperado, de sangue mortal.Elena permaneceu a poucos passos, os braços cruzados sobre o peito. Seus olhos castanhos não tinham pena; carregavam aquele brilho provocador e desafiador que sempre fazia o sangue de Anthony ferver — mesmo quando ele nem sangue quente tinha.— Bem-vindo de volta ao mundo dos mortais, conde — disse ela, deixando escapar um sorriso de canto, carregado de deboche e vitó
O sol de meio-dia já inundava sem piedade os aposentos superiores da mansão dos Valmont. A claridade amarelada rasgava a poeira flutuante e espantava o cheiro de mofo e misticismo que impregnara aqueles móveis centenários por eras. Sentado em uma poltrona de veludo escuro colada à janela, Anthony de Valmont fitava o horizonte dos jardins com uma estupefação quase infantil.Para aquele homem, que por mais de quinhentos anos fora o temido Conde de Valmont, o mundo lá fora deixara de ser uma pintura morta através de um vidro escuro. Ele sentia a terra respirar. Cada folha sacudida pelo vento fresco e cada canto distante dos pássaros batiam em seus ouvidos com uma nitidez avassaladora. Seus sentidos, antes anestesiados pelo torpor gélido e arrogante da imortalidade, finalmente despertavam para a crueza e a beleza da vida real.Mas a paz durou pouco.A porta de madeira pesada rangeu, e Elena entrou no salão carregando uma bandeja de prata um tanto desgastada. Sobre ela, repousavam uma xíca







