LOGINA segunda primavera havia chegado. A neve no chão começou a derreter, e as feridas do meu corpo finalmente cicatrizaram.Minha loba, que esteve silenciosa por tanto tempo, se mexeu devagar dentro de mim. Primeiro, moveu as orelhas, como se testasse os próprios movimentos. Depois, ergueu a cabeça e soltou um uivo baixo, um som que eu não ouvia havia muito tempo.O som era fraco, mas parecia que ela enfim colocava para fora toda a dor que guardei dentro de mim durante aquele ano no escuro.Me agachei, e as lágrimas caíram na neve sem aviso. Cyril não tentou me consolar. Apenas dispensou os guardas e permaneceu ao meu lado, sozinho.Não soube dizer quanto tempo passou até um lenço aparecer diante de mim.— Já acabou de chorar?Peguei o lenço e balancei a cabeça.— Não.— Então continue. Coloque para fora toda a dor que ficou guardando.Ergui para ele os olhos avermelhados.— Não se incomoda com o barulho?Cyril soltou uma risada baixa.— Quando era pequena, você passava o dia
Kyle deixou a alcateia Geada no dia em que os lobos renegados do norte atravessaram o rio congelado.Eles seguiram o rastro de seu cheiro de Alfa enfraquecido, na esperança de romper as defesas do portão norte enquanto as duas alcateias passavam por uma transição. Quando os uivos ecoaram pelo campo coberto de neve, Cyril vestiu seu traje de combate imediatamente. Antes de sair, designou seus quatro melhores guardas para me proteger.— Cyril, não preciso de tanta gente.— Mas eu preciso.Ele ajustou o fecho da minha capa, tomando cuidado para não encostar no pescoço. Evitou aquele pedaço de pele que ainda me fazia estremecer.— Só consigo me concentrar na luta se souber que você está segura.Então, ele se virou e foi embora. Não me mandou ficar no quarto, nem disse que era para o meu próprio bem. Apenas me deixou ter o poder de escolha.Mesmo assim, fui até o portão norte. Não por Kyle, mas porque eu era uma loba da alcateia Geada, e aquele era o meu lar.Uma dúzia de cadáveres
Eu não aceitei.Na noite de lua cheia, o sacerdote da alcateia Geada acendeu doze lamparinas de prata. Antes da cerimônia de ruptura começar, Kyle ainda se recusava a pegar a lâmina de prata.— Sylvie, me dê mais uma chance.As costas dele, sempre tão eretas, finalmente se curvaram.— Já desfiz a marca temporária, quebrei o feitiço do sono e entreguei Freya aos anciãos para ser julgada. Você não gosta da casa principal? Vamos nos mudar para outra fortaleza. Odeia a alcateia Lua Prateada? Então eu fico aqui na alcateia Geada com você.Ele disse tudo tão depressa, como se bastasse repor tudo o que tirou de mim para fazer as coisas voltarem a ser como antes. Mas até um osso curado deixava cicatrizes, quanto mais um coração.— Kyle. — Interrompi. — Eu nunca quis um quarto. Nunca quis um distintivo de Luna.— Então o que você queria?— Eu queria que você acreditasse em mim quando eu dizia que sentia dor. Queria que ao menos me ouvisse quando alguém me machucava. Queria um companhe
Kyle concordou em desfazer a marca temporária de Freya, mas se recusou terminantemente a romper nosso vínculo de companheiros.Um vínculo predestinado não podia ser rompido por uma só pessoa. Era preciso que ambos renunciassem aos direitos que tinham um sobre o outro diante da Deusa da Lua.Kyle ficou do lado de fora da fortaleza de pedra da alcateia Geada por três dias inteiros.No primeiro dia, mandou meus bolinhos de mel favoritos, mas eu não os aceitei. No segundo, enviou a pequena escultura de lobo que fez para mim quando eu tinha doze anos. Sem sequer tocar na peça, mandei os guardas devolvê-la.No terceiro, não mandou nada. Apenas se ajoelhou na neve e ficou me olhando de longe.Eve foi espiá-lo algumas vezes e, quando voltou, hesitou em falar.— Quer defendê-lo?Ela balançou a cabeça depressa.— É que nunca vi o Alfa desse jeito.— Nem eu.Antes, era eu quem ficava esperando do lado de fora, na chuva.O salão do conselho da alcateia Lua Prateada não tinha nenhum told
Cyril não perguntou o que aconteceu. Tirou a própria capa, me envolveu nela e me ergueu para dentro da carruagem. Quando o calor me alcançou, toda a tensão que acumulei ao longo daqueles três dias finalmente se desfez.— Cyril... Kyle me traiu. Não tenho mais um lar...Cyril limpou o sangue do canto da minha boca. Seus olhos cinza-prateados estavam frios como gelo.— Que bobagem. As portas da alcateia Geada nunca se fecharam para você.Quis rir, mas as lágrimas vieram primeiro.Aos doze anos, fui enviada para a alcateia Lua Prateada para crescer ao lado de Kyle, o herdeiro, como parte de um tratado entre nossas alcateias. Na despedida, Cyril correu atrás da nossa carruagem por quase cinco quilômetros, dizendo que eu devia voltar para casa se um dia alguém me tratasse mal.Mas eu fiz da alcateia Lua Prateada o meu lar e esqueci o caminho de volta.— Durma.Cyril cobriu meus olhos com a palma da mão.— Eu levo você pelo resto do caminho, Sylvie.Dormi por dois dias.Quando aco
Eu desabei antes mesmo da Caçada de Inverno começar.Naquela manhã, bem cedo, o vínculo temporário entre Kyle e Freya se acendeu de repente, e as vozes dos dois invadiram minha cabeça sem permissão.— Kyle, estou com tanto frio.— Vem mais perto.— Seu lobo vai me odiar?— Não.No segundo seguinte, o cheiro de companheiros explodiu através do vínculo, e a reação me atingiu com a força de um trem de carga.Caí da cama, com a sensação de que mãos invisíveis torciam e despedaçavam cada osso do meu corpo. O sangue subiu pela minha garganta, e eu o expeli numa tosse sobre o tapete branco. Aquele vermelho era ofuscante.Eve entrou em pânico e correu para buscar o curandeiro, mas, quando voltou com ele, os guardas a barraram na porta.Freya estava no fim do corredor, envolta no roupão de Kyle. A marca no pescoço dela brilhava num vermelho intenso.— O que está acontecendo?Eve chorava, desesperada.— A Luna está tossindo sangue! Deixem o curandeiro passar!Freya entrou no meu qua







