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A Luna Adormecida
A Luna Adormecida
Autor: Morcego

Capítulo 1

Autor: Morcego
Já era tarde, e eu dormia profundamente. Ao menos aquele ano em que estive sob o feitiço teve um lado bom: me livrou do sono leve que me atormentava havia anos.

Então, senti o colchão afundar atrás de mim. Assim que o peito quente dele se colou às minhas costas, abri os olhos de súbito, e minha loba eriçou os pelos dentro de mim.

Num reflexo, enfiei a mão debaixo do travesseiro, puxei a adaga de prata e encostei a ponta na garganta dele.

Kyle ficou imóvel. Ergueu as mãos devagar e falou em voz baixa:

— Sou eu. Te assustei?

O luar iluminou seu rosto, aquele mesmo rosto que eu conhecia desde os doze anos. Naquela época, bastava tê-lo por perto para minha loba rolar de pura alegria dentro do meu peito. Agora, ela se encolhia no canto mais profundo, com os olhos firmemente fechados.

Kyle estava impregnado com o cheiro de Freya, um aroma adocicado e enjoativo.

Meu peito se contraiu quando a reação do vínculo de companheiros me atingiu, fazendo a dor rasgar minhas costelas de dentro para fora. Mordi a língua e coloquei a adaga de volta debaixo do travesseiro.

— Desculpa. Eu ainda estava meio sonolenta.

A testa dele se desenrugou.

— Antes, você me reconhecia só pelo som dos meus passos.

— Reconhecia? — Fiz uma pausa antes de completar:

— Isso era antes.

Ele achou que eu ainda estava sonolenta, e um leve sorriso surgiu em seu olhar. Não dei mais atenção a ele, apenas me virei para puxar a coberta, mas Kyle ajeitou a ponta para mim, baixando o olhar com ternura.

— Freya não está se sentindo bem. O curandeiro disse que o filhote pode estar em perigo.

A palavra "filhote" me atravessou o peito. Apertei a coberta com tanta força que minhas mãos tremiam, mas não consegui conter as lágrimas, que escorreram pelo meu rosto.

Kyle desviou o olhar.

— Eu só toquei nela para realizar seu último desejo. Não é como se sentisse algo genuíno por ela.

Enxuguei as lágrimas e me esforcei para assumir uma expressão indiferente.

— Kyle, eu não perguntei.

Ele soltou o ar e, de fato, eu não havia perguntado.

Antes, quando ele atrasava sequer quinze minutos, eu invadia o salão do conselho e expulsava todas as lobas que ficavam rondando ao redor dele. Todos na alcateia Lua Prateada sabiam que eu defendia meu companheiro como defendia a própria vida.

Agora, porém, mesmo após ele engravidar Freya, eu não esbocei nenhuma reação. Era como se aquele ano de sono finalmente tivesse me ensinado a ser compreensiva.

A tensão nos ombros dele diminuiu.

— Neste último ano... você passou por muita coisa.

— Não, não passei.

— Sylvie, obrigado por ser tão compreensiva.

— Está me agradecendo por quê?

Pensei no assunto com seriedade, e minha voz soou quase gentil ao continuar:

— Freya salvou sua vida e disse que estava morrendo. Você fez a cerimônia com ela e deu a ela a marca, realizando seu último desejo para retribuir o que ela fez. Nada mais justo.

Kyle soltou um longo suspiro, como se finalmente se livrasse de um peso no peito.

— Assim que Freya der à luz o filhote em segurança, tudo isso vai acabar.

— Tudo bem.

Ele se inclinou e me puxou para seus braços, com as mãos tremendo de leve.

— Sylvie, ter você aqui... significa tudo para mim.

Encarei seus olhos. A gratidão se agitava neles, acompanhada até de um lampejo de alívio.

Era estranho, eu deveria ser sua companheira predestinada, mas, justamente agora que já não sentia absolutamente nada por ele, Kyle se sentia à vontade.

Ele beijou o alto da minha cabeça e saiu com passos leves, dizendo que prepararia um caldo de ossos para mim.

Só quando o som dos seus passos desapareceu por completo desmoronei, depois de todo o esforço que fiz para manter aquela indiferença de fachada.

A palma da minha mão sangrava onde minhas unhas se cravaram, e gotas de sangue caíam sobre a minha saia, mas eu já não sentia aquela dor. Tudo o que sentia era o buraco que a palavra "filhote" abriu no meu peito, por onde o vento frio passava assobiando.

"Ele e Freya tinham um filhote."

Aquele pensamento me atingiu em cheio, e tudo escureceu diante dos meus olhos. Escorreguei pela beirada da cama e caí com força no chão frio.

Só então percebi que toda aquela calma era apenas meu esforço para não desmoronar na frente dele.

Baixei os olhos para o meu pulso, onde um desenho escuro, parecido com um hematoma, começava a aparecer na pele. Durante aquele ano de sono, toda vez que ele tocava Freya, aquelas marcas de sangue brilhavam, e o vínculo de companheiros causava reações em meu corpo.

No começo, a dor era tão forte que quase gritei. Depois, eu só ficava deitada naquela escuridão sem fim, ouvindo os dois murmurarem pela conexão mental que a marca temporária criou entre eles, enquanto a agonia me atingia em ondas, uma após a outra.

Uma vez, dez vezes... Acabei perdendo a conta. Foi então que minha loba se calou.

Lá fora, o vento varria a fortaleza de pedra, e a lua do norte brilhava intensa. Naquela direção ficava a alcateia Geada, meu verdadeiro lar.

Faltavam só mais três dias para eu ir embora.
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Último capítulo

  • A Luna Adormecida   Capítulo 9

    A segunda primavera havia chegado. A neve no chão começou a derreter, e as feridas do meu corpo finalmente cicatrizaram.Minha loba, que esteve silenciosa por tanto tempo, se mexeu devagar dentro de mim. Primeiro, moveu as orelhas, como se testasse os próprios movimentos. Depois, ergueu a cabeça e soltou um uivo baixo, um som que eu não ouvia havia muito tempo.O som era fraco, mas parecia que ela enfim colocava para fora toda a dor que guardei dentro de mim durante aquele ano no escuro.Me agachei, e as lágrimas caíram na neve sem aviso. Cyril não tentou me consolar. Apenas dispensou os guardas e permaneceu ao meu lado, sozinho.Não soube dizer quanto tempo passou até um lenço aparecer diante de mim.— Já acabou de chorar?Peguei o lenço e balancei a cabeça.— Não.— Então continue. Coloque para fora toda a dor que ficou guardando.Ergui para ele os olhos avermelhados.— Não se incomoda com o barulho?Cyril soltou uma risada baixa.— Quando era pequena, você passava o dia

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  • A Luna Adormecida   Capítulo 7

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    Kyle concordou em desfazer a marca temporária de Freya, mas se recusou terminantemente a romper nosso vínculo de companheiros.Um vínculo predestinado não podia ser rompido por uma só pessoa. Era preciso que ambos renunciassem aos direitos que tinham um sobre o outro diante da Deusa da Lua.Kyle ficou do lado de fora da fortaleza de pedra da alcateia Geada por três dias inteiros.No primeiro dia, mandou meus bolinhos de mel favoritos, mas eu não os aceitei. No segundo, enviou a pequena escultura de lobo que fez para mim quando eu tinha doze anos. Sem sequer tocar na peça, mandei os guardas devolvê-la.No terceiro, não mandou nada. Apenas se ajoelhou na neve e ficou me olhando de longe.Eve foi espiá-lo algumas vezes e, quando voltou, hesitou em falar.— Quer defendê-lo?Ela balançou a cabeça depressa.— É que nunca vi o Alfa desse jeito.— Nem eu.Antes, era eu quem ficava esperando do lado de fora, na chuva.O salão do conselho da alcateia Lua Prateada não tinha nenhum told

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    Cyril não perguntou o que aconteceu. Tirou a própria capa, me envolveu nela e me ergueu para dentro da carruagem. Quando o calor me alcançou, toda a tensão que acumulei ao longo daqueles três dias finalmente se desfez.— Cyril... Kyle me traiu. Não tenho mais um lar...Cyril limpou o sangue do canto da minha boca. Seus olhos cinza-prateados estavam frios como gelo.— Que bobagem. As portas da alcateia Geada nunca se fecharam para você.Quis rir, mas as lágrimas vieram primeiro.Aos doze anos, fui enviada para a alcateia Lua Prateada para crescer ao lado de Kyle, o herdeiro, como parte de um tratado entre nossas alcateias. Na despedida, Cyril correu atrás da nossa carruagem por quase cinco quilômetros, dizendo que eu devia voltar para casa se um dia alguém me tratasse mal.Mas eu fiz da alcateia Lua Prateada o meu lar e esqueci o caminho de volta.— Durma.Cyril cobriu meus olhos com a palma da mão.— Eu levo você pelo resto do caminho, Sylvie.Dormi por dois dias.Quando aco

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