LOGINCAPÍTULO 2: Faro de Repórter
O resto do meu primeiro dia na Divisão de Homicídios e Investigações Especiais passou como um tordo em plena tempestade. Depois da perícia na joalheria, Alex e eu voltamos para a delegacia com os relatórios preliminares de Otto e as gravações das câmeras de segurança da rua de trás. Passei duas horas analisando cada quadro dos vídeos até confirmar a suspeita: o assaltante realmente mancaria do lado esquerdo, usando o viaduto da Avenida Central como rota de fuga para evitar o fluxo de pedestres. Com as informações consolidadas, Alex e eu preenchemos a ordem de busca e repassamos o patrulhamento para a equipe ostensiva. Quando finalmente olhei para o relógio na parede da sala principal, os ponteiros já marcavam quase sete da noite. A maioria dos investigadores já havia encerrado o expediente. O silêncio do fim de tarde só era quebrado pelo som esporádico do teclado de Alex e pelo borbulhar da cafeteira no canto do corredor. — Por hoje é só, parceira — disse Alex, desligando o monitor do computador e vestindo a jaqueta. — Para o primeiro dia, você se saiu melhor do que noventa por cento dos veteranos que passaram por aquela porta. O Franco notou isso. — Obrigada, Alex — respondi, esboçando um sorriso discreto enquanto organizava as pastas sobre a minha mesa. — Amanhã cedo acompanho o desdobramento do mandado. — Isso aí. Vai descansar. Amanhã a rotina de Silverlake não vai pegar leve com a gente. Nos despedimos e caminhei até a minha mesa para pegar o sobretudo e a bolsa. Enquanto ajeitava o casaco, meu olhar desviou por um segundo para a janela de vidro que dava para a rua. A chuva havia retornado, mas agora vinha acompanhada de um vento frio que fazia as folhas das árvores da alameda balançarem devagar sob a iluminação alaranjada dos postes. E, sem que eu quisesse, a imagem daquele sorriso audacioso e daqueles olhos verdes marcantes invadiu minha mente. Leonardo Holloway. Senti um aperto sutil no peito. Não era segredo para mim o quanto aquele reencontro me pegou desprevenida. Dez anos haviam se passado desde a última vez que troquei palavras com ele. Dez anos desde que eu me fechara para a amizade dele e exigira que saísse da minha vida. Ver o "Léo" transformado naquele homem alto, seguro de si e ostentando um crachá de repórter investigativo trouxe à tona uma mistura incômoda de nostalgia e defesa. No fundo, eu sabia que ele tentava chamar minha atenção da mesma forma que fazia quando éramos garotos: provocando, zombando da minha cara séria e tentando arrancar de mim qualquer reação que não fosse a indiferença. — Ele não muda mesmo — murmurei para o silêncio da sala vazia, balançando a cabeça. Ajeitei a bolsa no ombro, desliguei a luminária e desci as escadas em direção à saída principal. A recepção do térreo estava calma. Passei pelas catracas de acesso e empurrei as portas de vidro para enfrentar o ar gelado da noite. Meus pés mal haviam pisado no primeiro degrau de pedra da escadaria externa quando ouvi uma voz conhecida ressoar a poucos metros: — Você demorou tanto que eu já estava prestes a ligar para o Franco e relatar o sequestro da nova detetive. Parei no topo dos degraus, congelando o passo. Encostado no corrimão de metal na base da escada, sob um guarda-chuva escuro, estava Leonardo. Ele vestia a mesma jaqueta de couro, mas havia tirado a câmera do pescoço. O cabelo castanho trazia algumas gotas de chuva presas às pontas, e o sorriso de canto de boca Continuava exatamente lá, firme e desafiador. Respirei fundo, ajustando a gola do sobretudo para esconder a surpresa, e desci os degraus com passos calmos e medidos. — O que você ainda está fazendo aqui, Leonardo? — perguntei, usando o tom mais neutro e profissional que consegui formar. — O expediente da imprensa não acabou há horas? Léo deu um passo à frente, ajustando a inclinação do guarda-chuva sobre a minha cabeça assim que me aproximei, protegendo-me da garoa sem pedir licença. O gesto foi tão natural que quase me fez dar um passo para trás. — Em primeiro lugar: ninguém me chama de "Leonardo", Maya. Só a minha mãe quando eu apronto alguma coisa muito grave — provocou ele, os olhos verdes brilhando sob a luz fraca do poste. — Em segundo lugar: repórter investigativo não tem horário de saída. A gente vai aonde a notícia está. E a notícia de hoje era a estreia da minha antiga colega de classe na Homicídios. — Eu não sou notícia, Léo — retruquei, encarando-o com seriedade. — E você não deveria estar plantado na porta da delegacia esperando pelos policiais. — Eu não estava esperando "os policiais". Estava esperando você — corrigiu ele de pronto, sem perder a postura descontraída. Ele deu um meio sorriso mais brando, encarando meu rosto por um segundo antes de continuar: — Olhei pela janela do jornal e vi que a viatura de vocês já tinha voltado há horas. Achei que valia a pena esperar dez minutos para ver se você saía inteira do primeiro dia. Senti um arrepio discreto subir pela nuca, mas mantive a expressão firme. — Eu sei me cuidar muito bem, obrigada. Aprendi isso na academia e na vida. — Eu sei que sabe — disse Léo, e por um instante a provocação na voz dele deu lugar a um tom mais suave, quase respeitoso. — Sempre soube. Você sempre foi a pessoa mais durona e dedicada que eu já conheci. Mas isso não significa que não possa aceitar um guarda-chuva ou uma conversa decente depois de dez anos sem saber se você ainda estava em Silverlake. A menção implícita aos dez anos fez o silêncio pesar entre nós por alguns segundos. A chuva continuava a tamborilar contra o tecido do guarda-chuva. — O que você quer, Léo? — perguntei, mantendo os braços cruzados sobre o peito. — Matéria para o Diário de Silverlake ou satisfazer a sua curiosidade? — Que tal um pouco dos dois? — respondeu ele, recuperando a faísca brincalhona nos olhos. — Como repórter, quero saber se o caso da joalheria tem ligação com a quadrilha do porto. Como um velho amigo... quero saber como você está, Maya. De verdade. — Não sou sua fonte oficial de informações, repórter Holloway — declarei, dando um passo para o lado, fora do alcance do guarda-chuva dele, e abrindo o meu próprio. — Para obter detalhes de investigações em andamento, procure a assessoria de imprensa do Delegado Franco amanhã às oito da manhã. E quanto ao resto... eu estou bem. Muito bem. Léo olhou para o guarda-chuva que eu acabara de abrir, dando um risinho fraco e balançando a cabeça. — Você continua arisca como um gato selvagem. Impressionante. Não dá o braço a torcer por nada. — comentou ele, dando um risinho fraco e balançando a cabeça. — É sempre esse mesmo tom afiado de primeira para manter todo mundo à distância? — Chama-se cautela, limites e profissionalismo — corrigi de pronto, sem hesitar, soltando aquele meu clássico aviso verbal direto antes de ajustar a alça da bolsa. — Coisas que pessoas estranhas ou intrometidas precisam aprender a respeitar. Agora, se me der licença, eu preciso ir para casa. Comecei a caminhar em direção ao meu carro estacionado na vaga de visitantes ao lado do prédio, mas ouvi os passos dele me acompanhando pela calçada encharcada, mantendo uma distância respeitosa. — Tudo bem, detetive Vance — disse ele, elevando um pouco a voz para cobrir o barulho do trânsito. — Não vou te alugar hoje. Mas saiba que o Gavin, meu editor-chefe, me escalou para cobrir a rotina da Divisão de Homicídios este mês. Então você vai ter que aturar essa cara bonita e intrometida nos corredores da delegacia por um bom tempo. Parei ao lado do meu veículo e destravei as portas pelo alarme. Virando-me para ele uma última vez, ergui uma sobrancelha. — O Franco autorizou isso? — Digamos que o Diário de Silverlake tem seus acordos de cooperação com a segurança pública — respondeu Léo, piscando um olho com uma audácia irritante. — A gente se vê amanhã bem cedo, Maya. Vê se não chega atrasada. Antes que eu pudesse responder a àquela provocação, Leonardo Holloway deu meia-volta, girou o guarda-chuva no ombro e caminhou de volta pela alameda arborizada, assobiando uma melodia descontraída enquanto desaparecia na neblina da noite. Fiquei parada por alguns instantes, vendo a figura dele sumir na esquina. Suspirei fundo, entrando no carro e fechando a porta. O motor do veículo roncou suavemente. Liguei os limpadores de para-brisa e apoiei as mãos no volante. O cheiro de couro e chuva tomava conta do espaço. Eu sabia que a presença de Léo traria complicações para a minha rotina já tão organizada e estabelecida. Ele era intrometido, observador e parecia determinado a cutucar minhas defesas até encontrar uma brecha. Mas, enquanto engatava a marcha e saía com o carro pelas ruas iluminadas de Silverlake, não pude conter um pensamento involuntário: Apesar da minha cautela e da guarda alta que eu sempre mantinha com quem tentava se aproximar rápido demais, ter o som daquela voz e a presença provocadora de Leonardo Holloway de volta à minha vida tornava a frieza de Silverlake um pouco menos solitária.CAPÍTULO 30: Um Novo Amanhecer Seis meses se passaram desde que o martelo bateu naquele tribunal.A primavera trazia um ar leve para Silverlake, com o sol iluminando as copas das árvores no parque central da cidade. A cidade parecia ter virado uma página, e eu também.Estava de pé no alto da colina do memorial municipal, onde um pequeno jardim fora projetado em homenagem às vítimas do escândalo do Novo Cais. No centro, uma placa de bronze trazia os nomes gravados daqueles que lutaram pela verdade, incluindo os de Erick Vance e Stella Vance.Depositei um buquê de flores brancas ao pé do monumento e toquei a superfície fria do metal. Durante doze anos, carreguei o peso da ausência dos meus pais como uma ferida aberta. Hoje, porém, o que sentia no peito não era a dor sufocante do luto, mas uma saudade tranquila e a gratidão por ter honrado a história deles.— O lugar ficou bonito, não ficou? — a voz suave do Léo surgiu atrás de mim.Me virei e o vi caminhando devagar pela grama, v
CAPÍTULO 29: O Veredito de SilverlakeO tribunal central de Silverlake amanheceu cercado por uma multidão. Dezenas de equipes de rádio e televisão ocupavam as escadarias do prédio, enquanto cidadãos com cartazes pedindo justiça para a família Vance e pelas vítimas do Novo Cais se aglomeravam na calçada.Entrei no edifício acompanhada por Léo, Alex e Chloe. Eu vestia um terno preto ajustado, com o distintivo da Polícia Civil preso com firmeza ao cinto. Não havia sinal de incerteza nos meus passos.No grande salão do júri, o ar era denso. A mesa da acusação estava organizada com o promotor Denver e Alex ajustando os últimos relatórios. Do outro lado, na mesa da defesa, três advogados de terno impecável conversavam em voz baixa.Poucos minutos depois, as portas laterais abriram-se e Samantha Sterling entrou escoltada por dois guardas prisionais.Ela vestia o uniforme cinza do sistema penitenciário, sem as jóias, a maquilhagem refinada ou os trajes de grife que costumavam marcar a su
CAPÍTULO 28: A Teia da Justiça A luz da manhã que entrava pela janela da minha sala parecia diferente. Não era mais a claridade opaca de quem vivia sob a sombra de uma mentira ou de um luto mal resolvido; era a luz suave de quem finalmente podia respirar em paz.Depois de receber alta e passar os últimos dois dias sob os cuidados rigorosos (e exageradamente carinhosos) do Léo — que tentou me fazer comer sopa de todas as formas possíveis e organizou cada detalhe da rotina para eu não fazer esforço —, eu finalmente decidi que precisava me arrumar para encarar os compromissos do dia.Estava sentada no sofá da sala, vestindo uma calça confortável e um casaco leve de mangas longas, repassando mentalmente os acontecimentos enquanto o aroma de café recém-passado tomava conta do apartamento. Na mesinha de centro, a pasta de couro com os relatórios da Polícia Civil, o laudo pericial do Novo Cais e a cópia da fita de áudio entregue por Léo formavam o dossiê que soterraria de vez a Lumina Ho
CAPÍTULO 27: As Marcas do Amanhã O pisca-pisca vermelho e azul das viaturas e das ambulâncias transformava a fumaça do pátio do galpão de Ravena em um cenário quase irreal. O cheiro de queimado e pólvora aos poucos ia se dissipando no ar frio da madrugada.Dois paramédicos me ajudavam a sentar na borda da maca retrátil, higienizando os cortes no meu rosto e enfaixando os meus pulsos esfolados pelas abraçadeiras de náilon. Eu estava exausta, com cada osso do corpo doendo, mas pela primeira vez em doze anos, o peso no meu peito parecia mais leve.Léo estava em pé logo ao meu lado, segurando uma manta térmica sobre os meus ombros. Ele não tinha soltado a minha mão nem por um segundo desde que saímos de dentro do galpão, mas a sua fisionomia ainda era uma mistura engraçada de alívio com um choque pós-traumático bem evidente.— Senhorita Vance, a sua pressão está estabilizada, mas precisamos levá-la ao pronto-socorro para examinar as costelas e fazer um raio-X — avisou o paramédico, a
CAPÍTULO 26: Contra o Tempo O som de sirene ecoava distorcido no meu ouvido enquanto o carro descaracterizado de Alex rasgava o asfalto molhado em direção ao porto de Silverlake. Ao meu lado, Alex falava ao rádio com a central de rastreamento, mantendo o olhar fixo na estrada escura.— O sinal do celular descartável interceptado bateu com o ERB do píer abandonado de Ravena — disse Alex, desligando o rádio e me encarando. — Léo, à polícia civil já está cercando o perímetro, mas o promotor deu a ordem: invasão tática só com confirmação visual do cativeiro, para evitar um confronto armado de risco antes de sabermos onde a Maya está posicionada.Apertei o distintivo da Maya no meu bolso, sentindo o contorno metálico do brasão. A sensação de impotência me corroía por dentro, mas o faro investigativo e a adrenalina me mantinham focado.— A Samantha não levou a Maya para negociar — comentei, ajustando a alça da minha câmera profissional, que eu trouxera do apartamento. — Ela levou a May
CAPÍTULO 25: A Brecha da Lei A luz dos giroflex vermelhos e azuis cortava o crepúsculo na frente do imponente prédio da Lumina Patrimonial. Repórteres e fotógrafos se acumulavam atrás da fita zebrada da polícia, com os flashes disparando sem parar enquanto os oficiais escoltavam Samantha Sterling pelas escadas de mármore. A minha tia vestia um conjunto impecável de alfaiataria preta, mas a sua expressão era de puro veneno. Ao passar por mim e pelo Léo, que observavamos tudo a poucos metros de distância, ela desacelerou o passo. Os olhos frios de Samantha cravaram nos meus. — Você acha que venceu, Maya? — murmurou ela, com a voz carregada de desdém, enquanto um policial a guiava para o banco traseiro da viatura. — Você não passa de uma garota ingênua jogando num tabuleiro que não entende. Não respondi. Apenas mantive a cabeça erguida, vendo a porta da viatura bater e o carro arrancar em direção ao centro de detenção provisória. A noite seguinte e o dia posterior trouxeram um







