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Capítulo 2

Autor: Morcego
Ainda meio adormecida, voltei a ouvir as mesmas vozes insuportáveis de um ano atrás.

— O feitiço do sono fez efeito. Ela não vai saber o que está acontecendo lá fora. — Disse a bruxa.

Kyle ficou em silêncio por um longo tempo.

— Isso vai machucá-la?

— Ela vai estar fraca quando acordar.

— Então faça.

Mas a bruxa mentiu para Kyle. Eu sentia tudo e, mesmo em coma, a dor se tornava dez vezes mais intensa. Gritei o nome dele na minha cabeça repetidas vezes, mas ninguém respondeu.

Então, Freya começou a chorar.

— Kyle, eu não devia ter feito aquele pedido. Se Sylvie descobrir, vai me odiar para sempre.

Kyle baixou a voz para acalmá-la.

— É só uma marca temporária. Assim que sua loba se estabilizar, vou desfazê-la.

Quando a cerimônia começou sob o luar, as presas dele perfuraram a nuca de Freya. O vínculo temporário de companheiros se formou num instante entre os dois, enquanto o vínculo verdadeiro entre mim e Kyle, aquele que deveria ser sagrado, foi empurrado para segundo plano.

Meu Deus, como aquilo doía. Eu ouvia a respiração dos dois e o som do meu próprio coração se partindo. Mas meus olhos não se abriam, e meus dedos não se mexiam.

Eu só ficava deitada ali, completamente desperta naquela escuridão, enquanto a dor irradiava pelo vínculo dos dois, repetidas vezes.

— Luna?

A voz da criada Eve me trouxe de volta à realidade daquela manhã. Abri os olhos e vi que meu travesseiro estava completamente encharcado. Ao me ver acordada, Eve veio depressa até mim com uma bandeja.

— O Alfa estava na cozinha antes do sol nascer. Preparou caldo de ossos e assou seus bolinhos de mel favoritos.

— Leve isso embora.

— Mas ele ficou acordado por seis horas seguidas...

— É doce demais. Não consigo comer.

O silêncio se instalou à porta. Kyle estava parado ali, com outra tigela nas mãos. Ele claramente deve ter escutado tudo.

— Você costumava comer cinco desses de uma vez.

— Um ano se passou e o meu paladar mudou.

Ele entrou e colocou a tigela na minha frente.

— Então, prova isso aqui. Coloquei frutas silvestres azedinhas, aquelas que você adorava.

Mordi um pedaço de carne desidratada sem sal, sem levantar os olhos.

— Dê isso para Freya. Uma loba grávida precisa mais disso.

A tigela de pedra bateu na mesa com um baque abafado, mas definitivo. Kyle permaneceu imóvel. Logo, a testa dele se desenrugou, e sua voz voltou a soar acolhedora, como antigamente.

— Você ainda está pensando nela.

— E daí?

— Nada. Só não esperava que você fosse se preocupar com ela.

Quase ri.

— Alfa, eu estou cuidando de você.

— Não me chame assim.

— Então como devo te chamar?

— Me chame pelo nome. Somos companheiros predestinados, e ficar me chamando de Alfa o tempo todo faz parecer que somos dois estranhos.

Ele adorava me ouvir dizer seu nome. Diante dos anciãos ou no campo de batalha, bastava eu dizer "Kyle" uma vez para ele se virar, todas as vezes.

Mas alguns nomes perdiam o sentido de tanto serem repetidos.

O som de passos apressados ecoou do lado de fora, e a criada de Freya apareceu à porta, com o rosto pálido de pânico.

— Alfa! A senhorita Garcia está com febre e disse que o quarto está escuro demais. Ela está com medo e disse que só o senhor pode fazê-la se sentir melhor.

Kyle se levantou.

— Ela precisa de alguém por perto. Tenho que ir.

Ele não fez nenhuma pergunta, nem hesitou.

Um ano antes, no meu aniversário, eu implorei exatamente daquela forma. Puxei a manga dele e disse que, se apenas ficasse comigo naquele dia, nunca mais o incomodaria por causa de Freya.

Ele desprendeu meus dedos da manga e disse:

— Não use suas birras para maltratar alguém que está morrendo.

Um ano depois, ela usou a mesma desculpa para chamá-lo, e, mais uma vez, ele correu até ela.

Quando a porta se fechou, Eve me olhou com os olhos cheios de lágrimas.

— Luna... como pode deixar o Alfa e a senhorita Garcia tratarem você assim?

Ao vê-la daquele jeito, me aproximei e enxuguei suas lágrimas com delicadeza.

— Não chore, Eve. Não vale a pena derramar lágrimas por quem não importa. Pegue uma capa grossa para mim.

— Aonde vai, Luna?

Olhei para o norte, mas ainda não podia contar a ela. Kyle controlava todas as saídas do território da alcateia Lua Prateada, e eu só tinha uma chance.

Faltavam apenas dois dias.

"Kyle, desta vez, eu não vou mais esperar por você."
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Último capítulo

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